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Fleabag

Fleabag

Série sobre como tornar-se adulta cujo único problema é ter só duas temporadas.

Ana Flavia Gerhardt - 20 de agosto de 2019

Em inglês, fleabag significa, literalmente, saco de pulgas. Seu uso aplica-se a pessoas inconvenientes e desagradáveis. Não poderia haver palavra melhor para definir a protagonista da série da Amazon Prime, vivida por Phoebe Waller-Bridge, também criadora do programa.

Nas duas temporadas de apenas seis episódios de meia hora cada uma, acompanhamos o amadurecimento da personagem através da expansão progressiva de nossa compreensão sobre o que a torna uma fleabag e quais são as soluções que ela escolhe para seus problemas e questões.

O que torna genial a série já finalizada é, entre outros aspectos, como Waller-Bridge soube condensar tantos significados importantes em tão poucos episódios e nos deixar desejando mais deles. Em meio aos importantes lançamentos de séries do primeiro semestre de 2019, a qualidade temática e interpretativa das duas temporadas de “Fleabag” não será surpresa aos espectadores de “Killing Eve”, também criada e roteirizada por Waller-Bridge.

Tendo estreado em 2016, “Fleabag” ganhou a atenção de crítica e público por uma aparente simplicidade e contemporaneidade que escondem temas complexos, articulados e atemporais, a par de questões específicas do feminismo branco contemporâneo.

Fleabag série Amazon Prime Video

Pode-se compreender o hiato de três anos entre a primeira e a segunda temporada de “Fleabag” tendo-se em vista o trabalho de Waller-Bridge em “Killing Eve” e também na preparação do novo filme de James Bond. Para os fãs da primeira temporada, valeu a pena esperar, porque o trabalho de 2019 aprofunda a imersão nos fatos e problemas propostos em 2016.

Essa imersão é facilitada pela decisão de Waller-Bridge de não nomear seus personagens, à exceção da irmã da protagonista, de nome Claire (Sian Clifford), e sua melhor amiga, chamada Boo (Jenny Rainsford). Nenhum dos outros personagens centrais tem nome, o que significa que eles podem ser qualquer um de nós, e nós podemos ser qualquer um deles.

Dores do crescimento

Inclusive porque todos nós, já adultos, fomos crianças, e infelizmente não temos a prerrogativa de, como os ursos, hibernarmos durante a adolescência (algo que, confesso, desejei por muito tempo) e não nos tornarmos os fleabags em nossos círculos sociais, entre outros sofrimentos. Por isso, a identificação com a personagem é imediata, e a ausência de nomes facilita muito nos colocarmos em seu lugar em algumas situações.

Outra opção genial da série é a de fazer com que Fleabag, a personagem, converse amiúde com o espectador, quebrando a quarta parede, nos incluindo na cena e agregando nossa simpatia. Já vimos recentemente casos em que isso aconteceu, mas por diferentes razões.

Por exemplo, em “House of Cards”, 0 corrupto Frank Underwood buscava no espectador testemunho e cumplicidade para seus atos, confiando que todos compreenderiam como legítimos seus crimes em função de sua ganância desenfreada, algo que de alguma forma também enxergava no espectador.

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Na última temporada da série, a também corrupta Claire Hale lançou não do mesmo recurso, mas agora para minimizar a gigantesca solidão que as formas criminosas de obtenção do poder absoluto lhe causaram.

Fleabag também busca o espectador como maneira de mitigar a solidão, sentimento que as pessoas imaturas também experimentam intensamente, já que não conseguem identificar seu sofrimento nem para si mesmas, quanto mais para os outros (em determinada cena do filme “Quase 18″, a mãe da protagonista rebelde sem causa lhe pergunta, “Mas o que você quer que eu faça?”, e a filha responde, “Eu não sei!”).

A impotência diante do inevitável

Mesmo já tendo recortado tematicamente a questão do processo de amadurecimento, ainda assim Waller-Bridge realiza outro recorte para balizar a relação entre Fleabag e as pessoas de seu entorno pessoal e profissional: ao longo dos doze episódios da série, a personagem trabalha com dois sentimentos que acometem as perdas que sofre: a culpa, mais especificamente duas delas, e a aceitação.

A primeira perda, e com grande culpa, diz respeito à amiga e sócia Boo, que morreu tragicamente. Sua lembrança permanece presente no café que abriram juntas e que Fleabag de início não consegue tocar adiante por absoluta falta de foco. O porquinho da Índia que Fleabag deu a Boo de presente ainda mora no café e está retratado em quadros com que a amiga decorou o ambiente. Sua jaulinha permanece no pequeno salão, espantando os fregueses.

Durante a primeira temporada, Fleabag vai elaborando e conseguindo formar imagens e linguagem clara acerca de sua participação na morte de Boo, e o gradativo progresso nessa tarefa permite à personagem espantar os fantasmas que a impedem de seguir adiante em sua vida profissional. É notável, sobre isso, a diferença em seu comportamento entre a primeira e a segunda entrevista com o funcionário do banco a quem pede um empréstimo.

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A evolução da personagem no que diz respeito a essa questão assume um traço que se repetirá em suas outras experiências: a compreensão de que a vida é assim mesmo – oferece bons momentos, mas impõe sacrifícios e não proporciona nenhuma garantia de perenidade ou felicidade. Essa compreensão, recorrente nas tramas em que Fleabag se envolve, é uma das marcas da robusta construção narrativa da série.

Ser mulher num mundo que nunca voltará a ser como era

A segunda culpa, ou melhor, talvez, a falta dela, diz respeito à perspectiva que Phoebe Waller-Bridge seleciona para narrar o amadurecimento de sua personagem. Como em “Frances Ha” (2012), de Noah Baumbach, Fleabag está bastante disposta a viver os prazeres da independência que a idade traz, mas não sabe negociar muito bem com as partes complicadas da autonomia.

