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Entrevista com Douglas Duarte, diretor de “Excelentíssimos”

Entrevista com Douglas Duarte, diretor de “Excelentíssimos”

Wallace Andrioli - 17 de setembro de 2018

A sessão do documentário “Excelentíssimos” no Festival de Brasília foi bastante intensa. Parte significativa da plateia interagiu com o filme durante toda sua duração (são quase duas horas e meia), aplaudindo discursos com os quais concordava (especialmente de Lula e Dilma Rousseff, mas também de lideranças de movimentos sociais e de deputados apoiadores do governo da presidenta, como Sílvio Costa) e vaiando e xingando políticos que apoiaram o impeachment, como Rogério Rosso, Alberto Fraga, Carlos Marun, Marco Feliciano e principalmente Jair Bolsonaro. Em determinado momento, até a voz over introduzida pelo diretor Douglas Duarte foi repreendida por usar o termo impeachment ao invés de golpe para se referir à derrubada de Dilma. Ao final, muitos aplausos.

Cerca de vinte e quatro horas depois, Duarte, cineasta carioca responsável também pelos documentários “Personal Che” (2007) e “Sete Visitas” (2015), conversou com o Plano Aberto sobre “Excelentíssimos”, a reação a seu filme no dia anterior e alguns aspectos da política brasileira contemporânea.

Nos últimos anos, diversos filmes vêm sendo produzidos sobre o impeachment da Dilma, desde o mais conhecido “O Processo” até outros menos conhecidos, como “Já Vimos Esse Filme” e “Impeachment, o Brasil nas Ruas”, esse último favorável à derrubada da Dilma. Como você localiza “Excelentíssimos” nesse conjunto de filmes, politicamente como cinema?

Quando a gente começou a fazer esse filme não tinha ninguém fazendo filme do impeachment, a gente começou a fazer esse filme em setembro de 2015. Então não era nem claro que haveria impeachment. Então, sei lá, não tinha muito esse pensamento de que nicho a gente ocuparia, entendeu? E eu não mudei meu pensamento porque soube que a Guta [Maria Augusta Ramos, diretora de “O Processo”] ia fazer um filme ou porque a Petra [Costa] ia começar a fazer um filme e depois que a Anna Muylaert ia fazer um filme. Conversando com uma pessoa que foi da equipe da Petra e que como eu já tinha visto “O Processo”, na saída do “Excelentíssimos” aqui domingo, ela falou que gostou muito do filme e que ficou muito feliz de ver que os filmes não tem nada a ver e em breve vão poder ser vistos como partes complementares. Acho sobre “O Processo” e o “Excelentíssimos”, acho que a gente mostra coisas diferentes, complementares, sobre o golpe. Sobre posicionamento político, não sei se eu quero ficar falando o que eu acho do filme… eu acho que o filme da Guta tem qualidades enormes e eu acho que o “Impeachment, o Brasil nas Ruas” é um lixo como filme, e acho que aqueles vídeos que ele tem não são de verdade… Em on que eu estou dizendo isso. O “Já Vimos Esse Filme” eu não vi ainda.

Um componente que foi muito presente em todo o processo que levou à queda da Dilma foram as manifestações de rua, dos setores de direita. Você usa alguns breves momentos dela no seu filme. Como você as interpreta? Você captou muito mais material delas? Se sim, como definiu esse recorte, mais focado na Câmara dos Deputados?

Tem duas coisas. A gente uma ideia inicial de fazer um filme inteiro dentro do Congresso, nunca botar o pé para fora. Foi uma ideia que a gente teve que abandonar quando a gente olhou pela janela e viu 30 mil pessoas se manifestando, cavalaria, enfim… É nessa hora que você como documentarista pega seus planos e joga no lixo. E vai ver o que pode ser feito, o que o mundo está te oferecendo para fazer um filme. Eu acho que… uma outra parte da resposta é o seguinte: eu não acho que o impeachment aconteceu porque teve manifestação na rua, eu acho que as manifestações nas ruas pelo impeachment deram uma ótima cobertura para o que era realmente conspirado em gabinete. E, enfim, acho que são diversas frentes de um mesmo ímpeto de conseguir alguma coisa. Acho que não é por acaso que hoje o MBL [Movimento Brasil Livre, que participou ativamente das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff] tem diversos deputados, diversos candidatos saindo por partidos que apoiaram o impeachment da Dilma. Esses movimentos que se apresentavam como apartidários e contra a corrupção estão super de mão dada com os partidos, e muitos deles os partidos mais corruptos da República. Se o povo foi uma variável importante na derrubada da Dilma, enfim, se foi, está perdendo bastante, né?

