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“Me Chame Pelo Seu Nome” e a ideologia de gênero

“Me Chame Pelo Seu Nome” e a ideologia de gênero

Ana Flavia Gerhardt - 18 de janeiro de 2018

Nos primeiros dias de Novembro de 2017, a filósofa estadunidense Judith Butler esteve no Brasil para uma série de eventos acadêmicos em Universidades de São Paulo e para um seminário sobre política e democracia no SESC Pompeia. Embora neste momento Butler não esteja discutindo as questões de gênero de forma central em seu trabalho, grupos ultraconservadores se organizaram para repudiar sua presença no Brasil, distorcendo grosseiramente as ideias contidas em seus livros sobre o assunto. Exigiam o fim da chamada “ideologia de gênero” e empunhavam cartazes com frases como “deixem nossas crianças em paz” e “menino nasce menino e menina nasce menina”. Chegaram até, em ato irresponsável e retrógrado num grau medieval, a atear fogo numa boneca vestida de bruxa com o rosto da filósofa.

De volta aos Estados Unidos, Butler escreveu um dos textos mais importantes do ano passado, que foi publicado na Folha de São Paulo e pode ser lido aqui. Nele, Butler explica os argumentos básicos da teoria que desenvolveu, cuja leitura, bastante livre, por sinal, realizo neste artigo. A discussão de Butler e a de outros pensadores que discutem gênero na contemporaneidade vai contra o senso comum segundo o qual nossa expressão sexual e de gênero tem bases exclusivamente biológicas. O que as pessoas leigas nessa questão acreditam comumente é que, por termos nascido com um pênis (e demais órgãos reprodutores masculinos) ou uma vagina (e demais órgãos reprodutores femininos), teremos de ter necessariamente uma expressão social respectivamente masculina e feminina, e necessariamente temos de desejar sexualmente pessoas com órgãos reprodutores e expressão social complementares aos nossos.

As teorias filosóficas e sociais que questionam essa ideia consideram que a biologia não é a única dimensão de existência que nos define. Articulam-se a ela as dimensões da expressão social, relacionada a sentir-se/reconhecer-se homem, mulher ou outra alternativa,  e da experiência pessoal, que diz respeito ao desejo e sentimento de cada um por outras pessoas. Os atravessamentos entre essas três dimensões provocam variadas combinações que às vezes não cabem de forma alguma nos padrões sociais conservadores, de base biológica, que preconizam que características físicas, gênero social e desejo devem coincidir. Os termos hoje usados para descrever as pessoas que se localizam em algum ponto desses atravessamentos não cabem nem neste nem em nenhum texto. Isso é uma evidência da gigantesca diversidade humana no que diz respeito ao sexo, ao gênero e ao desejo. E, embora o sexo seja algo praticado pelas pessoas desde sempre, ainda não conseguimos, por motivos que também não cabem em nenhum texto,  aprender a lidar com ele como uma ação espontânea, inerente ao ser humano. Isso nos torna reféns, nós e nossos tabus, de oportunistas como os grupos de ultradireita que agora ganham destaque na mídia e na política brasileira.

Evidentemente, desde sempre tem havido pessoas que não cabem no trinômio sexo, gênero e desejo na perspectiva conservadora. Pessoas que nascem com alterações nos órgãos reprodutores, gays, lésbicas, pessoas trans, pessoas vivendo todas as formas possíveis de gênero e sexualidade, e algumas ainda por inventar, sempre existiram. Mas sempre escondidas, porque tidas como bizarrices ou aberrações. Numa clara contradição interna em relação à ideia da base biológica exclusiva para a “identidade” sexual, o pensamento tradicional-conservador sempre considerou que “anomalias” dessa natureza eram comportamentais e consistiam em alguma excentricidade da pessoa. Portanto, ela passar a assumir um comportamento “normal”, semelhante ao da maioria das pessoas “de bem”, era apenas uma questão de vontade. O que significa que a insistência em manter um comportamento “anormal” revela falta de caráter. Daí para as pessoas se convencerem de que gays são pedófilos, como realmente muitos acreditam, e a própria Judith Butler ouviu de uma manifestante, não falta quase nada. É com base em mais essa ideia falsa que muitos países já criminalizaram e ainda criminalizam práticas afetivo-sexuais não heteronormativas.

