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Encarcerado e o machismo como a prisão do desejo

Encarcerado e o machismo como a prisão do desejo

Ana Flavia Gerhardt - 10 de julho de 2017
Este texto contém spoilers sobre a trama do filme descrito

Outro dia, eu tive a infelicidade de assistir a um vídeo bastante constrangedor: uma moça branca, aparentando pertencer à classe média carioca, já inicia afirmando, para minha perplexidade: “precisamos do machismo”. A fim de sustentar sua ideia, apresenta alguns argumentos: a grande maioria das disputas judiciais pela guarda dos filhos é vencida pelas mães; os homens sofrem muito mais mortes violentas que as mulheres; os homens ocupam menos da metade das vagas nas universidades; os homens não têm Dia Internacional, nem hospitais especializados, nem leis que os beneficiem por serem homens; o câncer de próstata mata tanto quanto o de mama, mas o câncer feminino é o que recebe as maiores verbas e campanhas de prevenção; oitenta por cento da população de rua é composta por homens, e noventa por cento dos suicídios são cometidos por eles; o serviço militar é obrigatório apenas para os homens; a licença-maternidade é muito maior para as mulheres; os homens só podem se aposentar cinco anos depois das mulheres, embora em média morram oito anos antes; quando o Titanic afundou, oitenta por cento dos homens morreram, e oitenta por cento das mulheres sobreviveram; se as mulheres têm pouco espaço de poder nas empresas, os homens ocupam noventa por cento das vagas de serviços insalubres – lixeiro, pedreiro e carvoeiro; o trabalho costuma ser cobrado de forma obrigatória apenas aos homens, e não às mulheres. Levando em conta todos esses fatos, a moça conclui: “homens e mulheres sofrem, mas apenas um lado fica de mimimi”.

Minha primeira reação à fala da moça foi a de rechaçá-la de imediato e deplorar a ignorância histórica que impede a ela, e a muitos homens e mulheres que pensam como ela, de observar, numa perspectiva mais ampla, a violência de gênero que estrutura a sociedade e atinge as mulheres em âmbitos muito mais extensos e acachapantes do que os percentuais por ela apresentados. Depois disso, pensei também que a sua fala deriva de uma percepção de feminismo, e também de machismo, claro, como formas de pensamento e ação que afetariam “apenas um lado”, como se não fossem movimentos sociais totalizadores, atingindo por isso a todas as pessoas e às principais relações sociais: as de gênero, as de classe e as de raça.

E, depois disso, ainda me dei conta (e por isso sou muito grata ­à moça, porque o insight que experimentei foi algo que valeu a vergonha alheia de ouvir uma argumentação tão despolitizada contra o feminismo, e justamente vindo de uma mulher) do fato de que os problemas que ela descreve como sendo sofrimentos dos homens também são causados pelo machismo, que aflige a nós todos, mulheres e homens, mas que atinge cada grupo de maneiras diferentes. As mazelas citadas por ela são os efeitos do machismo a oprimir os homens, mas há outros infortúnios a oprimir as mulheres, de maneiras diferentes, mas apenas porque somos aparentemente diferentes, porque, ao fim e ao cabo, somos todos oprimidos, inclusive a moça.

Entretanto, ainda assim, para entender com clareza o pensamento da moça e de quem concorda com ela, ainda resta o “mimimi”. Ora, mimimi é sempre tido como uma reclamação infantil, própria das crianças; assim, para a moça, as feministas, especialistas em mimimi, não passam de criancinhas que choramingam em vez de fazer o que os “homens de verdade” fazem: engolir o choro, aguentar o tranco e tratar de ganhar o pão de cada dia, porque a concorrência é pesada. Porém, diferente da moça, tenho acreditado, cada vez mais fortemente, que precisamos de mais “mimimi”, homens e mulheres. Mas, claro, o que é “mimimi” para a moça, para mim é outra coisa.

E isso me leva ao excepcional filme Encarcerado, de 2013, disponível na Netflix. Encarcerado é dirigido por David Mackenzie, autor de pelo menos uma outra obra muito acima da média, que é Hell or High Water, um dos melhores filmes da safra Oscar deste ano. Vale notar que a temática absolutamente oportuna e relevante de Encarcerado encontra eco em outras produções que evidenciam a profunda crise dos valores masculinos, não por causa do feminismo (aliás, talvez seja por falta de interlocução com ele), mas sim por causa do próprio machismo, que traz junto a misoginia, a violência, a repressão dos afetos e dos sentimentos, a redução das ações das pessoas à  reatividade imediata e intempestiva, e a impossibilidade total de diálogos generosos e encontros verdadeiros com os semelhantes.

