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Locke e a perdição entre a genética e a cultura

Locke e a perdição entre a genética e a cultura

Ana Flavia Gerhardt - 14 de agosto de 2017

Este texto contém spoilers sobre o filme que descreve

O inglês John Locke (1632-1704) é um dos grandes pensadores da história da Filosofia, principalmente pelo fato de ter se preocupado com uma das questões humanas mais centrais, desde sempre: a de se as nossas estruturas de conhecimento são inatas ou aprendidas, ou, em outras palavras, se elas nos são fornecidas pela biologia, portanto, pela hereditariedade, ou pelo ambiente cultural em que somos criados. Nome mais importante do Empirismo, Locke acreditava que o conhecimento só nos é acessável pelas experiências, e não pelo raciocínio, pelo debate ou pela especulação. Em virtude dessa ideia, Locke também postulava que a nossa mente não apresenta qualquer estrutura cognitiva quando nascemos – é uma tabula rasa, pronta para receber e armazenar todos os conhecimentos provindos dos dados do ambiente ao redor. Para Locke, portanto, somos fruto do meio.

A proposta Lockeana tem sido usada nos últimos séculos por todo tipo de gente, com todos os tipos de finalidade. Serve para sustentar hipóteses acerca da possibilidade de que as pessoas possam sofrer lavagem cerebral ou que não seriam capazes de superar os vícios e distorções de caráter que supostamente adquiriram durante sua criação. Sustenta, igualmente, teorias comportamentais baseadas em estímulo-resposta. Está, também, por trás de todos os preconceitos que fomos capazes de inventar: por exemplo, segundo os homofóbicos, uma pessoa se tornaria gay por conviver com outras pessoas gays, e pessoas de classes sociais economicamente desfavorecidas seriam capazes de comportamentos criminosos por terem sido criadas em meios em que as condições de sobrevivência material são difíceis (aqui preciso abrir parênteses para observar que, para os preconceituosos exercerem seu preconceito, qualquer teoria serve: a hipótese inatista, de base biológica, serve à afirmação de que uma pessoa age de tal forma porque nasceu mulher, não-branca etc etc.; e que, por exemplo, se é filha de pessoas que cometeram crimes, será também criminosa).

Mas, de fato, o Empirismo nunca se impôs como teoria geral sobre a mente e o comportamento humano. Aliás, nesse campo, nenhuma teoria goza de tanto prestígio. Hoje em dia é até possível encontrar pesquisas que articulam os campos biológico e social, como por exemplo os estudos que mostram como a Neurociência e as ciências cognitivas podem ajudar na proposta de uma educação que não perpetue a exclusão social. Mas, em muitos outros aspectos, continuamos a ter uma questão, e desconfio que a teremos pelos tempos que nos restam ocupando este planeta: o que nos constitui, o meio social ou a genética? Ou as duas coisas? É interessante notar que, tenhamos nascido trazendo a carga genética dos nossos pais, em termos físicos e de caráter, ou tenhamos construído nossa individualidade a partir da forma e do lugar onde nascemos e crescemos, ou se formos o resultado da articulação entre essas duas gigantescas influências, nunca teríamos escapatória, porque sempre seremos efeito de alguma coisa, e nada teríamos de nós mesmos. Estaríamos fadados a repetir a genética ou a cultura, ou seja, nossa vida seria sempre uma repetição de outra coisa.

Será que existe algo de nós mesmos, nossa singularidade, independente da forma como fomos criados ou da carga genética que trazemos, que nos individualiza e nos proporciona um sentido de self e nos torna, de certa forma, senhores da nossa vontade e das nossas ações? Ou estamos fadados a atribuir tudo o que fazemos ou à herança genética, maldita ou privilegiada que seja, ou à nossa criação? Ou, em outras palavras: se já nascemos com nosso destino traçado, ou se somos fruto do meio, temos algum espaço de escolha? Se temos, quais escolhas estarão ao nosso alcance?