O que é a ideologia de gênero e quem a inventou

A grande reação conservadora aos movimentos sociais que lutam contra o machismo e a homofobia produz invenções como o conceito de ideologia de gênero, cunhado, segundo o artigo de Judith Butler citado aqui, por membros da Igreja Católica na década de noventa do século passado. Por puro oportunismo, o conjunto de ideias reunidas sobre o rótulo “ideologia de gênero” é falsamente atribuído a grupos sociais e intelectuais que lutam contra os preconceitos de gênero – o machismo e a homofobia. Segundo a reação conservadora, esses grupos postulariam as seguintes ideias:

a) Não existe qualquer base biológica para as ideias de masculino e feminino; trata-se apenas de construção social: falso – os teóricos que estudam gênero e sexualidade reconhecem a dimensão biológica articulada à social e à individual.

b) Além dos gêneros masculino e feminino, haveria outros: parcialmente verdadeiro – de fato, a distinção masculino x feminino não cobre as possibilidades e formas de as pessoas se percebem e se reconhecem em termos de gênero dentro das relações sociais. Mas isso não diz respeito a aspectos identitários, já que as pessoas se definem por meio de suas ações e práticas em diversas situações, e não por meio de rótulos ou definições dadas previamente pelas normas sociais e aprendidas durante nossa vida. Em resumo: somos o que fazemos e construímos na vida, e não o que os outros querem que sejamos.

c) Os supostos ideólogos de gênero pretendem impor seu modo de pensar por via educacional e punir as pessoas que não pensarem como eles: nada mais falso – quem deseja isso são justamente os grupos conservadores e de ultradireita, que hoje ocupam espaços de poder político importantes no Brasil e no mundo, e desejam impor um comportamento social masculino e feminino de base exclusivamente biológica a todas as pessoas, sobretudo aquelas que não se encaixam nos padrões por eles definidos, e restringir os direitos civis de quem recusar suas determinações.

O que faz com que seja inventado todo um corpo de pensamento, e que isso seja levianamente colado a um grupo específico que nunca pensou dessa maneira? O fato de que a supressão de direitos sociais de grupos vulneráveis, como gays, lésbicas, travestis, pessoas trans, mas também mulheres, não-brancos, pessoas de classes menos favorecidas, faz parte do projeto neoliberal, que se baseia não na distribuição equitativa de renda, mas sim no acúmulo de capital nas mãos de grandes e bilionárias corporações.

Os estudos de gênero e os movimentos sociais anti-machismo e anti-homofobia existem porque as pessoas não estão mais dispostas a ficar nas sombras e terem seus direitos suprimidos. Terem ficado invisíveis por longos períodos da história, a fim de não agredir a família tradicional (outro conceito pra lá de perigoso, como comprovam os artigos sobre abuso sexual infantil intrafamiliar em sociedades como a brasileira), os tem, paradoxalmente, exposto a toda sorte de violência e desassistência. Pessoas são espancadas, violentadas e mortas porque seus corpos não se encaixam em modelos sociais heteronormativos. São tidas como culpadas por uma suposta degradação da sociedade, diante da hipocrisia e do silenciamento de quem testemunha a real violência, muitas vezes praticada por quem deveria proteger os mais vulneráveis. É contra isso que os movimentos sociais se insurgem: contra o preconceito que discrimina e mata.

O Cinema é sempre permeável às mudanças de pensamento. E é ótimo que seja assim

O Cinema, sempre presente e sensível aos movimentos humanos, não está de fora da discussão sobre gênero e sexualidade. Filmes de diferentes épocas são permeados pelas ideias que fervilham em cada tempo. Eu serei muito injusta agora, citando filmes importantes que podem ser objeto de longas análises sobre o assunto e deixando muitos outros igualmente importantes de fora deste texto. Mas, fazendo uma comparação no mínimo grosseira, é gritante a distinção entre a composição do casal protagonista de A Gaiola das Loucas, de Édouard Molinaro (1978), repleta de caricaturas que o tornam praticamente assexuado, e o de Brokeback Mountain, obra prima de Ang Lee (2005), que traz dois galãs interpretando cowboys do Wyoming, que em nenhum momento assumem atitude caricatural. Brokeback Mountain se possibilita porque, no século 21, já se havia fechado o arco de terror iniciado com a AIDS – pânico, conhecimento, convívio -, o que franqueou a expressão cinematográfica do desejo homoafetivo. Brokeback Mountain, um filme de amor sem medo de provocar tesão na plateia, é um marco libertador da higienização e castração que Hollywood impunha para vender os filmes de temática LGBTQ aos yankees brancos e protestantes.

Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino, recebeu crítica de Matheus Fiore no Plano Aberto e é o mais recente de uma série de trabalhos que seguem desconstruindo a imagem tradicional dos personagens LGBTQ, que inicialmente atendiam a preceitos que lhes exigiam um comportamento assexuado, infantil e caricatural, para torná-lo palatável à família judaico-cristã. Mesmo ainda havendo exemplos em que a caricaturização acontece, ela felizmente tem sido relegada a filmes sem ousadia artística, como Cruzeiro das Loucas, de Mort Nathan (2002), com Cuba Golding Jr. em atuação constrangedora, e Se Eu Fosse Você (tanto o original de 2006 quanto a continuação de 2009), de Daniel Filho, com um Tony Ramos acreditando que comportar-se como mulher e comportar-se como uma caricatura de gay é a mesma coisa.

Dentro da proposta de desconstrução, tem aparecido nos filmes a problematização das categorizações identitárias, já prevista nos estudos de gênero: não haveria, na verdade, uma determinação dada a priori sobre o sexo e o gênero de quem iremos desejar e amar. Ou seja: não haveria propriamente rótulos e identidades sexuais e de gênero, mas sim práticas sexuais e de gênero. Ou seja: não somos gays, lésbicas etc. ou heterossexuais, mas sim assumimos práticas e atitudes gays, lésbicas etc. ou heterossexuais, e isso não precisa ser uma definição única para toda a vida. Essa ideia norteia filmes como Um Amor na Trincheira, de Frank Pierson (2003), Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko (2010), Tomboy, de Celine Sciamma (2011), Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche (2013), Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013), A Criada, de Park Chan-wook (2016), Heartstone, de Guðmundur Arnar Guðmundsson (2016), este discutido por mim aqui no Plano Aberto, entre muitos outros mais.

A ideia de que podemos assumir práticas sexuais de diferentes orientações ao longo da vida abriu espaço para que filmes com temática LGBTQ fossem também se descolando do rótulo “filme gay” para serem vistos como filmes de amor e romance, com finais felizes ou não. Tais filmes recusam a imposição conservadora de “normalidade” e “aceitabilidade social” para os comportamentos afetivo-sexuais, de base ora biológica, ora comportamental, dependendo das intenções oportunistas de quem a enuncia. Me Chame Pelo Seu Nome, a meu ver, é o exemplo mais acabado dessa recusa, além de ser um passo à frente na tradução cinematográfica da temática LGBTQ.

Em alguns dos filmes que citei acima, uma ideia que se repete é a de que a sexualidade é um aprendizado que se faz em épocas mais precoces de nossa vida, como a adolescência, o que sugere que ela se consolidaria como orientação definida na maturidade. Tomboy e Heartstone são exemplos dessa ideia: adolescentes, ainda sem saber que orientação sexual e de gênero assumirão, experimentam angústias e descobertas. Espera-se, da forma como os filmes sugerem, que no futuro eles viverão como heterossexuais ou homossexuais. Observe-se que essa maneira de tratar as coisas ainda aborda a sexualidade como algo identitário e previamente dado, o que é um entendimento bastante distinto do que estou afirmando aqui. O que estou afirmando é a possibilidade de nos desfazermos de rótulos e categorias dadas por outras pessoas ou por modelos sociais, e nossa vida e nossa percepção de nós mesmos ser definida pelo que fazemos e pelo que desejamos.

