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Graveyard: os suecos sabem fazer Rock & Roll

Graveyard: os suecos sabem fazer Rock & Roll

Matheus Fiore - 14 de abril de 2016

Um vocalista que parece uma versão grave de Robert Plant e um guitarrista contido porém diversificado e criativo somados a uma cozinha que une uma visceralidade típica de John Bonham com um baixo protagonista e incisivo no melhor estilo Geezer Butler. Isso é Graveyard, banda de Blues Rock sueca que e espantosamente ainda é desconhecida e busca seu espaço no mainstream do Rock pesado.

Formação e primeiros discos

COLAGEM

Graveyard, de 2007 e Hisingen Blues, de 2011.

A banda de Gotemburgo tem em sua formação original Joakim Nilsson nos vocais e guitarra base, Truls Mörck na guitarra solo (e ocasionalmente nos vocais), Rikard Edlund no baixo e Axel Sjöberg na bateria. A banda lançou apenas um disco com esta formação, o auto-intitulado Graveyard.  O disco é o mais puxado para o stoner metal, e é o mais discreto da banda, valendo destacar os blues de Blue Soul e As The Years Pass By, The Hours Bend, ambos interpretadas por Truls Mörck. O lançamento rendeu boas exibições cheias de improviso de Evil Ways e Thin Line ao vivo. O maior defeito de Graveyard é a má produção, que não valoriza as vozes nem o baixo de Rikard Edlund.

O segundo disco, Hisingen Blues, trouxe uma mudança, Truls deixou a banda, que contratou Jonatan Ramm. O resultado foi o álbum foi o de maior sucesso da banda, e que trouxe seu maior hit, The Siren, que se destaca pela cadência do pesado com o calmo e pela estonteante performance de Joakim Nilsson.. A entrada de Jonatan tornou o som da banda mais calcado no blues rock setentista, com muitos riffs que lembram Deep Purple e viradas no melhor estilo Led Zeppelin. Outro destaque do álbum é a excelente balada Uncomfortably Numb (nome em alusão à lendária canção do Pink Floyd), que também se transformava ao vivo. Para quem é saudosista e procura um som mais retrô, este é o disco ideal para conhecer a banda, pois é praticamente uma carta de agradecimento aos Deuses do Rock que caminharam sobre a Terra nos anos 70.

Terceiro disco: menos saudosismo e mais personalidade 

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Em 2012 a banda lançou seu melhor trabalho, o excelente Lights Out. Buscando se apegar menos ao saudosismo setentista, traz musicas mais melódicas e com letras recheadas de críticas políticas. É o disco que condensa o que a banda tem de melhor, principalmente pela gritante evolução de Jonatan, que economiza mais nos solos e riffs e torna as músicas mais encorpadas e dinâmicas. O grupo já abre com o petardo An Industry Of Murder, que tem uma excelente letra sobre imperialismo/guerra bem acompanhada de arranjos densos e uma fantasmagórica sirene:

“Wherever you go, death follows
In the shadow of your step
Waiting lurking like a vulture
Watching every move
See him feeding on the souls
Your armies will kill next
Of those who walk among us
Your evil won’t be matched”

A segunda faixa, Slow Motion Countdown, é muito beneficiada pelo teclado, que permite as guitarras apenas darem a consistência da música. Em seguida temos uma sequencia de Hard e Stoner Rock invejável, com Seven Seven e The Suits, The Laws & The Uniforms e a ótima Endless Night, com um riff que remete diretamente ao Deep Purple para fechar o primeiro lado. A segunda parte já abre com a que é, provavelmente, a melhor música da banda até hoje. Hard Times Lovin’ é uma das mais marcantes performances do vocalista Joakim Nilsson. Nessa, Joakim chega a assustar:

Raras as vezes em que vemos um vocalista colocar tanta vida numa apresentação de estúdio. O sueco mantém o timbre grave moderado por praticamente toda a música, e no clímax, como um grito de alívio, usa um timbre suave. Se interpretada juntamente à letra da música, esta opção enriquece demais a faixa, pois mostra um carinho fora do comum, que diferencia grandes vocalistas dos que simplesmente gritam. Você não só entende a letra, você sente.

