Mank

Mank

Os bastidores de Hollywood pelo olhar do artista esquecido

Matheus Fiore - 4 de dezembro de 2020

Mank exala um forte desejo de David Fincher pela desconstrução da aura romântica de Hollywood da era de ouro. Quando mostra algum set de filmagem, o faz quase sempre deixando no fundo do plano, de enfeite para as caminhadas ou diálogos dos personagens. É um filme que, desde seu roteiro até toda a estruturação da mise-en-scene, coloca o cinema em segundo plano e parece muito mais interessado no caráter humano (ou desumano) de quem comanda o show. Porém, é justamente nesse caráter humano que o filme encontra seus maiores problemas.

Fincher não constrói exatamente um protagonista maniqueísta. Mank é infiel, alcoólatra, arrogante, entre outras coisas. Mas quando vai ressaltar sua humanidade, precisa recorrer a situações tão óbvias quanto inócuas. O diálogo entre uma assistente e uma empregada doméstica revelando um belo feito humano de Mank é até bonitinho, mas estéril. Nada se constrói ou se propõe a partir daquilo. Mank continua sempre como um sujeito que, apesar dos defeitos, é tão complexo quanto uma cadeira. Fincher parece muito interessado em apresentar Mank como um escritor genial que fora ofuscado pelas grandes estrelas de Hollywood, mas essa genialidade nunca é refletida na narrativa; não há praticamente nada que sustente essa ideia de gênio incompreendido em Mank e não há nada nessa proposta narrativa que faça do filme algo além de um drama… Comum.

O que considero até aqui o melhor filme de David Fincher, A Rede Social, pode ser lido como um verdadeiro remake do clássico Cidadão Kane, já que ambos os protagonistas criam uma mídia, um mundo paralelo, para compensarem seus fracassos ou decepções pessoais. Mas engana-se quem pensa que isso denota certo carinho de Fincher por Orson Welles. De um tempo para cá, Fincher colecionou algumas cutucadas, chegando a chamar Welles de arrogante e delirante. Mank, seu novo projeto sobre o roteirista de Cidadão Kane, Herman Mankiewicz, chega para nos mostrar que, na verdade, o fascínio de Fincher pelo clássico de 1941 realmente existe, mas não graças ao genial trabalho de Orson Welles, e sim apesar dele. É um interesse, talvez, muito mais pela primeiro longa-metragem de Welles especificamente, não pelo todo artístico, e que ainda assim, é muito menos por Welles e mais pela obra como um todo e, principalmente, pelas figuras secundárias de um dos mais bem sucedidos filmes da história do cinema americano.

O filme acompanha o período prévio ao início da escrita do argumento da obra até o momento em que Mankiewicz discursa com a estatueta do Oscar em mãos. Nesse meio-tempo, Fincher nos pega pela mão e nos faz ir de mansão em mansão, de estúdio em estúdio, de set em set, aventurando a narrativa pelos bastidores de Hollywood. Mank (Gary Oldman) é um sujeito que parece sempre estar um pouco deslocado de tudo que acontece ao seu redor. Consegue circular nos ambientes mais simples e nos mais luxuosos, sendo sempre alguém importante nas conversas, mesmo que se destaque demais do restante dos participantes. O único lugar em que Mank realmente se sente confortável é ao lado de outros roteiristas – pontuando como, para Fincher, os roteiristas são figuras muita vezes invisibilizadas, apagadas de Hollywood, como um personagem evidencia ao se referir a Mank com um nada sutil “ele é só um escritor”.

Tirados os grandes nomes e a aura “David Fincher”, Mank é um filme um tanto quanto genérico, tanto em sua estrutura – a conclusão digna de qualquer biografia Oscar bait –, temos um filme que apresenta ideias interessantes para falar sobre a Hollywood que existe além dos flashes, mas que nunca consegue construir algo de interessante a partir disso. Chega a ser irônico que em um filme que claramente vilaniza a figura de Orson Welles, os únicos momentos de magia diante das câmeras são justamente quando Welles (Tom Burke) magnetiza nossa atenção.

No fim, vale a ideia de fazer e tratar como filme a história do que acontecia por trás das cortinas de Los Angeles. Vale tratar os atores como se eles fossem tão ocos quanto os personagens que interpretavam. Vale mostrar que o mundo de fantasia e glamour era na verdade um ambiente sujo, corrupto e ignorante. Só não faz tanto sentido tentar vitimizar ou até tornar herói ou mártir o personagem que, no filme, não é nada além de um bobão com boas intenções – e que ainda é beneficiado pelo fato de o filme não medir esforços para que sua moral sempre esteja alinhada com a dele. Quer saber? No fim, o que mais vale, infelizmente, é curtir as poucas aparições do Orson Welles, que até quando emulado por terceiros, consegue magnetizar nosso olhar. Assim como, sozinho, o roteiro de Mank jamais garantiria um grande filme – afinal, o sucesso de Cidadão Kane se deve principalmente a sua qualidade estética –, as boas intenções e esforços pessoais de David Fincher não fazem de Mank algo que sequer chegue perto das obras anteriores do talentoso cineasta.

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