Me chame pelo seu nome é um filme subversivo porque recusa rótulos para o desejo

Essa é a questão proposta por Me Chame Pelo Seu Nome, que conta a história de dois homens que se desejam e desenvolvem entre si um afeto intenso, mas sem descartar a possibilidade de que também possam desejar pessoas do outro sexo, o que realmente fazem. O desejo entre esses dois homens se compõe não apenas de atração física, mas também de fascínio pela personalidade, inteligência e talento de cada um deles. Em nenhum momento eles demonstram conflito existencial em relação ao desejo que sentem  – simplesmente o vivem, e a dor e angústia que experimentam referem-se tão-somente às expectativas e receios relacionados ao desejo do outro.

Por isso, é fundamental perceber que as formas como o casal protagonista se relaciona com o próprio desejo são semelhantes, mesmo tendo eles idades diferentes. Para isso, concorrem, como elementos preciosos, a atuação de Timothée Chalamet e Armie Hammer, em particular este último: as imagens do filme que se marcaram em minha memória foram justamente aquelas em que a narrativa se volta para a perspectiva do sentimento de Oliver (Hammer), mais velho, mas também tão assustado, urgente e temeroso em viver seu desejo quanto seu jovem par.

É  nesse pormenor que Me Chame Pelo Seu Nome se diferencia de Brokeback Mountain, que, embora também subversivo, ainda traz a impossibilidade do amor entre pessoas do mesmo sexo, que passam vinte anos sem viver a plenitude do seu sentimento, e isso ocasiona a vida miserável que tiveram. Mas se assemelha a Azul é a Cor Mais Quente, que traz uma relação amorosa com começo, meio e fim, e que acaba unicamente pela vontade de uma das partes, e não por imposição social. A história que foi negada aos protagonistas de Brokeback Mountain agora é facultada aos que estão fora dos padrões heteronormativos. As pessoas agora podem ser beijar no parque, em vez de vomitar de desespero. Tanto melhor.

O que Me Chame Pelo Seu Nome expressa de mais afinado com o pensamento teórico contemporâneo sobre gênero e sexualidade é a escolha por não tratar da orientação sexual como algo que precisa definir-se em algum momento. E o que manifesta de mais subversivo é escancarar o grande receio do patriarcado, que é o desejo: o comportamento social pode ser controlado, mas o desejo existe num lugar inatingível a qualquer forma de controle, e escapa a todo tipo de explicação. Nem preciso dizer por que esse fato é tão assustador aos que se horrorizam com quem se assume fora dos enquadres heteronormativos e se empenham em fazer com que os outros voltem para o armário.

A quem disser que o fato de serem do mesmo sexo é um componente a mais na ansiedade dos personagens, argumento que essa ideia já está abolida há muito tempo, desde que o primeiro ser humano conquistou a capacidade de amar: amar é perigoso e assustador sempre. Amar é uma agonia que exige sapiências que nunca temos, independente de quem amemos, ou quantas vezes, ou o gênero, ou raça, ou idade. Como evidência de que a abordagem não-identitária é uma opção consciente do filme, o título já dá o recado aos desavisados “Call me by your name, and I call you by mine“, pede Oliver a seu amado: os nomes das pessoas que se amam podem ser trocados porque não importa como elas se chamam, da mesma forma que não importa nomear o que são e o que sentem, ou como se apresentam, ou com quem se relacionam. Aceitar ser nomeado pelo nome do outro é permitir-se ser penetrado, não apenas no sentido do ato físico do desejo e do amor, mas também pelo que o outro entrega de si. Aceitar receber amor é um ato de coragem, sempre.

É forte e amedrontador o movimento de retrocesso que insiste em criminalizar formas não autorizadas de gênero e sexualidade. Forças muito poderosas estão por trás disso. Mas reconhecer o fluir de um mundo que se torna um pouco menos insuportável porque filmes como Me Chame Pelo Seu Nome são realizados me faz esperar com ansiedade pelas formas de amar que o Cinema trará, e num futuro breve, pelo que tudo indica. Todas já estão por aí, mas muitas ainda não reveladas, como por muito tempo se fez com a homoafetividade. Os cinéfilos e os comprometidos de coração com o amor, venha como vier, esperam por mais histórias, e que sejam histórias de amor, tão-somente, porque é sempre de amor que se trata. Porque, em nossa capacidade de amar, como em muitas outras, somos todos iguais.

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