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Lady Macbeth

Lady Macbeth

Ana Flavia Gerhardt - 20 de agosto de 2017

Qualquer pessoa que pretenda realizar avaliações e análises sobre qualquer obra, seja ela artística, científica ou de qualquer outro campo de conhecimento ou produção, precisa, de preferência, definir critérios para realizar seu trabalho, mesmo que ele diga respeito a aspectos qualitativos da obra que está analisando. A definição desses critérios é necessária, principalmente, para que a avaliação construída possa ser objeto de diálogo e debate entre o avaliador, as pessoas que se interessaram em conhecer e apreciar o que foi produzido, e, claro, a pessoa que produziu a obra. Essas percepções, eu as venho construindo ao longo dos meus anos como professora e orientadora, e acredito que o mínimo que posso fazer pelos meus alunos e orientandos é definir critérios de avaliação que também possam ser visualizados por eles, para que eles possam saber por que e pelo que estão sendo avaliados, e como essa avaliação pode ajudá-los a amadurecer como alunos e pesquisadores.

Para a prática de escrita sobre cinema, tenho aprendido que também preciso definir, para mim mesma, critérios específicos de observação de um filme, para que meu texto possa contribuir para o conhecimento das pessoas sobre ele, e para o meu próprio, claro, porque, depois que passei a escrever pela internet, meu olhar deixou de ser o de uma espectadora casual. O diálogo com os companheiros do Plano Aberto e com muitos amigos que venho conquistando como cinéfila e pessoa que lê e escreve sobre Cinema tem me ajudado a entender que uma avaliação sobre um filme, para cumprir sua função junto aos leitores, precisa buscar informações que os ajudem a conhecer mais sobre o Cinema como Arte, como linguagem e como gramática. Escrever sobre filmes seguindo esse critério ajuda ao leitor e à pessoa que escreve sobre Cinema a letrarem-se um pouco mais sobre o processo de produção de um filme e sobre como a forma cinematográfica – luz, enquadre, perspectiva, som, figurino, atuação, música, movimento, cor e muita coisa mais – se organiza para que os significados sejam construídos.

Além disso, no universo da Arte, que é completamente refratário a calculismos de qualquer espécie (e é assim que deve ser), a definição de critérios que dizem respeito à linguagem do Cinema em si nos ajuda também a considerar e comparar filmes em termos de sua qualidade artística e técnica, de uma maneira que minimize as injustiças e, ao mesmo tempo, mostre com clareza que Cinema é um trabalho que, de um lado, exige conhecimento e, de outro, se oferece como, igualmente, um meio de conhecimento. A Arte cinematográfica ser assim é um dos aspectos que me fazem gostar de Cinema: através dos filmes, conheço mais sobre o fazer artístico, sobre a vida e sobre mim mesma. Quanto mais sei sobre como se fazem os filmes, mas me masterizo nas outras coisas.

Essas reflexões todas me vieram à mente ao assistir a Lady Macbeth, o interessante filme de William Oldroyd, que empreende uma estreia muito bem-sucedida em longas após ter realizado alguns curta-metragens. O roteiro foi adaptado do romance do russo Nikolai Leskov, o qual, por sua vez, inspirou-se, como é de se esperar, mais na riquíssima Lady Macbeth shakespeareana e menos na temática da legitimidade do poder do Macbeth original, embora a atravesse em alguma medida. A trama ambientada na Inglaterra do século 19 também produz a hipótese de que estaremos diante de assuntos caros ao Cinema que focaliza esse tempo e esse lugar, como o romance social e o humor fino circundado por lindos cenários, porém estaremos diante de um desenrolar um pouco diferente. Mas não menos gratificante.

