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Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga

Matheus Fiore - 23 de julho de 2017

Há dois gêneros que são exemplares perfeitos para estudarmos estruturas narrativas e roteiros para cinema: ação e musical. Tendo como costume utilizar sempre os mesmos gatilhos e formatos para desenvolver histórias, ambos muitas vezes acabam sendo vistos como limitados e repetitivos por parte do público. Baby Driver (que me perdoem os leitores, mas a adaptação Em Ritmo de Fuga só será utilizada no título da postagem), novo filme de Edgar Wright sobre um piloto de fuga insatisfeito com seu emprego que se apaixona por uma garçonete, consegue utilizar vários dos clichês daqueles gêneros (principalmente do primeiro, que é dominante na narrativa) e subvertê-los, criando um filme empolgante e surpreendente, que a todo momento renova e enriquece suas próprias ideias sem nunca tornar-se repetitivo.

Edgar Wright começa seu show de estilo no primeiro minuto. Com cenas que ao mesmo tempo impressionam pela excelência técnica (o plano sequência de Baby indo à cafeteria) e pela criatividade e sutileza do diretor inglês (os grafites nas paredes da cidade que acompanham as letras das músicas tocadas no iPod do protagonista), Baby Driver conquista fácil. E Wright, que também assina o roteiro, é também feliz ao nunca dedicar tempo demais para explicar o passado ou o contexto dos personagens. Tudo acontece e é desenvolvido durante a ação, o que ajuda o filme a ter uma curva climática crescente, impedindo uma quebra de ritmo. Melhor dizendo: tudo é desenvolvido durante a “correria” e aprofundado pelos olhares incômodos do piloto, que está inserido num mundo ao qual não pertence.

Compensando a economia de falas destinadas ao protagonista, Wright é certeiro em nos fazer criar empatia por Baby ao nos colocar em seu lugar. Como não enaltecer momentos como aquele em que Bats (Jamie Foxx) bate no fone direito do personagem, e a edição de som desenha este mesmo impacto no audio, como se estivéssemos na cena (e no lugar de Baby)? Ou quando Baby retira um dos fones, o volume da música é diminuído e passamos a ouvir somente a voz, sem instrumental, algo característico de saídas de som estéreo? O que impressiona de verdade não são os devaneios estilísticos de Wright, mas a forma como ele consegue fazer tudo no filme ter uma função. Nada é gratuito ou forçado, e isso transforma o filme numa experiência imersiva. Tratemos da vibração, por exemplo. Nos é dito, no começo do filme, que, devido a um trauma de infância, Baby ouve um zumbido constante, que passa a ser empregado para remeter a seu trágico passado. O som, então, caracteriza uma memória triste ou um momento de tensão, algo que é utilizado para nos comunicar qual é o estado emocional do protagonista mesmo sem ele dizer sequer uma sílaba.

E, se a intenção de Wright é subverter expectativas, podemos ver isso não só na trama, mas também na escolha das canções do filme – todas excelentes. Fugindo do óbvio, o diretor traz artistas menos badalados ou esquecidos, e, quando aposta em gigantes, como a banda de rock Queen, não cai em clichês como We Will Rock You ou Bohemian Rhapsody. Não, Wright traz Brighton Rock, do álbum Sheer Heart Attack, um dos menos badalados da banda. Até as músicas recebem um capricho na edição. Há uma cena, por exemplo, quando há a mais tensa perseguição do filme, em que a faixa tocada é editada para que os dois solos toquem em sequência, no fim da canção (originalmente, um dos solos ficava no meio), com a intenção de deixar as duas passagens mais intensas para o clímax da cena. Coroando o fantástico uso da música, Wright ainda alia as batidas das faixas (mesmo que precise editá-las) com sons de tiros e colisões, criando um verdadeiro balé com carros e tiroteios, digno de um verdadeiro musical.

Mesmo que até aqui eu tenha exaltado a ala estética do filme, preciso elogiar o carinho do diretor em amarrar sua linguagem de forma que ela contribua para a história. Muito além das perseguições e tiroteios, Baby Driver se revela uma história de busca por liberdade, embora em alguns momentos pareça também uma homenagem a Hollywood, pelos clichês e pela forma como seu protagonista assiste a filmes e emula suas falas (a cena de Monstros S/A que ele vê com seu pai adotivo e mais tarde ganha significação em sua relação com Doc). Sabemos, desde o começo do filme, que Baby não se sente confortável em dirigir para criminosos, e alguns momentos extremamente sutis fortalecem o incômodo do personagem. Por exemplo, quando Baby vê um policial morto em um dos roubos de que participa, ele leva algum tempo até conceber a violência das ações em que está envolvido. E, quando é obrigado a colher informações sobre um alvo de um futuro golpe, seu incômodo é tanto que ele repassa a informação errada para Doc.

