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Jane Austen e a sexopolítica do conhecimento

Jane Austen e a sexopolítica do conhecimento

A escritora inglesa está entre as muitas mulheres que lutaram e lutam para afirmar a potência do pensamento feminino

Ana Flavia Gerhardt - 25 de março de 2019

Uma das premissas mais importantes do pensamento feminista é a de que os direitos que nós mulheres temos hoje em muitos países do mundo são o resultado de importantes conquistas de muitas companheiras que viveram antes de nós, muitas vezes dando a vida na luta pela diminuição da desigualdade e da violência de gênero. Não é difícil reconhecer isso, já que ainda hoje muitas mulheres militam em variados campos de luta – a política, a universidade, a economia, a comunidade, as ruas – para que as conquistas já alcançadas não sejam perdidas, e para que nos países em que as mulheres não têm quase direito nenhum essa situação possa mudar.

Essa premissa fundamenta a necessidade de que nós feministas estejamos sempre atentas a trazer à mente dos que nos leem a existência e a vida de mulheres importantes para a causa feminista, que já militavam pelos direitos das mulheres muito antes de se começar a constituir esse corpo de conhecimentos que hoje denominamos Feminismo.

Uma das imagens de Jane Austen.

Essa tarefa se torna ainda mais premente pelo fato de que as feministas de primeira hora sequer se denominavam assim, mas trabalhavam com afinco em campos em que elas eram praticamente invisíveis e ninguém lhes dava importância, já que a prerrogativa do conhecimento e da competência profissional sempre foi atribuída aos homens. No entanto, elas existiram, nas ciências e nas artes, e foram muitas.

Jane Austen é uma das precursoras do Feminismo

Jane Austen (Inglaterra, 1775-1817) foi uma dessas mulheres, e, em sua literatura vibrante e perspicaz, denunciou a condição indigente da mulher no campo da construção do pensamento. A rigor, o trabalho da escritora inglesa não se limitou a isso. Em pelo menos duas obras, “Orgulho e preconceito” e “Lady Susan”, Jane tratou de mulheres que romperam com os padrões de comportamento feminino da Inglaterra do período pré-vitoriano.

Em “Orgulho e preconceito”, A protagonista Elizabeth Bennett era, como todas as mulheres de sua classe social, refém das leis britânicas de herança, que permitiam que apenas os descendentes homens herdassem bens imóveis. O temor de se tornarem sem-teto deixava as jovens mulheres ansiosas por encontrar um marido que lhes provesse sustento, filhos e um lar para morar e cuidar – aspirações máximas das mulheres do tempo Austeano.

Elizabeth recusa essa obrigação rejeitando não apenas um, mas dois pedidos de casamento – um deles do homem mais rico da região -, o que para a época era a suprema subversão. Austen demonstra ter plena consciência disso, porque inclui na narrativa um contraponto a Elizabeth na figura de sua amiga Betsy, pondo em sua boca o pensamento das moças que se veem diante de um pretendente: o que mais uma mulher pobre e sem conexões na sociedade fina pode almejar além de um marido para sustentá-la e livrá-la do fantasma da indigência?

O Cinema contemporâneo tem criado narrativas sobre a vida de Jane Austen e sobre como suas obras têm afetado a vida das pessoas. Recentemente, a escritora foi interpretada por Anne Hathaway.

No conto “Lady Susan”, levado ao Cinema com o título “Amor e amizade” e citado por mim em artigo para o Plano Aberto, Jane Austen oferece à discussão uma personagem que não dispõe de recursos materiais para escapar das imposições patriarcais de sua classe social, por isso precisa encontrar formas de sobreviver pelo casamento. Mas a maneira inteligente e consciente como faz isso a torna uma resistente, no sentido Foucaulteano da palavra: alguém que conhece como ninguém as regras do jogo e, sabendo-se impotente para mudá-lo, encontra formas de existir nas brechas das opressivas convenções sociais sem se anular como pessoa.

A exclusão da mulher do espaço público tem raízes históricas

Podemos hipotetizar que nessas duas obras emerge uma questão que diz respeito ao próprio trabalho de Austen como mulher de Letras num tempo e num lugar social em que não havia elementos conceituais para problematizar a condição da mulher. Isso levava invariavelmente todos a repetir o mesmo discurso: às mulheres cabe servir aos homens no espaço doméstico. É bem provável que, se pertencesse a uma outra classe social, Austen seria uma empregada doméstica ou trabalhadora braçal e contribuiria para o orçamento familiar, mas não era o caso. Restava a ela então depender dos proventos do pai clérigo e tutor, o que fez até obter renda pessoal com a publicação de suas obras.

Mas ela foi uma exceção. De seu lugar social, o cenário que vislumbrava e brilhantemente descrevia se compunha de uma exclusão da mulher dos espaços públicos de pensamento e ação. No campo da literatura, isso consistia na contingência de mulheres não raro terem de publicar seus textos com pseudônimos masculinos, ou como anônimas, caso de Austen. Excluídas do espaço público e dos círculos de poder decisório, e discriminadas se ousavam questionar sua exclusão, as mulheres de sua classe social e classes mais favorecidas recebiam uma educação limitada a mimos domésticos como tocar piano e cantar, ler a Bíblia, falar francês e italiano, bordar e suspirar com poesia para moças.

