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Os Meyerovitz: quando Ingmar Bergman e Adam Sandler têm tudo a ver

Os Meyerovitz: quando Ingmar Bergman e Adam Sandler têm tudo a ver

Ana Flavia Gerhardt - 26 de outubro de 2017

Os Meyerovitz: família não se escolhe (doravante Meyerovitz), já disponível na netflix e resenhado no plano aberto port Matheus Fiore,  foi objeto de curiosidade no último Festival de Cinema do Rio. Isso se deu por conta do ótimo currículo do diretor Noah  Baumbach (A lula e a baleia, Mistress America, Frances Ha, Enquanto somos jovens, entre outros), das qualidades intrínsecas do filme e por incluir no elenco…. Adam Sandler. Ele mesmo, aquele ator sempre presente em filmes que integram religiosamente a lista dos piores do ano, como por exemplo os horrendos Zohan: um agente bom de corteCada um tem a gêmea que merece. Preciso lembrar que Sandler já participou de pelo menos um projeto um pouco acima da média – Espanglês, de James L. Brooks -, e de outro muito acima da média – Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson -, porém sua imagem, pelo menos no Brasil, já vem com o selo Sessão da tarde de qualidade, ou seja, nivelada por baixo.

Também preciso lembrar que Sandler não estava sozinho em Meyerovitz, no que diz respeito à categoria o-que-essa-criatura-está-fazendo-nesse-filme. Para interpretar seu irmão, Baumbach recrutou Ben Stiller, renovando uma parceria iniciada em Enquanto somos jovens. Stiller também é conhecido por uma carreira bastante irregular – menos que Sandler, claro, mas ainda assim meio confusa: o que mais dizer de uma biografia que inclui filmes muito legais como Trovão Tropical e A vida secreta de Walter Mitty, e coisas horrorosas como Zoolander, e esse ele ainda teve a coragem de repetir. Difícil.

Sobre a presença de Sandler e Stiller num filme complexo e elogiado como Meyerovitz, só dá para tecer alguma opinião concreta assistindo a ele. Essa ação é necessária para percebermos com clareza que Sandler, Stiller e o imaginário que construímos sobre eles como profissionais do Cinema são elementos narrativos importantes a auxiliar Baumbach. Mais ainda: é fundamental para reconhecermos que a escolha do elenco é parte do projeto fílmico de Baumbach, e um alicerce fundamental para que o diretor possa contar sua história com todos os elementos que desejava, e da forma como desejava.

Família não se escolhe

Neste momento, abro espaço para falar do elenco diferenciado que topou contar a história junto com o diretor, compondo a família Meyerovitz. Dustin Hoffman, como o patriarca Harold, é um escultor sem talento que, para esconder a própria mediocridade, passou a vida construindo em torno de si uma aura de gênio nunca descoberto. Seus três filhos, desesperados pelo amor do pai, acabam por entrar numa espécie de acordo que, a seu ver, o satisfaria: fingem ser verdade o que o pai acredita sobre si mesmo, a um custo altíssimo para todos.

Danny, o mais velho e mais talentoso dos três, vivido com excepcional entrega por Sandler, chega a encerrar precocemente a carreira como pianista, para que seu brilho não ofusque o pai. A fim de lidar com sua difícil decisão, Danny passa a acreditar que não tem inclinação artística. Assim, abriu mão do seu evidente prazer em fazer música porque o amor que acreditou que receberia do pai em troca valia a pena. De todo modo, Danny jamais aguentaria ser melhor do que o pai – o que tinha a perder era muita coisa -, muito embora nunca tenha recebido qualquer retorno afetivo por isso.

Fingir dá muito trabalho e custa muito caro

Por sua vez, Jean (Elizabeth Marvel, a poderosa Heather Dubar de House of Cards, irreconhecível no filme), a irmã do meio, convencida de que nunca se comparará ao pai, cresceu completamente à sombra dele. Não traz nenhuma marca ou objetivos pessoais, e também não reconhece quão cruel ele foi num momento trágico de sua infância. O irmão mais novo, Matthew (Ben Stiller), é o que mais, digamos, “fracassou” no acordo de nunca afrontar o “brilhante” Harold, construindo uma carreira profissional bem-sucedida. Por isso, sofre as consequências de rivalizar com o pai, ao nunca receber dele qualquer sinal de que seu amor é correspondido.