A todo momento, há a tênue linha que separa Baby dos outros habitantes do violento mundo criminoso em que o jovem opera como piloto. Quando Baby decide agir para finalmente se libertar, é brilhante a escolha do diretor de fotografia em inserir tanto ele quanto Debora falando ao telefone, mantendo certa distância da câmera e definindo um grande espaço sem luz entre eles e a tela, a fim de nos dizer que, para cortar os laços com o crime, Baby terá que, pelo menos uma vez, abraçar a violência que tanto o impacta e tanto marcou sua vida.

 

A separação de Baby e o “mundo do crime” também ocorre por movimentos de câmera. Wright escolhe retratar diversos momentos em planos em 360 graus, como se criasse um resumo dos mundos retratados. Há de se enaltecer, porém, que Baby nunca é retratado em tais planos juntamente aos criminosos. Com ele, esses takes acontecem quando ele está na companhia de sua amada, Debora, ressaltando a vontade de fazer do relacionamento deles o foco de sua vida, enquanto no lado dos vilões, vemos os mesmos planos que giram ao redor dos personagens de Joe Hamm e Jamie Foxx, mas nunca com Baby inserido, pois naquele momento, ele ainda consegue separar-se daquele universo.

Torna Baby Driver ainda mais brilhante a insistência de Wright de nos mostrar o quão prejudicial para a vida pessoal de Baby é seu emprego como “motorista” de Doc. O telefone que vibra quando ele conhece Debora, ou, mais tarde, quando ele tem seu encontro com a namorada frustrado e, durante uma cena de enorme tensão, vemos que Baby está ouvindo uma música apaixonada (pois a ideia do rapaz era ter um momento de escapismo amoroso, e não entrar em um conflito, como acaba acontecendo). O desprezo e receio que o protagonista sente por todos os colegas de “profissão” e por se tornar um criminoso é tanto que, quando Doc aperta o botão do elevador para ajudar o menino, ele escolhe ir de escada, por medo de trilhar o caminho que seu patrão aponta. A necessidade do escapismo do cotidiano, inclusive, faz referência direta a um dos mais importantes filmes da história, Bonnie & Clyde, mencionado nominalmente e referenciado visualmente durante a projeção (vide imagem abaixo).

Bonnie & Clyde, uma das referências visuais do filme.

E, se Baby demora a constatar que, gostando ou não, ele já está há muito no mundo do crime, o filme nos deixa a par disso desde o princípio pelo uso das cores. O vermelho é usado para retratar a violência e o perigo, estando presente tanto no figurino de um dos vilões como na luz projetada no rosto de um dos perseguidores de Baby. Está também na maioria dos carros que ele dirige, os quais, afinal, são também ferramentas dos crimes de que ele é cúmplice. Próximo ao fim, a cena que traz o protagonista em um cenário ocupado por diversos figurantes com as letras “d”, “o” e “c” nas costas, fazendo referência a Doc, é apenas mais um sinal de que Baby está preso às escolhas de seu passado. O que o motiva a escapar, então, é a paixão por Debora, que pode não estar tão presente no roteiro, mas é de fácil compreensão, se lembrarmos que a única mulher que Baby amou na vida, sua mãe, foi uma garçonete cantora, assim como Debbie.

Baby Driver não vai revolucionar o cinema, mas, sem dúvida, é um dos mais criativos e carismáticos blockbusters da década. Se em filmes de ação com pouco valor técnico a edição e a montagem  são usadas para mascarar a ausência de conteúdo visual, aqui as técnicas são uma ferramenta de aperfeiçoamento da forma de contar a história, que são capazes de criar um subtexto musical que, muitas vezes, inexiste no roteiro, mas está sempre presente na narrativa. Edgar Wright faz seu dever de casa e nos presenteia com uma obra que é uma linda homenagem ao cinema, tanto pelas referências de estilo e história quanto por detalhes minuciosos, como os óculos “Clyde” mencionados acima. E, com tudo isso, Baby Driver ainda consegue ser um dos mais empolgantes filmes de ação dos últimos anos. Palmas para o cineasta inglês.

 

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