Você passou muitos dias observando a rotina da Câmara com a sua câmera. Você comenta em over, no início do filme, que em algum momento sentiu falta de algo e por isso construiu aquela primeira parte do filme, em que há uma contextualização de todo o processo desde 2014 até culminar no impeachment. Como se deu essa mudança? O projeto, em algum momento, teria somente esse caráter observacional?

O projeto inicial do “Excelentíssimos”, quando ele ainda era um retrato sobre os parlamentares, sobre o Parlamento, era muito observacional. A gente previa fazer entrevistas, mas quase como uma rede de segurança para a gente também poder usar, e porque eu acho a entrevista uma forma super interessante, meu filme anterior é sobre a entrevista como forma, “Sete Visitas”. Eu acho que eu falo um pouco no filme que sempre me pareceu que faltava uma parte enorme daquela história… que… na verdade eu voltei com o meu material de 2016, olhei para ele, comecei a fazer algumas pesquisas e o fio da meada foi aquela história da bomba atômica, do Fernando Henrique… E, puxando mais o fio, eu encontrei o pedido do PSDB de auditoria e recontagem dos votos e tal, questionando a validade da eleição, e começou a se criar um nexo que a gente fez com materiais de pesquisa, a gente foi encontrando e falando que é exatamente vencer essa narrativa que parecia muito cristalizada de que o PMDB traiu a Dilma por uma pressão popular de patinhos manipulados. A história é muito mais complicada que isso, eu acho que ajuda muito para quem armou o impeachment ter, um, essa cortina de fumaça de que foi um movimento popular, dois, ter uma personagem histriônica como a Janaína Paschoal, achando que ela é importante quando ela é um peão, e três, ter uma pessoa tão bem acabada no papel de vilão quanto o Temer. É muito fácil você olhar para o Temer e falar que ele é um conspirador, que ele é o cabeça de tudo. O PMDB é um partido que vai com as outras, a gente tem que perguntar que outras são essas no impeachment. Eu acho que o que o “Excelentíssimos” faz é estabelecer alguns nexos sobre isso e apontar como desde o dia, desde quatro dias depois da eleição, muito antes da Dilma tomar posse no seu segundo mandato, eles já estavam em essência botando o golpe para andar. Dizendo que a eleição não valeu e depois querendo desfazer a eleição. Então, é isso.

Você capta momentos de alguns políticos que têm, hoje, protagonismo eleitoral, sendo o caso mais emblemático o do presidenciável Jair Bolsonaro. Você teria algo mais a relatar sobre esses personagens, para além do que está no filme? Até especificamente sobre o Bolsonaro, como foi seu contato com ele ali naquele espaço da Câmara?

Foi a pior experiência de filmagem da vida, e olha que já filmei passeata neonazista na Alemanha. Mas filmar com o Bolsonaro é pior. Mas, enfim, quando você está filmando com alguém, quem quer que seja esse alguém, você está fazendo um filme com essa pessoa, você está dançando com essa pessoa. O Jean-Luc Comolli fala isso no texto dele, “Filmando o Inimigo”, na revisão do “Filmando o Inimigo”, que não adianta você ter essa postura purista de se separar, quando você está com a câmera rodando, você está dançando com ele. E é bem complicado você estar filmando com o Bolsonaro, mostrando ele como ele é e esperando que com a câmera simplesmente você consiga mostrar que você é critico àquilo. E é o que você monta no final das contas. O que fez a gente deixar de ter medo de mostrar o Bolsonaro no filme foi quando a gente se deu conta de que esse argumento de que a gente estaria dando palanque para ele, com a bilheteria que os documentários têm no Brasil e com a audiência que ele tem pelos canais próprios dele, era uma piada. A gente sabia que esse argumento, e esse argumento ainda vai aparecer, esse argumento é uma piada, isso é uma bobagem, isso é uma maneira de brecar as pessoas que querem falar contra o Bolsonaro, denunciar o Bolsonaro. Isso não é dar palco para ele, isso é questionar ele como personagem e registrar esse momento do Brasil em que o Brasil com essa tentação suicida de abraçar uma pessoa que tem problemas com o que é diverso dele.