Essa perspectiva focaliza a quebra dos modelos idealizados da mulher branca de classe média, que foram descritos com perfeição por Virginie Despentes no livro “Teoria King Kong”, que reproduzo abaixo:

“Porque o ideal de mulher branca, sedutora mas não puta, bem casada mas não nula, que trabalha mas sem tanto sucesso para não esmagar seu homem, magra mas não neurótica com a comida, que continua indefinidamente jovem mas sem se deixar desfigurar por cirurgias plásticas, uma mamãe realizada que não se deixa monopolizar pelas fradas e pelos deveres de casa, boa dona de casa sem virar empregada doméstica, culta mas não tão culta quanto um homem; essa mulher branca e feliz, cuja imagem nos é esfregada o tempo todo na cara, essa mulher com a qual deveríamos nos esforçar para parecer – tirando o fato de que elas devem ficar de saco cheio com qualquer coisa – devo dizer que jamais a conheci, em lugar algum. Acredito até que ela nem mesmo exista”.

Embora alinhado a “Frances Ha”, “Fleabag” contrasta com “O sorriso de Mona Lisa” (2003), de Mike Newell, ambientado nos Estados Unidos dos anos 50 e numa escola que formava mulheres ricas para as obrigações, funções e capacidades descritas por Despentes. Como recompensa para seus esforços, essas mulheres contariam com a proteção de seus maridos e de seu grupo social por toda a vida.

No século 21, não apenas tais obrigações e prerrogativas não existem mais, como, com o fim da era de abastança nos Estados Unidos e de bem-estar social na Europa, sequer há condições de possibilidade para que mulheres assim existam em classes sociais que não as muito favorecidas.

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Já compreendendo que esse tipo de vida nos coloca numa gaiola, nós, mulheres do nosso tempo, brancas ou não, e a par das condições sociais do presente, estamos compreendendo que é muito melhor buscar, relativamente ao lugar que desejamos no mundo, objetivos pessoais precisos e formas de alcançá-los por meios que nos sejam próprios.

Quanto a esse tópico, Fleabag está entre duas mulheres que buscam o caminho da autonomia, em fases diferentes: sua irmã Claire ainda se angustia entre a independência que o trabalho lhe proporciona e as culpas de não ser uma esposa modelar. A esposa de seu pai (Olivia Colman) já superou essas questões e alcançou uma existência em que cria artisticamente sem entraves moralistas. Assim, a série inclui ao mesmo tempo três diferentes perspectivas sobre como as mulheres estão lidando com esse novo tempo do mundo.

Não se aprende quando se quer, mas sim quando dá

As vidas dessas três mulheres, junto com a de Frances Ha, mostram que o aprendizado da independência não é assim tão fácil. Por isso, enquanto algumas não aprendem como existir nos novos tempos em que é preciso ser independente em todos os sentidos, aos olhos dos outros elas são isto mesmo: sacos de pulga, umas inconvenientes, que não se enxergam e não têm noção de nada.

Nada mais previsível: nas duas temporadas da série, Fleabag tropeça e não raro se esborracha no chão tentando superar a ferida narcísica de um lugar social que não existe mais, e da absoluta ausência de alguém que avalize alguma felicidade e alguma proteção.

A segunda perda, que é outro grande desafio a ser enfrentado por Fleabag, é o luto por sua mãe. Ele perpassa as duas temporadas da série e agrava sua dificuldade em se relacionar com a irmã, com o pai e com nova esposa deste, com quem a protagonista viverá encontros impactantes para elas e para o espectador também.

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Também aqui, os episódios descrevem o gradativo amadurecimento de Fleabag diante da necessidade de falar sobre sua dor com as pessoas próximas. Suas ações em relação a elas também são, na maioria das vezes, atrapalhadas e inconsequentes, muito embora denotem sempre grande amor e desprendimento. O amadurecimento, neste caso, se acompanha de um conhecimento sobre como dedicar esse amor sem misturá-lo com os próprios problemas e dificuldades de entendimento sobre o que motiva as ações dos outros.

Mesmo sem garantias, vale a pena crescer

A terceira perda fundamental na série, para cuja resolução se condensam os aprendizados todos que Flebag vai amealhando com as experiências, é aquele que diz respeito ao amor que, embora correspondido, não permite nenhuma condição de negociação. O personagem por quem Fleabag se apaixona é mais uma mostra das admiráveis opções narrativas e temáticas de Phoebe Waller-Bridge.

É significativo demais que, em sua companhia, ou seja, na companhia de alguém com quem ela compartilha um sentimento verdadeiro de afeto e por isso pode confessar as verdades pessoais que não consegue dizer nem a si mesma, o recurso da quebra da quarta parede para disfarçar a solidão deixa de funcionar.

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Mas ele é um homem completamente fora das possibilidades de relacionamento que poderia lhe levar a um papel social feminino tradicional, e mais, é preciso dizer, qualquer possibilidade de relacionamento afetivo-sexual. Assim, Fleabag não tem outra alternativa além de reconhecer que nem tudo na vida é possível obter, e que não há qualquer garantia de que nossas lacunas afetivas serão preenchidas da forma como queremos. E que ser adulto implica viver com essas lacunas e aceitá-las como parte da vida e como algo constitutivo de quem somos.

Mas, talvez, a ideia mais importante que a série traz ao fim, e que levaremos para a vida, se nos identificarmos com as experiências da personagem, é a de que vale a pena mudar, nos tornarmos pessoas melhores, mais generosas e maduras, se nesse movimento ainda conseguirmos manter perto de nosso coração, não da forma que queremos, mas da maneira que é possível, as pessoas que amamos.

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