Mas não só o cantor se destaca em Hard Times Lovin’, como toda a banda. O órgão harmoniza perfeitamente a canção, e as frases e lindo solo do guitarrista Jonatan Ramm lembram que saber tocar não basta, mas saber quando não tocar também é essencial. O solo simples, curto e limpo, que aproveita os espaços entre as notas é perfeito para o tema da canção, assim como a base, que também é discreta, pois o momento é todo de Joakim e sua voz. O disco fecha com o bom blues de bar de 20/20 (Tunnel Vision), que volta a trazer uma composição com depressão como tema.

A volta de Truls Mörck e o quarto disco

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Em 2015 o Graveyard anunciou o desligamento do baixista Rikard Edlund e a volta de Truls Mörck, dessa vez nas quatro cordas. Com a nova formação veio um novo projeto, Innocence & Decadence. Truls disse que a chave para o funcionamento do disco foi manter o foco diante de tantos climas diferentes no álbum.

Innocence & Decadence é uma amálgama de tudo que a banda fez até hoje. Há muito saudosismo, principalmente The Apple & The Tree, que lembra muito a clássica Sultans Of Swing, do Dire Straits. Também há muito Hard Rock com Magnetic Shunk, Never Theirs To Sell e Hard-Headed e blues com as fantásticas Exit 97, Too Much Is Not Enough e Far Too Close. Aqui, o guitarrista Jonatan trocou sua SG por uma Les Paul, resultando em acordes mais consistentes e maior liberdade sonora. Cada vez mais as guitarras de Graveyard se desapegam das afinações “Sabbathianas” dos primeiros discos.

Apesar de não ter uma conclusão marcante como seu antecessor, Innocence & Decadence é disco mais regular, sendo excelente da primeira à última faixa. Joakim novamente nos mostra sua criatividade para escrever sobre depressão e relacionamentos (principalmente na boa Too Much Is Not Enough) além de sua sensibilidade e diversidade vocal. O baterista Axel Sjöberg está, como sempre, agressivo e pesado. E Jonatan, apesar de muito econômico nos solos, faz um bom trabalho principalmente em Exit 97 e Far Too Close.

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A terceira formação, com Mörck (à direita) no baixo no lugar de Edlund.

O disco se difere dos outros em pequenas escolhas harmônicas e nos arranjos de Too Much Is Not Enough, Can’t Walk Out e Cause & Defect. A primeira é uma das melhores baladas calcadas no blues dos últimos anos, e as duas outras faixas trazem uma leve influência de psicodelia e rock progressivo que antes eram praticamente inexistentes no repertório da banda. A bela Stay For A Song fecha o álbum com chave de ouro. Uma linda e curta balada solo de Nilsson, acompanhado apenas por sua guitarra.

Uma adição que é digna de nota são as canções interpretadas por Truls Mörck. Apesar de não ter o drive de Nilsson, Mörck possui uma suavidade e inocência que aumentam o leque sonoro da banda. Além de Far Too Close, o baixista canta em A Whole In The Wall, música que traz de volta o forte lado introspectivo da banda.

Graveyard ainda não fez um disco que possa vir a ser sua Magnum Opus, mas o som da banda vem amadurecendo, e seus dois trabalhos mais recentes sem dúvidas são dignos de admiração. Mesmo em seus momentos excessivamente retrôs, o grupo se destaca pela qualidade de seus músicos. Muito mais competentes que inúmeros artistas de destaque do cenário atual do Rock, os suecos infelizmente ainda estão presos à imagem de banda underground. Talvez ainda falte um pouco de ousadia para se aprofundar na psicodelia e progressivo para alçar os escandinavos a outro patamar.

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