Ao assistir a Encarcerado, não me saiu da cabeça o também impactante documentário The mask you live in, de Jennifer Siebel Newson, também disponível na Netflix. Esse título é resumitivo da tragédia histórica que é a condição masculina imposta pelo machismo em todas as sociedades, e narra com precisão e sentimento as histórias de meninos que já no início da vida precisam suprimir a expressão dos afetos que todas as pessoas experimentam em todas as fases da vida: frustração, raiva, tristeza, decepção, mas também alegria, gratidão, delicadeza e amor. Simplesmente porque homens “de verdade” não expressam essas coisas, ou seja, não ficam de mimimi; quem faz isso é mulherzinha. Porém, evidentemente, esses sentimentos não desaparecem, mas ficam comprimidos, encarcerados, mascarando-se de violência e mais violência, e tudo o que vem junto com ela: a solidão, o desencontro, o silêncio e a dor de existir.

Por isso, Encarcerado também é um título excelente, porque igualmente resumitivo dessas questões todas, materializadas na história de Eric, jovem inglês que, aos dezenove anos, ingressa pela primeira vez num presídio de adultos por ter assassinado uma mulher: “ela era uma puta mesmo, mereceu”, diz-lhe o homem que minutos depois se descobre ser seu pai. Aliás, a menção às mulheres é uma ação discursiva constante em todo o filme, e, à exceção de uma cena, em que, num dos poucos diálogos em que se nota alguma gentileza, eles lamentam não tê-las por perto, o feminino vem como algo inferiorizado, e sempre limitado à genitália: além de faggot (bicha), as palavras cunt e pussy, usadas para designar a vagina, são frequentemente usadas para ofensas e xingamentos mútuos. É muito irônico isto: estão todos ali presos, suas vidas estão destruídas e suspensas, o perigo de morte é constante, a violência é banal, mas pelo menos não são pussies, não são cunts. Estar encarcerado pelo resto da vida é muito ruim, mas ser mulher é muito pior.

Eric não foge à regra de se julgar melhor apenas por ser homem. As características negativas do masculino como construção social estão exacerbadas nele num grau que praticamente o impedem de toda convivência social, mesmo dentro de um presídio. Dá uma sensação de fracasso notar que um rapaz tão jovem já está graduado nos saberes presidiários, manipulando com maestria os artifícios para sobreviver ali dentro, criando artefatos de auto-defesa e ataque e dominando estratégias para escapar dos guardas. A câmera exibe seu corpo já marcado de cicatrizes certamente produzidas por inimigos fora e dentro dos muros da prisão. No seu primeiro dia de pena, ele já é capaz de criar situações de risco, tensão e extrema violência, que explode com um mero olhar ou um toque que o pega de surpresa. Eric é uma máquina de matar que vive apenas o aqui e o agora, e não parece ter a mínima capacidade de se dar conta da dimensão do seu sofrimento. Tudo isso, a meu ver, resultado de uma vida em que não se podia, de forma alguma, ficar de “mimimi”.

Todos os sentidos atribuídos às coisas pelos personagens do filme, estando ou não eles presos, passam pelo signo da violência, inclusive o amor. E isso é uma das marcas mais importantes do masculino em todas as sociedades. Quando assisti a Tropa de Elite 2, me chamou a atenção a seguinte cena: o capitão Nascimento, personificação do cabra macho brasileiro, precisa aproximar-se do filho após um desagradável mal-entendido. Essa aproximação, porém, é feita sem afagos, nem beijos, nem abraços, mas sim com golpes de judô num tatame, que poderiam ter sido aplicados num ringue ou num octógono, tanto faz, já que os espaços de luta e competição são os únicos lugares sociais onde se permite que homens se toquem. Nem nos filmes pornô voltados para o público masculino heterossexual os homens se tocam. Chega a ser bizarro.

É também traduzida em violência toda forma de comunicação entre Eric e seu pai, que durante a vida inteira do rapaz esteve na prisão, enquanto Eric era abusado sexualmente em casas de adoção. Agora, estando eles  juntos, mesmo em circunstâncias tão melancólicas, o pai reconhece a chance rara que tem em mãos de finalmente desenvolver com o filho algum relacionamento paternal. Mas, por tudo o que também foi sua vida, provavelmente igual à que Eric enfrentou, faltam-lhe subsídios para obter um mínimo de sucesso nessa empreitada. Incapaz de compreender os próprios sentimentos, o pai de Eric, assim como o filho, também traduz como ameaças as ações de aproximação que percebe à sua volta, inclusive a do psicólogo voluntário que se dispõe a ajudar os homens ali dentro a compreenderem a si mesmos com um pouco de fidedignidade.