O filme é construído por meio de soluções visuais e sonoras cuja significativa evidência leva os que gostam de Cinema a necessariamente refletir sobre os recursos específicos à linguagem cinematográfica que foram empregados pelo diretor, aliás demonstrando grande conhecimento do seu ofício, e se revertem como mecanismos que tornam ainda mais poderosa a história que ele escolheu para contar. Mas, acima de tudo, o que dá excelência a Lady Macbeth é o fato de ser um filme que aposta na inteligência do seu espectador para enxergar esses mecanismos como auxiliares ao que está sendo dito, mesmo sem exigir que ele seja expert ou interessado na estrutura cinematográfica. O que é suprimido em termos de discurso transborda em imagem, posicionamento relativo no espaço, luz, som e cor.

Katherine se casa com um desconhecido e vai morar numa propriedade gigantesca encravada no norte da Inglaterra. Já de início, a condição da moça na casa é estabelecida: ela é impedida de circular nos arredores e precisará ficar dia após dia esperando a presença dos senhores – em verdade, um só senhor, que é o pai de seu marido, já que este é definido de imediato como alguém desimportante, o que se mostra claramente na cena do jantar, em que ele está colocado à parte dos outros homens em conversa. Mais adiante no filme, é relevado à personagem que ela foi praticamente comprada dos pais, e esse detalhe é interessante para mais uma vez marcar a singularidade de Lady Macbeth em relação aos outros filmes britânicos de época: com essa informação, temos de vez a certeza de que não estamos diante de uma obra inspirada em Jane Austen ou nas irmãs Brönte, mas sim de uma narrativa que se aproxima dos escritos naturalistas franceses, como por exemplo os de Émile Zola, cuja influência está também na forma como os patrões tratam os empregados, e estes a si mesmos, em algumas cenas. Essa ideia se reforça com o fato de que, na primeira oportunidade, Katherine encontra um amante e se realiza sexualmente com ele sem qualquer sinal de culpa. Mas esteja o leitor certo de que Lady Macbeth é ainda mais singular e ousado.

William Oldroyd se preocupa em demonstrar o quanto Katherine é diferente daquelas pessoas, anunciando já que suas ações também serão diferentes, mesmo sem qualquer sinal aparente por parte da moça. Vestida em lindíssimo azul, Katherine destoa antipodamente dos outros habitantes da casa, que se vestem com roupas em tons de cru ou marrom, a fim de se assemelharem o máximo possível aos móveis da casa. A única outra personagem feminina que se destaca é a empregada Anna, que, embora negra, o que não era comum na Grã-Bretanha daquela época, se apresenta a todo momento também camuflada, para evidenciar que, em espírito, também não se diferencia dos que lidam com Katherine.

A cor azul vibrante destaca Katherine dos outros personagens, mas não de uma forma positiva. Em contraste com os tons marrons e pastel dos outros personagens, o azul do vestido da jovem esposa, embora muito bonito, é uma cor fria, em comparação, por exemplo, com o vestido vermelho, uma cor quente, usado por Kate Winslet em A vingança está na moda, que destaca a personagem positivamente em relação aos habitantes da cidade em que estava. O azul frio de Katherine já anuncia a frieza com que os fatos do filme serão enquadrados, e o igual tratamento que a personagem lhes dedicará. O espectador que prestar atenção a esse azul e o interpretar como um dispositivo narrativo não se surpreenderá com o que vai testemunhar depois.

O posicionamento dos personagens também é algo a ser notado como constitutivo da narrativa. Oldroyd escolheu a posição central dos cenários para destacar a condição de cada personagem em momentos-chave; a posição é a mesma, mas a condição nunca é. O que vemos, recorrentemente, é Katherine em seu vestido azul espalhado pelo assento central da sala de estar da casa, mas o interessante é que, à medida que o filme se descortina, somos levados a diferentes leituras acerca dessa imagem: a mesma Katherine que se oferece ao nosso olhar no início do filme já não é mais a mesma na repetição da imagem, nem a mesma de novo quando a vemos no mesmo lugar uma terceira vez. Sentimo-nos convidados, desafiados a perscrutar o que há de diferente nas imagens, e reconhecer que essa diferença está em nossa leitura, e no que passamos a saber sobre a moça com base nos fatos que o filme apresenta. É muito bonito reconhecer que essa foi uma opção delicada do diretor: ao não nos dar todas as respostas de bandeja, ao confiar que somos também capazes de construir significados importantes sobre a narrativa, Oldroyd faz de nós seus co-artífices da construção fílmica. Esse sentimento de co-autoria se reforça mais ainda quando, num dado momento, é a empregada Anna que ocupa o centro da tela; mas, novamente, sua imagem suscita significados completamente diferentes, não apenas sobre ela mesma, mas sobre quem deveria estar ali ocupando o seu lugar naquela situação, e não está.

