Festival Ecrã – Solon; Mundo Sem Fim; Equinócio de Primavera

Festival Ecrã – Solon; Mundo Sem Fim; Equinócio de Primavera

Matheus Fiore - 21 de julho de 2018

“Solon”, de Clarissa Campolina – ★★★★

O curta de Clarissa Campolina é um verdadeiro exercício de criação por dialética. Por meio da interação entre os elementos fundamentais, acompanhamos a transformação de uma estranha criatura em um ser humano.  O interessante aqui é notar como o choque entre água, ar, fogo e terra molda, lentamente, as transformações que ocorrem no ambiente e na personagem.

Solon é um curta de estímulos sensoriais, utilizando seu som para nos transportar para um mundo imperfeito e em constante mudança. A obra, ao final, funciona tanto como experimento de contraposição de seus elementos, quanto como uma metáfora sobre transformação e nascimento.

“Mundo Sem Fim (Sem Acidentes Reportados)”, de Jem Cohen – ★★★★★

Os primeiros dez minutos de Mundo Sem Fim são absoluto silêncio. Cohen quer, antes de ceder seu espaço para os documentados falarem, ambientar seu espectador. Estamos em Southend-on-Sea, na Inglaterra, acompanhando trabalhadores da classe mais baixa, conhecendo suas histórias, contextos e sonhos.

O mais interessante aspecto do filme de Cohen é como ele é capaz de imergir o público nas histórias de seus documentados sem sequer cogitar abordar suas vidas pessoais. Ouvimos sobre seus gostos musicais, suas experiências como vendedores de chapéus, seus planos para o futuro, e por aí vai. A partir daí, a obra constrói um mosaico cultural, permitindo ao espectador compreender como todos os personagens vivem seus próprios mundos, muitas vezes sem perceber como eles estão interligados e compõem o cenário social daquela região.

Jem Cohen não tenta, porém, fazer parecer que seus documentados foram escolhidos a dedo. Seu recorte, na verdade, é praticamente oposto. Ao término das grandes histórias contadas, a câmera de Jem sempre percorre as ruas de Southend-on-Sea e foca, por alguns segundos, em pessoas aleatórias, nos lembrando que, em cada uma daquelas pessoas, há uma infinidade de histórias a serem contadas. Um mundo de narrativas sem fim, que graças à sutileza empregada por Cohen parece tão familiar quanto nossas vizinhanças.

“Equinócio de Primavera”, de James Benning

Equinócio é, provavelmente, o filme mais polarizador que assisti no Festival Ecrã até aqui. Nos primeiros dez minutos de projeção, mais de cinco pessoas já haviam deixado a Cinemateca do MAM. Com trinta, outras cinco já haviam sacado seus celulares para fazer outras coisas. Ao final da sessão, metade do público tentava compreender o que acabara de testemunhar, enquanto a outra metade parecia hipnotizada.

O motivo de tanta polarização? Equinócio de Primavera consiste em uma sequência de aproximadamente quinze registros de cinco minutos de diferentes paisagens de uma montanha durante a primavera. Entre as imagens, Benning insere os dados referentes ao registro, ajudando a localizar onde cada uma das imagens foi feita.

A intenção de Benning parece ser nos convencer de que Equinócio de Primavera é uma obra deliberadamente inacabada. Benning nos dá os cenários de um filme, e ao público cabe criar, em suas mentes, a narrativa desejada. Se aceitarmos que Equinócio de Primavera é uma peça de arte mais provocativa e experimental do que narrativa, é mais fácil admirar o resultado do filme de Benning e, portanto, mais fácil também para criarmos nossas próprias narrativas em cima das imagens projetadas. É, assim como quadros de Kazimir Malevič, uma obra que desafia e estimula seu público.

Ao final da projeção, cada um viu o filme que quis. Há quem tenha visto uma viagem espiritual de autoconhecimento, há quem tenha visto um pseudo-documentário do National Geographic, e há quem tenha visto, inclusive, um western sem caubóis, pistolas e cavalos – invejo a criatividade e sensibilidade dos colegas que perceberam isso. Infelizmente, este que vos escreve viu apenas uma coleção de belos cenários vazios.


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