É importante, sob pena de permanecermos na ignorância do que se passa no mundo contemporâneo, detectarmos as raízes profundas dos significados que identificamos em Encarcerado, significados esses que extrapolam em muito a ficção e, sabemos, se replicam no mundo aqui fora em situações de violência presentes em cada esfera da nossa vida: homens, opressores, sim, mas também oprimidos por forças que incidem de forma devastadora sobre eles, e muitas vezes eles sequer as conseguem identificar, quanto mais desconstruir-se a partir do reconhecimento da ordem discursiva falaciosa que constitui suas vidas.

E eu acho que um começo dessa compreensão vem justamente do fracasso de todas as tentativas, que testemunhamos em Encarcerado, de construir relações humanas que não sejam atravessadas pela violência e pela repressão a toda forma de sentimento e diálogo. Me horrorizou ver que a própria administração do presídio não estava interessada em que qualquer mínima iniciativa de comunicação entre os presos desse certo. Um grupo minúsculo de cinco homens conversando já era uma ameaça ao sistema. Por quê? A quem interessa, no filme e na vida real, que as pessoas sejam inimigas umas das outras, homens inimigos de homens e mulheres, mulheres inimigas de mulheres e de homens?

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que é encarcerado, suprimido, causando o que a psicanalista Suely Rolnik, em entrevista, denomina “anestesia da potência que o corpo tem de decifrar [e mesclar-se a] o mundo” e o tornando desconhecido, e por isso tão ameaçador, a nós. Essa potência, que é o desejo, anestesia-se em função das imposições históricas que direcionam a força criadora do ser humano para a reprodução de ideias, produção de mercadorias e consumo desenfreado, mas não conseguem fazê-la desaparecer. Assim, o que é criação se empobrece e se torna produção; e o que é expressão do desejo também é reprimida e se transforma em violência, em todas as suas facetas.

Há instituições encarregadas de construir as subjetividades apropriadas ao sistema de produção em massa e acúmulo do capital nas mãos de poucos: a família, a religião e a escola, espaços em que, se a pessoa consegue permanecer nelas, o projeto dá certo. E, para aquelas com quem o projeto não dá certo, há o reformatório, a prisão e os fármacos, que operam a morte da singularidade e, muitas vezes, do corpo. Por isso é que não se pensa em nada que possa proporcionar eventos de interlocução verdadeira às pessoas encarceradas: para os donos do capital, elas já estão mortas. Por isso é que ninguém se importa quando elas morrem.

 

O que a moça do vídeo não percebe é que interessa a quem tem muito dinheiro e muito poder que haja homens, e mulheres, que não façam mimimi e que aceitem sem reclamar a opressão diária que lhes aprisiona o desejo e a singularidade. Muitos ganharão se a nossa capacidade de questionamento e reivindicação for feminilizada e infantilizada no sentido machista que, de tanto ser repetido, já se naturalizou, se tornou verdade, porque isso abre os caminhos para mais acúmulo de dinheiro e poder nas mãos de poucos. Não é à toa que se investe cada vez mais maciçamente em campanhas para desqualificar as reivindicações de homens e mulheres por uma vida com mais afetamentos de potência e mais relações em que a violência não encontra espaço, e para premiar os que se encaixam nos modelos de normalidade e dignidade. E, para a nossa desgraça, isso tem dado muito certo, haja vista a projeção social e política de figuras que levantam as bandeiras da eliminação do debate sobre raça, gênero e injustiça social.

É fundamental que filmes como Encarcerado e The mask you live in estejam disponíveis em plataformas populares como a Netflix, porque são obras importantes e motivadoras de discussões que descortinem as contradições dos modelos e valores sociais voltados para a prisão do desejo. Espero que um dia, e que seja o mais cedo possível, se possa ampliar o entendimento do machismo como um modelo de subjetividade que empobrece e violenta todas as relações entre as pessoas, e do feminismo como um dos espaços de problematização e desconstrução dos preconceitos, a fim de que possamos cultivar em nós, e sem opressão, o que nos é mais legítimo: o reconhecimento do nosso próprio desejo e o aprendizado da livre expressão do que somos, do que queremos e do que nos proporciona felicidade.

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