Outras duas ações bastante inteligentes do diretor estão em limitar o trato sonoro do filme aos ruídos diegéticos, tratando a música de forma extremamente parcimoniosa, e filmar grande parte das cenas em luz natural. Achei luxuosa essa escolha, porque, além de nos transportar mais naturalmente ao cenário dos acontecimentos e não fornecer motivações sensoriais para além das que são provocados pelas ações dos personagens, Oldroyd demonstra não pretender de forma alguma induzir o espectador a qualquer julgamento das ações de Katherine. Sem qualquer estímulo sonoro que se some aos barulhos da casa e dos seus personagens, e sem qualquer alicerce visual artificial, estamos entregues aos nossos próprios princípios morais para estabelecer avaliações sobre a conduta da personagem. Essa é outra das ousadias de Oldroyd, porque, com isso, ele se coloca sujeito a toda forma de leitura de seu filme, algumas delas provavelmente muito distintas do que tinha em mente ao realizar Lady Macbeth. Tal decisão, em um filme que relata ações extremas como efeito de situações também extremas, é coisa de gente corajosa. E, se pensarmos que se trata do primeiro longa-metragem de Oldroyd, que certamente irá balizar para o público e a crítica o olhar sobre suas próximas obras, já temos aí motivo para ficarmos atentos e ansiosos pelos próximos trabalhos do diretor.

Tão refinados recursos só poderão fazer sentido se estiverem a serviço de uma história marcante, o que também é o caso. Lady Macbeth se recusa ser encaixado no conjunto de filmes que problematizam a situação da mulher, porque o fato de ela ter sido tratada como propriedade é algo que constitui a narrativa, mas também não cobre a complexidade da condição e das ações de Katherine. Semelhantemente, não se trata de um filme de “crime-e-castigo”; acho que, se fosse, eu nem estaria escrevendo esse texto. Lady Macbeth, como obra global, pela trama que constrói e pelas conclusões que suscita, é a maior das ousadias de Oldroyd, porque não cabe nos modelos vigentes de moralidade, num tempo em que parecemos retroceder com discussões sociais cada vez mais pedestres, despolitizadas e sustentadas por percepções machistas e racistas. Lady Macbeth, para ser usufruído em plenitude, demanda que nos descolemos das ideologias bipolares e reacionárias que têm, perigosamente, ganhado muito espaço na mídia, porque não dará resposta nenhuma e não justificará ideologia nenhuma. E essa é a sua maior qualidade: a de nos levar a nos descontruirmos para verdadeiramente dialogarmos com ele.

Amando o Cinema e gostando cada vez mais de escrever sobre ele, eu apreciei imensamente Lady Macbeth, por todos os aspectos que citei acima. Com ele, aprendi sobre Cinema como Arte complexa e refinada, que requer, àquele que deseja entendê-lo mais, estudo, atenção e muita, muita sensibilidade. Muito disso eu já sabia quando me propus a assistir ao filme; mas, com ele, aprendi algo importante, que é um dos apanágios da Arte como um plano de existência absolutamente necessário: talvez a Arte seja o espaço mais fidedigno para olharmos a nós mesmos como realmente somos. Parafraseando um querido amigo: Lady Macbeth vai te incomodar porque é verdade.

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