Dustin Hoffman constrói um personagem capilarizado e por demais humano para que o detestemos demais por seus defeitos. Chega a dar pena ver alguém que precisa que todos à sua volta se castrem para ele se sentir menos inferior. Seu Harold compensa a obscuridade pessoal e o desejo de ser alguém especial (e quem nunca quis isso?) com um ego inflado e um culto à própria imagem. Na velhice, tornou-se exclusivamente voltado ao auto-elogio e ao ressentimento e depreciação por quem não o louva. Sente-se sufocado sempre que outra pessoa aparece mais que ele, como na exposição individual de seu amigo. Joga habilmente com os conflitos e recalques que provocou nos filhos, fazendo cada irmão achar que o outro é o preferido, quando na verdade apenas gosta de, pensa em e fala sobre si mesmo. Não suporta ver alguém ser reconhecido, e as situações em que isso acontece permitem que Hoffman nos presenteie com reações sutis mas cheias de significado.

Pobres Meyerovitz

O amor dos filhos, em particular Danny e Matthew, faz com que eles não consigam enxergar a verdade. Por isso, voltam-se um contra o outro, em competição por um amor e uma atenção que nunca virão. Ao mesmo tempo, não deixaram de se amar, e sua história acaba por ser uma montanha-russa emocional que começa com as diferenças cotidianas, pequenas mágoas do passado que retornam e se acumulam, até chegar ao confronto-clímax, em que todos os sentimentos ficam completamente irreconhecíveis, e todo mundo sai machucado, inclusive fisicamente. O filme é o resultado do conflito entre o que os filhos julgaram ser mais adequado à satisfação narcísica de um pai que sequer repara neles, e a eterna insatisfação deste, que, a cada vez que se confronta com a realidade de sua mediocridade, reforça mais ainda para os filhos a obrigação que eles têm de idolatrá-lo e desaparecer diante dele.

Meyerovitz é um filme doloroso, que suscita em nós lembranças que o tempo foi cobrindo e disfarçando, mas que insistem em emergir ao sentirmos a verdade com que os atores abraçaram seus papeis. Dentre todos, a dor é mais evidente em Danny, que Adam Sandler encarna à perfeição e com sentimento desde o primeiro minuto, porque ali o quadro já nos é dado pela expressão, voz e corpo de Sandler – um corpo que sofre pelos fluxos de vida que seu desejo demandou e não foram satisfeitos. Stiller também está excelente, revelando uma faceta grave de interpretação que não conhecíamos, para se diferenciar do irmão em personalidade e nas escolhas de vida que realizou para lidar com o egoísmo do pai. As dinâmicas entre os irmãos são de longe as mais impactantes do filme, e estamos falando de uma obra que está entre as melhores em que Sandler e Stiller já estiveram presentes – um filme que no seu todo merece ser reconhecido, visto e comentado como um dos mais interessantes do ano, no nível dos outros trabalhos de Baumbach.

 

Só coincidência?

Um assunto caro ao Cinema

As dores familiares que testemunhamos em Meyerovitz estão presentes em alguns outros filmes de destaque na história do Cinema, e sempre ficam em nossa memória porque atravessam em alguma medida nossa história com nossos pais e irmãos, a qual, claro, está longe de se parecer com propaganda de margarina. Ao comentar sobre o filme com amigos, um deles mencionou, para espanto de alguns, a obra-prima de Ingmar Bergman Sonata de outono. Ora, considerando que Bergman e obra-prima devem estar entre as palavras mais vistas juntas na história da crítica de Cinema, é no mínimo estranho parear qualquer trabalho do sueco a um filme estrelado por Adam Sandler. Mas preciso reconhecer que meu amigo está coberto de razão.

Em Sonata de outono, Eva (a maravilhosa Liv Ullman) recebe a mãe Charlotte, brilhante pianista interpretada por Ingrid Bergman (também maravilhosa) para uns dias em sua casa no interior da Suécia. Para narrar esse encontro, Bergman não faz qualquer concessão à nossa pressão sanguínea: Em menos de duas horas de filme, temos diante de nós o quadro completo das vidas de mãe e filha. Charlottte passou a vida em turnês pelo mundo, deixando em casa o marido e as duas filhas, que sofreram, cada qual à sua maneira, o abandono da esposa e mãe.

Como Harold Meyerovitz, Charlotte também é cruel de diferentes formas com as filhas, com consequências trágicas para ambas. Durante a infância, Eva, em particular, desesperava-se tanto pelo amor da mãe que chegava a preferir sua ausência em vez da presença, já que, com a mãe ausente, podia fantasiar sobre uma mulher amorosa e gentil que não nunca viu na verdade. Quando em casa, Charlotte determinava a aparência e gostos de Eva sem procurar saber realmente o que a filha queria, o que provocou em Eva um ódio que se mistura a um amor que não desapareceu, algo que sabemos ser bem possível. Como resultado de uma energia de afeto produzida inutilmente, porque sem retorno, Eva construiu uma incapacidade de amar que se agravou com a perda de seus filhos.

