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Escape at Dannemora

Escape at Dannemora

Elenco e direção de primeira categoria sustentando uma história sobre pessoas multifacetadas

Ana Flavia Gerhardt - 20 de setembro de 2019

As produções para Cinema ou TV baseadas em fatos “reais” estão sempre diante de duas opções: a primeira é supor que existe uma versão “verdadeira” dos fatos e construir uma trama dedicada a ser fiel a eles. A segunda é criar uma obra que, embora baseada em depoimentos, imagens e pessoas, pretende ser autônoma e sobreviver como trabalho de qualidade, independentemente do que pode ter acontecido. A minissérie “Escape at Dannemora”, em seus sete episódios, segue a segunda opção, e o espectador agradece penhorado por isso.

Contudo, muitos apreciadores de arte preferem a suposta fidelidade. De fato, há a crença de que o talento de um realizador de uma obra que se propõe artística está em sua capacidade de ser o mais fiel possível na reprodução das coisas. Uma dessas pessoas parece ter sido o agente Gene Palmer (interpretado na minisssérie por David Morse), do presídio de Dannemora, que apreciava os retratos pintados pelo detento Richard Matt (Benicio del Toro), os quais, embora medíocres, tencionavam reproduzir fielmente o rosto das pessoas retratadas.

Os fatos inspiram uma ficção que fala por si

“Escape at Dannemora” é uma obra de ficção baseada em fatos relacionados à fuga de dois detentos do presídio de mesmo nome no Estado de Nova York, EUA. Mas ainda assim é um trabalho independente, com personagens e trama que guardam em si uma inteireza e uma firme amarração interna que nos desobriga de buscar saber as notícias relacionadas ao caso, embora conhecer mais sobre ele nunca atrapalha. Essa independência, entre outras qualidades, transforma o que poderia ser mais uma notícia do noticiário policial numa história de interesse crescente pela trama e pelos personagens.

Corredor do presídio

Contribuindo para essa autonomia artística e esse interesse, as pessoas envolvidas em “Escape at Dannemora” formam, em conjunto, motivo suficiente para torná-la imperdível. Um trio de atores de primeira grandeza: o já citado e sempre excelente Del Toro e o maravilhoso Paul Dano como, respectivamente, os detentos Richard Matt e David Sweat; e a diva Patrícia Arquette como Joyce Mitchell, a facilitadora da fuga dos detentos. E, last but not least, um Ben Stiller como diretor trabalhando completamente fora da caixinha, da qual, aliás, ele já vem saindo há tempos.

As atuações

Este vídeo mostra a semelhança física entre Joyce e a personagem composta por Arquette, e ao mesmo tempo sugere que a atriz, em vez de buscar um retrato fiel, aproveitou as imagens que recebeu para enriquecer seu trabalho compondo uma figura ficcional autônoma e complexa: uma pessoa autocentrada, que acumulou problemas de auto-estima que a idade e vida sem perspectivas foram acentuando. Por isso, tornou-se incapaz de reconhecer a diferença entre quem se importava com ela e quem a descartaria quando dela não precisasse mais. Merecidamente, Arquette ganhou o Globo de Ouro pela atuação.

A Joyce Mitchell de “Escape at Dannemora” nunca é julgada por seus atos ao longo dos episódios da série. Mas isso não nos impede de notar a prevalência de sua motivação narcísica e sua convicção inabalável de que merecia mais benefícios na vida do que se esforçava para conquistar. Por isso, mesmo tendo sido usada pelos detentos em processo de fuga, Joyce, assim como fez com os demais homens de sua vida, também os usou quando se convenceu de que eles lhe dariam mais felicidade e conforto do que os outros homens que já havia conhecido.

Patricia Arquette

Por sua vez, Paul Dano enriquece seu David Sweat com nuances de atuação para além daquelas que nós fãs reconhecemos em sua versátil carreira. Já havíamos sido apresentados a alguns personagens dissimulados e ambíguos que compõem seu currículo, e a escolha pela dissimulação não teria sido inapropriada para a composição de Sweat, mas Dano nos surpreende deixando em aberto o que quisermos pensar de seu personagem.

Mesmo assim, no geral, que vemos na tela é uma pessoa inteligente, capaz de vencer as dificuldades do cotidiano e sempre atenta a aproveitar o que as circunstâncias podem lhe favorecer (inclusive se deixar usar pelas outras pessoas de vez em quando, se isso lhe for lucrativo também), mas Dano, absolutamente empoderado de seus recursos cênicos, evita qualquer cacoete de interpretação que busque manipular a opinião do espectador.

