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Famous

Famous

Nathan Amaral - 2 de julho de 2016

Certa vez ouvi de um professor de literatura, no ensino médio, que segundo um antropólogo a vida privada teve fim quando uma francesa foi à um programa de televisão de audiência e comentou sobre a impotência sexual de seu marido. Não pude, mesmo em extensa pesquisa, desvendar o paradeiro desse conto folclórico mas pouco sou cínico quanto a ele.

Assim, acredito, como Kanye West.

The Life Of Pablo (2016), o mais recente disco de West, desvendado diante de um caos dantesco e de inúmeras mudanças em sua sonoridade e conteúdo, teve a difícil (quase impossível) tarefa de suceder o pico de qualquer artista: conceber-se como Deus.

De certa maneira os primeiros minutos, executados em pleno Madison Square Garden lotado, da genial Ultralight Beam até Father Stretch My Hands, Pt. 2 nos permitiram indagar que o rumo de Kanye era outro, era o gospel, a auto-adoração ou a simples redenção total às raízes de sua música, um ponto final naquela que foi uma das discografias mais chocantes e irreverentes de todo Hip-Hop.

Até que Famous nos lembra com quem estamos lidando.

A faixa mais polêmica da história de Kanye West é também a definição perfeita de sua carreira e de suas qualidades como artista: um sample belíssimo seguido de um soco no estômago digno de uma equipe de advogados.

For all my Southside niggas that know me best
I feel like me and Taylor might still have sex
Why? I made that bitch famous (God damn)
I made that bitch famous
.”

Sim. West faz uma clara alusão ao episódio do VMA’s de 2009, onde interrompeu o prêmio de Taylor Swift “em nome da arte” e adiciona, no mix, uma premonição que implodiu a indústria da música e a internet. Até aí, “tudo bem”, o problema é quando, na madrugada do dia 25 de Junho, um clipe – verídico – é vazado na internet e mostra não só Taylor Swift mas Donald Trump, Kim Kardashian, Rihanna e Bill Cosby totalmente nus.

Mas por quê? Por que fazer isso, por soberba, por loucura, por poder, por dinheiro, para ganhar um processo na cara?

Para entender Famous, para entender estas quatro estrofes, para entender seu clipe, é necessário reler e pensar sobre as implicações da mídia e da indústria da mídia e de como ela se alimenta.

A crítica de West é uma crítica à instituição da mídia – onde pouco importam qualidades, talento, virtudes ou até mesmo a verdade. West sabe disso como ninguém, vide seu histórico não tão amigável com os paparazzi e sua relação de total descaso e dissimulação em seu retrato com a mídia “musical”. West é tratado como um louco, descabido de limites e totalmente extravagante, de um modo que bem pouco importa sua música (afinal, por críticas à indústria seu álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy, considerado por muitos o melhor disco de hip-hop da história, nem figurou nas escolhas do Grammys).

Sua crítica é pontual, certeira e chocante de um modo que apenas ele, hoje, o poderia fazer com tanta relevância e com tanta tenacidade. Ao mostrar bonecos de cera de famosos que figuraram ou na letra da música ou em escândalos atuais, Kanye nos remonta constantemente a uma realidade que gostamos de ignorar: a de que a vida privada é a única que importa. Que sugamos as celebridades porque elas nos pertencem, porque nos às fizemos e constantemente esquecemos que são humanos como nós – para o bem ou para o mal (vide o excelente trabalho em retratar a figura de O.J. Simpson em American Crime Story, da FX).

Donald Trump? Kim Kardashian? Rihanna? Taylor Swift? Kanye West?

Estas pessoas não importam pelo que fazem, por quem fazem ou como fazem. Elas importam porque transam, porque fazem chilique, porque ficam bêbadas, porque passam vergonha e porque queremos saber, dissecar e comentar cada detalhe sórdido de sua privacidade – queremos saber que estes semi-deuses endinheirados conseguem se constranger como nós, conseguem descer tão baixo quanto nós. Afinal, como Dylan escreveu em 1963: “Às vezes até mesmo o presidente dos Estados Unidos tem que ficar pelado.”.

Famous choca, incomoda e nos torna passionais porque é exatamente isso que ela quer. Porque, ou em seu deboche nos primeiros segundos ou em sua seriedade doentia nos últimos, ela é um comentário exato sobre os ídolos que escolhemos erguer e queimar.


Esse texto é dedicado à Stephanie Oliveri, pela ideia e por todo apoio. <3

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