Os monumentos Liv e Ingrid

Bergman, assim como Baumbach, realiza escolhas que se integram à narrativa que deseja conduzir. O uso das cores nos figurinos das personagens é um exemplo disso: Antes da chegada da mãe, Eva se veste de vermelho, que indica maturidade, à semelhança das frutas prontas para serem colhidas. Quando a mãe chega, Eva passa a usar a cor verde e entrega o vermelho à mãe, tornando-se imatura e criança de novo, e concedendo à mãe o lugar de mulher adulta da casa. Essa troca de cores já é um aviso de Bergman de que o que virá depois não será fácil.

E de fato não é fácil ouvir, na noite do jantar, a voz chorosa, rouca, embriagada e infantilizada de Eva (cena aliás que coloca Liv Ullman entre as maiores atrizes do mundo, porque atrizes que podem fazer tudo isso ao mesmo tempo e ainda deixar um nó na nossa garganta são contadas nos dedos de uma mão), correndo atrás da mãe e lhe despejando as mágoas do abandono de uma vida inteira. A Charlotte resta apenas ouvir e tentar se justificar de alguma forma. Ao fim e ao cabo, diante da exaustão das personagens, e nossa também, Charlotte, como sempre fez, parte para mais uma longa ausência, ciente de que nada mudou.

Sempre haverá histórias assim

Penso que Sonata de outono e Meyerovitz contam a mesma história, que é muito conhecida por nós: pais que abandonam afetivamente filhos, que recalcam sentimentos e não percebem o quanto o amor não correspondido impregnou de rancor e atraso suas vidas. Já adultos, os filhos ainda permanecem naquele mesmo lugar em que os pais lhes deixaram, já que não puderam, por vários motivos, elaborar, desrecalcar suas dores em função de um perdão possível e de escolhas de vida mais potentes e singulares.

Tais histórias são sempre muito pesadas, e nesse sentido as decisões cinematográficas dos diretores são acertadíssimas em não forçar demais o espectador a suportar tanta crueldade: Bergman, ao não oferecer distrações à trama central de seu filme – cenários e elenco reduzidos,  música ausente (salvo em momento crucial) -, escolhe encurtar o tempo de filme para não nos destruir de vez. Isso lhe permite alongar o clímax da relação fracassada de Eva e Charlotte, sem nos dar nenhuma trégua. Nos ouvidos de quem já assistiu ao filme, ainda devem ecoar as palavras de Eva; na memória, as verdades que o vinho facilitou; na retina, sua imagem infantil aos pés da mãe.

Danny e Eva, parceiros na dor.

Baumbach, entretanto, nos traz uma história ainda mais pesada. Charlotte ainda tinha como atenuante o fato de ser uma mulher de seu tempo, por isso obrigada a uma maternidade que não queria e culpada por atender o chamado da sua potência. Mas Harold é puro egocentrismo e vaidade, e satisfeito em ver os filhos digladiarem por ele. O que se constrói em Meyerovitz como a narrativa de vidas que não desabrocham torna o Danny de Adam Sandler um personagem tão trágico quanto a Eva da grande Liv Ullman: ambos fadados a uma não-vida, se pensarmos em vida como plenificação das potências humanas.

E, se continuarmos comparando, as escolhas de Baumbach por comediantes e pelo tom muito menos denso para contar sua história se deve ao fato de que ele provavelmente sabia que essa era a única forma de tornar mais palatável a tragédia dos três irmãos. Eles, em grande medida, e assim como Eva, não conseguem sair da infância, porque ainda estão à espera que seus pais retornem de suas viagens, seja em volta do planeta, seja em volta de si, e se deem conta de que os filhos estão por perto. Baumbach claramente preferiu o humor leve, com atores conhecidos como comediantes, para pesar ainda mais a mão nos conflitos e temas, estender ainda mais nosso tempo testemunhando os acontecimentos, e ainda assim tornar sua história suportável à nossa mente e memória.

O trabalho desses diretores resulta em dois filmes que, cada um em seu tempo, e em função de específicas escolhas técnicas e artísticas, dizem muito sobre nós mesmos e nossas histórias. Mas, além do que vemos, fica também a imaginação sobre o que faria Bergman, um diretor afeito a desvelar as contradições humanas, se ele contasse com um elenco como o de Meyerovitz. Tivesse o grande diretor vivido mais, suas escolhas de estilo teriam mudado? Jamais saberemos, mas, de todo modo, não estamos abandonados no presente: ficamos muito bem servidos por Baumbach, que cumpre com grande beleza a tarefa de nos dizer um pouco mais sobre quem somos. Porque, bem o sabemos, estando os tempos propícios a Bergman ou a Baumbach, ainda somos os mesmos, e reconhecermos nossas verdades continua a ser muito difícil, mesmo quando elas são ditas por Adam Sandler.

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