O oportunismo do personagem transparece na relação com a família e com quem interage no presídio, e é bem possível que ele sequer consiga elaborar conscientemente esses sentimentos. Mas, ao mesmo tempo, ele manifesta determinação, perseverança e espírito de equipe, valores que, se tivessem sido descobertas e potencializadas em sua juventude para algo mais interessante do que praticar crimes sem noção das consequências, hoje comporiam um homem com alguma possibilidade de vida além das limitadíssimas perspectivas que a condenação lhe impôs. De todo modo, essa determinação energiza o personagem e o mantém vitalizado de forma tal, que nos surpreendemos ao conhecer sua idade e nos darmos conta da quantidade de tempo em que está preso.

Paul Dano

Em articulação perfeita com os personagens multifacetados compostos pelos companheiros de cena, Benicio Del Toro nos entrega Richard Matt, o Serra (apelido cuja razão acabamos descobrindo ao fim da minissérie), também com o mesmo brilho e complexidade. A antítese fundamental do personagem é a desenvoltura que os anos no presídio lhe conferiram, ao longo dos quais acumulou um certo poder e até o respeito dos outros detentos, em especial Sweat, e também de alguns funcionários, em contraste com a incapacidade de existir com a mesma competência fora dos altos muros de Dannemora.

De certa forma, essa antítese vem de uma falta de autoconhecimento que o impede, entre outras dificuldades, de perceber que na prisão não goza de tanto poder quanto imagina, nem tampouco tem tanto talento artístico quanto aquele a que se atribui. Essa limitação de personalidade, embora suficiente para sobreviver na vida intramuros, não lhe permite equacionar inteligência e desinteligência, algo fundamental para que possamos negociar com a vida em todos os espaços. Por isso, desejar a liberdade pode não ser a melhor das ideias para alguns condenados – não é à toa que não raro algum personagem de ficção opta pela prisão como única alternativa de vida, inclusive no sentido biológico.

Benicio del Toro

 

A direção

Mas tão interessante e prazeroso quanto apreciar a atuação diferenciada do trio principal de “Escape at Dannemora” é fazer isso tendo em mente que se trata de uma produção dirigida por Ben Stiller. Mas esse detalhe não é mais tão surpreendente, já que Stiller vem se notabilizando há alguns anos pela presença em produções mais intimistas, algumas de grande qualidade artística. É o caso de “Os Meyerovitz: família não se escolhe”, discutido no Plano Aberto aqui e aqui e disponível na Netflix, e “Enquanto somos jovens”, ambos os filmes dirigidos pelo sempre bom Noah Baumbach.

Intensificando a antítese que permeia os personagens, a mise-en-scène proposta por Stiller explora os contrastes em diversas ocasiões da minissérie, por exemplo na trilha sonora, sonorizando com canções pop leves e divertidas momentos que nada têm  a ver com descontração. Outro contraste está na paleta de cores: Stiller mantém os cenários e a maioria dos figurinos em cinza, verde e tomate seco, mesmo quando a primavera rompe a neve e enche de luz o entorno da prisão. O conjunto desses elementos, claramente evocando o sentimento de tensão, frieza e falta de autenticidade nas relações dentro de Dannemora, é um aviso: o que as pessoas estão dizendo e fazendo ali pode revelar apenas superficialmente o que são e o que pretendem.

Cena externa da série

Auxiliado pelo impactante roteiro de Brett Johnson e Michael Tolkin, as escolhas bastante autorais de Stiller para a cronologia dos fatos reforçam a rica leitura que ele sugere dos personagens e dos fatos. A digressão aberta para que possamos conhecer um pouco mais sobre o passado do trio que se acumpliciou por uma série de motivos também é mais uma aposta num trabalho que não pretende dar respostas, mas sim humanizar as pessoas que estão sob foco, para além dos estereótipos sobre quem pertence ao universo do crime e da detenção.

O todo é maior que a soma das partes

Mas há algo mais além da relação orgânica entre os personagens e Dannemora, paralelamente à interação sinérgica dos atores entre si, de um lado, e entre atores e direção, de outro. Todos trabalham para dizer algo que atravessa toda a minissérie não apenas na construção dos personagens e na atuação de Del Toro, Dano e Arquette, mas também na organização cronológica, estética e temática da direção de Stiller: aquelas pessoas em grande medida são vítimas de uma situação externa a elas que lhes impôs uma forma criminosa de viver; mas elas também, na mesma medida, agenciaram sua vida fora e dentro de Dannemora, onde, de alguma forma, auferiram ganhos pessoais, relativamente ao seu caráter e escala de valores.

Essa avaliação é proporcionada pela absoluta coerência no trabalho dos profissionais envolvidos na obra, que trabalharam como em uma sinfonia: afinadíssimos, ajustadíssimos e guiados por um maestro talentoso e comprometido em entregar uma obra de ficção diferenciada. O resultado é, segundo a crítica especializada, uma das melhores minisséries de 2018.

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