A sessão do filme no Festival de Brasília foi marcada por reações bastante extremas. Você imaginava esse tipo de relação do público com o filme e você acha que é esse tipo de relação que vai se tornar regra nas exibições posteriores do filme?

Eu estava na estreia de “O Processo” em Berlim, que foi super nessa toada, eu estava aqui no sábado quando passou “Torre das Donzelas”. A gente está vivendo um momento de catarse intensa em que as pessoas precisam, eu acho, quando vão aos filmes… a gente cria um mundo onde a gente se irmana em certas raivas e oposições. Eu acho que as pessoas estão querendo e precisando amar os filmes e se aliar aos filmes ou odiar os filmes e botar para fora certas coisas que não têm ouvido em outros lugares. Eu entendo essa reação, eu acho que vai acontecer muito essa reação nesses próximos tempos, enquanto o filme estiver no cinema, mas eu pensei o filme para ter, não pensei para ter essas reações, eu acho que elas acontecem. E aconteceram. Não tem momentos em que eu me preparei para dar um “dó de peito”, sabe, na exibição do filme e falei “aqui as pessoas vão gritar ‘Lula Livre’ e ‘Volta Dilma’”, não é isso. Mas eu acho que tendo visto isso acontecer, eu acho que vai chegar um tempo, que eu acho que é outra relação com o filme, em que as pessoas vão poder olhar para esse filme e poder pensar junto com ele, dialogar com ele, contestar o que ele diz, partes do que ele diz e concordar com outras partes, poder conversar com o filme, que é a relação que eu tento, que eu busco ter com o documentário. Só sei imaginar, sei lá, “Idi Amin, um Autorretrato”, do Barbet Schroeder. Acho que nenhum habitante da República Democrática do Congo assiste aquele filme e fale “Morte a Idi Amin!”, sei lá. Uns 40 anos depois ele é um documento dos mais importantes, é um país que quase não existe mas tem a sorte de ter um documento brilhante sobre como foi a fundação dele. E eu espero, eu não estou me comparando ao Barbet Schroeder, mas eu espero modestamente que “Excelentíssimos” possa, daqui a alguns anos, explicar a quem tem essa dúvidas, e eu acho que muitas pessoas vão ter essas dúvidas, como é que a gente veio parar onde a gente está em 2025, 2030, 2038, sabe? É um pouco parte da arrogância do cineasta achar que o trabalho vai durar tanto, mas a gente tem que fazer as coisas baseadas em alguma aspiração. E a aspiração é essa. Eu espero que alguém que hoje tem a idade da minha filha de oito anos, um pouco mais novo, ou um pouco mais velho, que não estava acompanhando tudo porque é muita coisa para acompanhar, quando quiser olhar para trás, vai ter o que olhar para trás, e que sorte que ele vai poder olhar para três, quatro, cinco, sete filmes sobre esse assunto. Queria eu poder olhar para trás hoje para o nascimento do movimento “Diretas Já” com os olhos de cineastas que estavam naquela época trabalhando. Ou o impeachment do Collor. A gente não teve essa sorte. E no meio de tudo isso a gente tem um legado para deixar. Se vai ser um legado que serve para eles a gente nunca sabe, mas a gente tenta.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto para o 51º Festival de Brasília. Para ler outros textos de nossa cobertura, clique aqui. Para ler nossa crítica de “Excelentíssimos”, clique aqui.

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