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Distrito 9 (2009)

Distrito 9 (2009)

Ana Flavia Gerhardt - 15 de outubro de 2018

À época de seu lançamento, o filme de ficção científica Distrito 9, roteirizado e dirigido pelo sul-africano Neill Blomkamp, impactou a indústria cinematográfica principalmente por três motivos: a qualidade de produção atingida com um orçamento bastante abaixo do empregado em outros filmes de mesmo gênero (míseros 30 milhões de dólares, em comparação com os três dígitos destinados a blockbusters estadunidenses); a presença do festejado Peter Jackson, “padrinho” de Blomkamp, entre os produtores; e o alto nível artístico e temático alcançado por um diretor estreante em longas-metragens – nível, aliás, que Blomkamp não repetiu em trabalhos posteriores, por razões que enumerarei neste texto.

Nove anos depois de seu lançamento, interessa-me falar sobre Distrito 9 em virtude do impacto que o filme também causou em mim como espectadora, e esse sentimento não arrefeceu com os anos. Pelo contrário: o filme sempre esteve presente em minhas articulações de raciocínio com as realidades contemporâneas. Neste momento de profunda crise social e ética, consigo ainda perceber a obra de Blomkamp como um poderoso meio de compreensão do presente. Essa compreensão passa inicialmente pela definição das categorias artísticas em que o filme é usualmente encaixado, e duas delas se destacam de imediato: o fato de ser um filme de ficção científica e o fato de se apresentar como uma distopia.

Como ficção científica, Distrito 9 explora um dos aspectos que identificam o gênero de forma mais característica: frequentemente, narrativas de ficção científica definem o ambiente, senão como um dos antagonistas, pelo menos como um dos elementos complicadores na trajetória da humanidade: ausência de gravidade, universos aquáticos, organismos patogênicos, florestas intransponíveis, frio ou calor intenso estão sempre presentes como obstáculos às façanhas dos heróis. Em relação a esse ponto, o filme apresenta uma inversão interessante, amiúde empregada no Cinema, a qual define a humanidade como sendo o ambiente hostil à ação alienígena.

A fotografia cromática e quase tactilmente arenosa de Trent Opaloch e os cenários propostos pelos diretores de arte Mike Berg e Emilia Roux articulam-se de maneira azeitada para construir uma periferia de Joanesburgo opressiva, hostil, caótica, quente e suja. As imagens do filme nada têm a ver com os ambientes assépticos e higienizados de boa parte das obras de ficção científica em que seres de outro planeta estão presentes. Aliás, o padrão visual de Distrito 9 quase chega a nos convencer de que não se trata de um filme de ficção científica.

O forte componente de crítica social e ética descola Distrito 9 das categorias narrativas prototípicas de ficção científica.

Imagens desagradáveis e deprimentes ocupam quase todo o tempo do filme com uma finalidade: nos comover com as condições insalubres da vida dos alienígenas que, por um grande azar, encalharam na Terra e têm estado por vinte anos miseravelmente confinados num distrito da periferia da cidade. E também nos mostrar que a peste, o parasita, os inimigos do planeta não são eles, mas sim nós, que não temos capacidade para construir um mundo em que seres diferentes ocupem um mesmo espaço físico junto conosco. Qualquer semelhança com a história das colonizações europeias não é mera coincidência.

Por sua vez, as distopias, ao situarem as narrativas em contextos espácio-temporais ou sociais distintos, mas sempre vinculados ao que consideramos “vida real”, dedicam-se à tarefa de cumprir com aquela máxima de Jesus Cristo de que conseguimos observar em detalhes o grão de areia nos olhos dos outros, mas não conseguimos sequer notar o tijolo que está bem diante no nosso nariz. Assim, se lidarmos continuamente com obras de Arte que tratam problemas exatamente iguais aos nossos como se fossem de outras pessoas, outros lugares ou outros tempos, talvez em algum momento a ficha caia e possamos ver que é de nós mesmos que se trata, todo o tempo.

Ao descrever como extraterrestres desgarrados de seu planeta os seres que a sociedade de Joanesburgo discrimina cruelmente e deseja que desapareçam, Blomkamp refere-se obviamente ao apartheid, política racista oficial que por 50 anos inundou de ódio, sangue e vergonha a África do Sul. Os alienígenas não são nada diferentes daquilo que o Pós-colonialismo e o Decolonialismo hoje denominam subalternos (termo cunhado por Antonio Gramsci), seres humanos considerados inferiores por terem nascido em outro lugar do mundo que não a Europa e a América do Norte, como descrevi em outro artigo aqui no Plano Aberto.

O drama desesperador por que passa o protagonista Wikus Van Der Merwe (Sharlto Copley) materializa a premisa de Blomkamp para o filme: somos todos iguais, porque pertencemos a uma mesma espécie. Essa igualdade, mais cedo ou mais tarde, sempre aparece, mesmo que passemos a vida inventando classes, raças, grupos, geografias e uma série de outras justificativas para nos diferenciarmos o máximo possível das pessoas que desprezamos.

A desigualdade e a injustiça social que essas categorias representam se intensifica com um looping sinistro que as leva em algum momento a se voltarem sobre si mesmas, naturalizando-se e invertendo a causa pela consequência, nos dando a impressão de que são diferentes a priori as pessoas cujas diferenças nós é que inventamos para elas.

A inversão de algumas premissas típicas das obras de ficção científica é um dos componentes que consolidam a relevância artística e temática de Distrito 9.