Quando eu disse a algumas pessoas que havia assistido a Locke e tinha gostado bastante, uma delas me perguntou: é sobre o filósofo? Imediatamente, eu respondi, “sim”, porque o seu protagonista Ivan Locke, interpretado por Tom Hardy, não tem o mesmo sobrenome do filósofo à toa: o conflito do personagem está justamente entre o que ele supõe trazer como carga genética maldita e o tipo de pessoa em quem ele precisa se tornar para se livrar dela. É evidente que o roteirista e diretor Steven Knight desejava que tivéssemos em mente, ao assistir ao filme, o problema sobre o que nos constitui como pessoas, porque de fato ela permeia todo o filme. Claro, não oferece nenhuma solução (se tivesse oferecido, eu não teria gostado nem teria escrito este texto), mas torna a questão visível na medida em que a traz para o nosso tempo.

Ivan Locke é um personagem que acumula uma história traumática de abandono do pai e, por isso, alimentou durante a vida um pânico de que, de vítima, se tornasse igual àquele que lhe fez mal. De fato, para afastar o fantasma do pai como alguém que supostamente o definiria e, portanto, para não fazer com os filhos o que o pai fez com ele, Ivan Locke passou a preocupar-se em fazer tudo certo. Na esfera pública, exibe uma vida perfeita: é um homem bonito, saudável, educado, um engenheiro civil competente, que cumpre com suas obrigações civis. Constituiu família dentro da estrutura social ocidental e heteronormativa contemporânea: é um pai presente, parceiro de sua esposa e próximo afetivamente de seus filhos. Conquistou uma condição financeira que lhe permite criar os filhos sem dificuldades que o obriguem a abandoná-los. Em dez anos de carreira profissional numa construtora, ninguém se lembra de uma falha dele. Para mostrar tudo isso, Knight oferece, além dos diálogos entre Ivan e os demais personagens, elementos não-linguísticos que nos ajudam a situá-lo socialmente, como o carro caro que dirige, suas roupas, as inferências sobre seu status profissional etc., o que é fundamental para que possamos formar um quadro preciso do personagem. Em resumo, tudo indica que Ivan tem uma vida absolutamente sob controle.

O problema – sempre tem um problema – é que a vida não é tão controlável quanto Ivan pensa, e é chegado o momento de encarar isso. Durante uma viagem de trabalho, ele comete um deslize: numa noite particularmente ébria, faz sexo casual com uma desconhecida, e ela engravida. Ele decide consigo mesmo assumir a criança, ou seja, não abandoná-la, como seu pai fez, e, em sua mente, o fato de ter sido um homem correto e responsável pela vida toda é a garantia de que o perdoarão por seu único erro e lhe permitirão seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Mas a criança anuncia seu nascimento justamente no dia em que um importante serviço, talvez o mais importante de sua vida profissional, deverá ser realizado, e não pode ser adiado. Diante dessa difícil eventualidade, que o obriga a escolher onde estará – junto aos seus subordinados ou junto à mãe de seu filho – Ivan passa os noventa minutos do filme gerenciando por telefone as três dimensões do seu problema: o serviço que precisa ser realizado, mesmo que ele não mais pertença à empresa, a mãe de seu bebê em trabalho de parto e a revelação de seu erro para a mulher (Ruth Wilson, de The Affair) e para o filho adolescente (Tom Holland, que ultimamente está em todas). O filme se desenrola em tempo real, que é justamente o percurso entre a cidade em que mora e aquela em que a mãe de seu filho está dando à luz e demandando sua presença. Ivan dentro do carro dirigindo é a única figura que aparece visualmente no filme, e os outros personagens se revelam por meio de suas vozes ao telefone. De forma que Locke é um filme que se sustenta quase exclusivamente num único ator.

E que ator. Tom Hardy, que sempre nos presenteia com atuações no mínimo interessantes, prova mais uma vez por que tem sido sistematicamente escolhido por diretores respeitados para papeis importantes, em alguns casos mais de uma vez. Para quem mesmo assim ainda acredita que ele só consegue fazer papel de lutador de MMA ou de gângster, Hardy nos entrega uma arrebatadora performance limitada ao tronco superior, com toda a intensidade focada em seu expressivo rosto, mas sem nunca recorrer a recursos fáceis ou muletas de atuação. Ao longo do filme, o ator constrói um registro sereno, que vai se intensificando gradativamente e de forma muito verdadeira porém sutil, explorando os recursos disponíveis no exíguo espaço do carro, como por exemplo o tique de recolher a manga do suéter à medida que os problemas se complicam. Mas tudo isso é realizado com tanta competência, que em nenhum momento acreditamos que o personagem não está sendo afetado pelos acontecimentos, ou não é adulto o suficiente para não ter total consciência da situação em que se encontra. Através de suas escolhas de atuação, Hardy demonstra ter conhecimento do personagem como uma pessoa que realmente acredita poder dar conta de tudo, ao contrário do que fez o pai, daí passar uma parte do filme mantendo a serenidade mesmo quando é demitido em função de sua ausência no trabalho ou quando recebe a reação da esposa pelo que fez.