A educação feminina nesses moldes se manteve inafetada pela transformação de pensamento provocada pelo Iluminismo, poderosa corrente filosófica e política (lato sensu) desenvolvida no século XVIII, e que advogava pelo predomínio da razão e pela necessidade de transformação da sociedade pela filosofia e pela ciência. Mas o Iluminismo acabou franqueando apenas aos homens a entrada no campo da transformação do mundo pela aquisição de conhecimento e desenvolvimento do intelecto para tratar das grandes questões da humanidade. As mulheres permaneceram, assim, limitadas às funções de maternidade, cuidado da família e transmissão de valores morais através da criação dos filhos.

Elizabeth Bennett, a protagonista de “Orgulho e Preconceito”, é uma das mais subversivas personagens femininas da literatura que o Cinema popularizou.

A justificativa inventada para isso, como define a filósofa Judith Butler em seu livro “Problemas de gênero”, é a de que as mulheres, por determinação biológica, estariam sempre na esfera do irracional, do intuitivo e do mítico, portanto não seriam naturalmente aptas às atividades políticas e econômicas da esfera pública e macrossocial.

A sexopolítica do conhecimento é um conceito descolonialista

Em termos descolonialistas, cujos pontos fundamentais apresentei em meu artigo sobre o filme “Roma”, a ideia de Butler pode ser mesclada ao conceito de geopolítica do conhecimento, que permite reconhecer a situatividade espacial, em termos globais, de quem está autorizado a pensar: aos colonizadores brancos do hemisfério norte está concedida a prerrogativa de produzir conhecimento científico e intelectual (“está provado que só é possível filosofar em alemão”, disse Caetano Veloso). Aos colonizados do hemisfério sul resta a tarefa de hospedar esse conhecimento para a descrição de seus objetos de pesquisa; serão verdadeiras franquias gigantescas de produção em série e em massa do que os colonizadores inventaram.

Analogamente, posso pensar em uma sexopolítica do conhecimento que imperava à época de Jane Austen: os homens estão destinados à transcendência intelectual por capacidade biológica, ao passo que as mulheres precisam contentar-se com as tarefas comezinhas da vida doméstica, já que seus cérebros não são sofisticados o suficiente para produzir pensamentos que valham a pena ser repetidos, quanto mais divulgados.

Evidentemente, a sexopolítica do conhecimento é um conceito que se aplica não apenas à época de Austen: basta uma olhada na composição dos grupos de pesquisa, das equipes econômicas e das casas parlamentares de diversos países em termos de gênero, inclusive no Brasil, para constatarmos que a ciência, a economia e política ainda são majoritariamente masculinas e brancas, e que homens ainda se julgam no direito de opinar e legislar sobre os direitos das mulheres em relação a temas como aborto, licença maternidade e feminicídio, justamente por acreditarem, como já se fazia séculos atrás, que as mulheres não são capazes de pensar.

Jane Austen não foi a primeira mulher a pensar na subalternidade intelectual feminina

A exposição do tratamento subalterno conferido às mulheres nas obras de Jane Austen encontra uma denúncia mais contundente em outra inglesa que viveu um pouco antes: a escritora e filósofa Mary Woolstonecraft (1759-1797), uma crítica leonina do machismo iluminista e defensora da ideia de que a aparente inferioridade intelectual das mulheres provém de uma educação em que lhes são negadas as oportunidades de discussão sobre os conhecimentos que movem a humanidade

Em 1792, Woolstonecraft publica a obra Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, argumentando que tanto homens quanto mulheres devem ser educados como seres racionais. Contudo, vítima do seu tempo, Woolstonecraft acabou chamando mais atenção por sua vida amorosa não convencional do que por suas ideias e publicações, o que impediu por muitos anos a divulgação do seu pensamento.

Mary Woolstonecraft foi outra subversiva europeia que não aceitava a exclusão das mulheres dos espaços de poder e de decisão política e econômica.

Os biógrafos de Jane Austen não chegam a mencionar se a autora teve contato com os escritos de Woolstonecraft; o que se sabe é que seus pais queimaram muito do material escrito produzido por ela após sua morte. Assim, jamais saberemos se Austen conhecia as ideias de Woolstonecraft, nem se desenvolveu outras opiniões sobre a condição social das mulheres da Inglaterra pré-vitoriana além das que apresenta em seus livros. Portanto, é possível imaginar que em algum momento possa ter havido um encontro de ideias entre duas mulheres do Velho Mundo que fizeram avançar as possibilidades conceituais de entendimento do mundo, mesmo num tempo em que essa conquista era franqueada exclusivamente aos homens europeus.

A nós, hoje, resta colher o que dos seus ensinamentos foi preservado, para admirarmos e refletirmos sobre duas das inúmeras mulheres famosas e anônimas que lutaram pelo direito de as mulheres pensarem, proporem e debaterem ideias e decisões nas instâncias de poder político e econômico. No momento presente, nós que, em todo o mundo, lutamos pela ampliação de espaços de existência plena de mulheres de todas as raças, temos reconhecido cada vez mais, ao estudar a história das ideias que contribuíram para a concretização do pensamento feminista, que ao longo desse caminho temos nos apoiado sobre os ombros de gigantes.

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