Evidentemente, Blomkamp não é o primeiro diretor de Cinema a levar essa premissa para a tela. Mas ele a eleva a um patamar belíssimo e imprescindível quando a articula à ideia de que a humanidade que nos anima a todos nos permite ser e fazer coisas maravilhosas. Essa humanidade sobrevive sempre em todos nós, mesmo que encapsulada pelos rótulos identitários que os opressores impõem sobre os subalternos a fim de suprimir seu desejo e sua capacidade de se nomearem a si mesmos e pensarem por conta própria.

Contribuindo para um recorte preciso dessa premissa, os dois personagens principais do filme se desenvolvem de forma integrada. O limítrofe Van Der Merwe, ao receber nepotistamente algum poder sobre o Distrito alienígena, inicialmente reproduz as ações desrespeitosas e violentas que caracterizam a atitude dos humanos diante dos alienígenas. Mas o contato com o cientista Christopher Johnson (Jason Cope) e seu filho, somado ao testemunho da delicada relação de afeto entre eles, proporcionam a Van Der Merwe a chance de humanização que, paradoxalmente, se acompanha de sua entrada num mundo que o separará dos de sua espécie, talvez para sempre.

No paradoxo de Van Der Merwe, que, ao deixar de ser humano, atinge o mais alto grau de humanidade, reside a belíssima tese do filme: a de que a empatia que o opressor precisa desenvolver pelo oprimido só é verdadeira quando leva a uma transformação radical e a uma abdicação do próprio papel de opressor. Essa ideia de integração profunda entre as pessoas como caminho para a nossa salvação como humanidade é basicamente a mesma defendida por Paulo Freire no livro Pedagogia do Oprimido. Por isso mesmo, não é por acaso que Freire é um autor proscrito nas propostas de regime de base autoritária e fascista.

Porém, as grandes qualidades de Distrito 9 acabam sendo, junto com a dificuldade de Blomkamp de construir coadjuvantes que interajam com os protagonistas mas tenham arcos e existências próprias, os maiores defeitos dos dois longas-metragens que o diretor roteirizou e dirigiu posteriormente:  Elysium (2013) e Chappie (2015). Nesses dois filmes, Blomkamp retomou a premissa central de Distrito 9 de que somos todos iguais, mas não avançou tematicamente a partir dela, porque não desenvolveu novas teses nem agregou novos elementos para reflexão. Assim, o que era relevante em Distrito 9 tornou-se redundância, quase um auto-plágio, em seus filmes posteriores.

O que esses dois filmes trouxeram de diferente, mas isso também acabou sendo um problema, foi a negação de uma ideia importante de Distrito 9 que garantia fortemente a importância temática do filme: a concepção, proposta por Gilles Deleuze, de que as ações que nos fazem avançar, as ações mais inteligentes e expressivas em termos intelectuais e artísticos, são as ações de elaborar problemas, rompendo com a trivialidade da vida e destacando, de uma realidade que está diante de nós, questões que façam despertar nas pessoas a ideia de que não é possível determinadas coisas continuarem a ser como são.

Em Elysium, porém, Blomkamp se desvia desse encaminhamento temático e ingenuamente sugere que é possível resolver o problema, no caso, a desigualdade social, que é sempre o seu assunto central. Ao criar uma solução artificial e infactível para a desigualdade social extrema descrita no filme, que mantém os pobres na Terra e os ricos em órbita fora da atmosfera, o diretor torna irrelevante a premissa que fundamenta Distrito 9.

Em Chappie, as coisas se ajeitam de forma pior ainda, já que o único elemento realmente interessante do filme é o próprio personagem-título (novamente Sharlto Copley), mas cercado de coadjuvantes monofacetados, interpretados amadoramente pela maioria dos atores, e atrapalhado por uma trama tematicamente frustrante.

Colocar-se no lugar do outro é fundamental para se tornar humano: essa é a poderosa ideia final de Distrito 9, capaz de nos fazer sair do cinema trocando as pernas.

Mesmo com os problemas que tornaram decepcionantes seus dois filmes seguintes , Blomkamp me fidelizou com Distrito 9, e eu sempre esperarei por seus trabalhos com a esperança de que de novo o espírito leonino de seu primeiro longa ressurja. E acredito, também, que Distrito 9 já é um jovem clássico da ficção científica, por duas razões: uma delas é a de agregar, em uma narrativa simples e uma história focada, sem grandes tentáculos, um volume de complexidades temáticas que nos permitem trazê-lo como materialidade para uma reflexão crítica sobre o mundo atual.

Outra razão é a de que o filme traz, em seu desfecho, uma certeza que deve sustentar todos os pensamentos sobre nossa sociedade: a de que não é possível mudá-la sem que o pensamento das pessoas mude, como defende o pensador estadunidense George Lakoff em seu ótimo livro The Political Mind. Não termos aprendido isso foi, por exemplo, um dos grandes erros no período em que o Brasil foi governado por um partido de esquerda, que buscou impulsionar mudanças sociais sem que no coração e na mente de todas as pessoas essas mudanças se tornassem necessárias, por justiça e por amor ao povo.

A repulsa às mudanças sociais em todo o mundo, que se revela agora no desejo de muitos de que elas sejam revertidas, é uma evidência de que o pensamento das pessoas não mudou. Muitas ainda pensam que não somos todos iguais. E algumas delas são tão refratárias a essa igualdade, que nem uma transformação tão radical quanto a sofrida por Wikus Van Der Merwe é capaz de comovê-las. Como isso pode ser mudado é difícil dizer. Mas já se pode afirmar que não é de um poder central que vem a mudança; ela vem das micropolíticas, das relações de empatia, afeto e carinho, como a que Van Der Merwe reconheceu entre Christopher Johnson e seu filhinho.

Esta é a lição mais bonita de Distrito 9, que faz com valha a pena ele ser visto por mais e mais pessoas: a de que a empatia e os afetos genuínos podem operar mudanças profundas na mente e no coração das pessoas.

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