Vemos também, ao longo do filme, a utilização, tanto por parte de Knight quanto de Hardy, do que eles têm à mão como dispositivos narrativos, e o mais bacana de tudo é verificar que eles recusam as saídas fáceis para percorrer o arco de intensificação das emoções de Ivan à medida que ele se dá conta de que as coisas saíram de seu controle e não vão funcionar conforme previsto. Fiquei aliviada em ver que em nenhum momento ocorre o risco de um acidente ou atropelamento, mesmo com toda a agitação motora do personagem preocupado em realizar sua tarefa profissional à distância, ou seu desencanto consigo mesmo por ter falhado. Esses sentimentos transparecem de outra forma, como, por exemplo, no momento em que Ivan diz à mãe de seu filho que estava na estrada dirigindo a 140 km por hora, o que é uma ação impensável para quem, como ele, só conduz dentro dos limites da lei.

Os momentos de emoção sem disfarce se dão no diálogo simulado que Ivan trava com seu pai falecido, e nesse pormenor a direção também interfere lindamente, com o reflexo de Ivan ao espelho e com seu olhar sobre o banco de trás do carro, como se vigiasse a própria sombra. A conversa de Ivan com seu reflexo e sua sombra remete à temática do filme relacionada ao embate entre genética e cultura – a qual, a um só tempo, também é o embate interior de Ivan, em que ele ora se apropria de si mesmo e de seu domínio sobre a própria vida, ora se entrega ao rancor não resolvido por seu duplo – seu tão temido espelho e sua tão incomodativa sombra, que juntas materializam a memória de seu pai. E, quando Ivan não está se esforçando em gerenciar o próprio comportamento, suas dores recalcadas nos chegam tão verdadeiras, que a frase “agora entendo o que você fez”, enunciada por ele em algum ponto de seu diálogo mental com o pai, não nos convence em nenhum momento como sendo sequer um arremedo de perdão. Mas talvez a frase seja uma forma de Ivan tentar perdoar a si mesmo por seu único e fatal erro, além de, e esta é a sua única ação realmente reprovável, justificar sua infidelidade desqualificando a pessoa com quem a cometeu, meio que repetindo a história do pai, que também deve ter alegado justificativas semelhantes para abandoná-lo.

Nesses momentos-chave do filme, em que não precisa disfarçar para os outros qualquer governo absoluto de si, Ivan chora, pelo menos três vezes – de tristeza, de desespero, e, por fim, para entregar o arco completo da viagem interior do personagem, de pura compreensão do que existe de importante sobre a vida. E essa epifania lhe é trazida justamente por seu filho, que ainda está muito jovem para ter construído as carapaças com as quais achamos que nos defendemos dos sofrimentos, mas que só resultam em incapacidade de auto-avaliação e distanciamento daquilo que existe de mais vital nas experiências. Não tendo ainda desenvolvido as estratégias de auto-defesa que muitos de nós conhecemos, seu filho pôde enxergar muito melhor que ele a verdade que ele ignorou por toda a vida: sim, podemos errar, porque somos humanos; pessoas que erram muito de vez em quando acertam, e pessoas que acertam muito também podem errar de vez em quando, e isso não as arrastará para os vaticínios da genética ou da criação: apenas revela que elas são humanas, e por isso contraditórias. Suprimir a possibilidade do erro, em vez de ser o tal perfeccionismo que muitos orgulhosamente se atribuem, não passa de excessiva preocupação com a própria imagem, própria de pessoas que são tolas a ponto de acreditar que podem controlar o incontrolável: a opinião dos outros sobre elas.

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