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Mindhunter – Episódio 1

Mindhunter – Episódio 1

Mario Martins - 13 de outubro de 2017

Texto referente ao primeiro episódio de Mindhunter, nova produção da Netflix em parceria com David Fincher. Para ler a crítica da temporada completa, clique aqui.

O diretor David Fincher já havia mostrado seu potencial para lidar com tramas policiais e psicológicas em Seven – Os Sete Pecados Capitais (1995), estrelado por Brad Pitt e Morgan Freeman, e ao qual o trailer de Mindhunter automaticamente remete quando são exibidas as fotografias dos crimes, suas vítimas, a busca em compreender a motivação de tais atos etc. Contudo, logo no início do episódio-piloto (chamado apenas de “Episódio 1”), já é exibida a mudança de tom, apesar da ambientação e personagens com funções próximas às de Seven.

Com “Episódio 1”, Mindhunter já nos joga diretamente no clímax de uma negociação de reféns, em que o criminoso em questão se mostra ansioso, dando as caras o tempo inteiro e exibindo constantemente uma de suas vítimas . A instabilidade da situação como um todo é a chave para dialogar com o tópico principal do episódio: o desconhecido.  A maneira com que Fincher conta a história é de dar pause e bater palma de fora da tela. Afinal, iniciar uma história “no susto”, gera perguntas. E a maneira como tudo é suavemente orquestrado e mostrado nos oferece as respostas sem escancarar tudo em nossa cara. A instabilidade do agente Holden Ford (Jonathan Groff), os nomes dos personagens, suas personalidades, profissões, tudo é espontaneamente tratado com clareza, de modo que os diálogos não possuem uma função de “encher linguiça”, tampouco são desnecessários.

Passado o clímax, chega um ponto ao qual eu dou extremo significado e importância: a abertura de Mindhunter, que é o único elemento a ser repetido em todos os episódios, independente de renovação de temporada. Personagens podem morrer, localidades podem mudar, a produção da série pode sofrer alterações, mas a abertura da série permanece. No caso de Mindhunter, enquanto os créditos iniciais mostram o nome da equipe, um equipamento de gravação é lentamente montado enquanto flashes de cadáveres amarrados  e ensanguentados são jogados em contraste. À medida que há a intenção de nos chocar visualmente, existe uma melancolia sonora presente na música, que dialoga diretamente com a humanização que o protagonista dá aos criminosos, os quais, ao fim de tudo, também são pessoas.

Mindhunter episódio piloto netflix david fincher

Mais uma vez trazendo à tona que é possível contar uma história de forma indireta, a cena subsequente ao ato inicial do episódio ilustra a inquietação e a culpa do agente Ford com relação ao êxito do seu trabalho. O ambiente pálido e organizado ajudam a estruturar a sua personalidade, que é extremamente “certinho” e busca clareza em sua função, ao mesmo tempo em que o vemos no escuro, em um auto-isolamento que explicita como ele se sente diante dos fatos: totalmente no escuro.

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A palestra de Holden Ford é filmada em um ambiente amplo, com um leve enquadramento no canto direito da tela; o personagem encara os alunos da academia do FBI, o que sugere que ele está aberto ao diálogo e a novas ideias, mas suas concepções vão em contraponto às de seus espectadores. Na outra imagem podemos observar a palestra do professor Rathman, filmada entre duas hastes de ferro da janela da porta e com ele posicionado de forma mais central, sugerindo que ele possui um discurso bem mais fechad0 e direto, e que suas ideias devem ser o centro de tudo.

A discussão principal do primeiro episódio de Mindhunter nasce quando Ford tem de encarar a ignorância do FBI dos anos 70, uma instituição extremamente redundante, estereotipada e intolerante com relação aos infratores. A pergunta “se nasce criminoso ou se torna criminoso?” divide as duas vertentes sobre a origem de um criminoso e a relação disso com seus atos, colocando a visão do governo de um lado e a do protagonista de outro.

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Por sua vez, Debbie (Hannah Gross), uma mestranda em sociologia, questiona uma série de obras que considera obrigatórias para alguém que negocia reféns: livros, filmes e filósofos com os quais Ford não havia tido qualquer tipo de contato.

Na imagem acima, podemos ver o tipo de influência que ela causa no personagem, iluminando algumas ideias que podem ser a principal motivação para ele decidir buscar novas abordagens em seu campo de trabalho, inclusive voltar a estudar e ampliar seu conhecimento, que veio sendo reprimido até aquele momento.

A trama de Mindhunter se vale de fatos históricos e nos coloca em situações semelhantes às dos personagens, seja visualmente ou psicologicamente, trabalhando sua narrativa de forma sempre interessante. A maioria dos elementos-chave de um episódio-piloto foram exibidos e bem desenvolvidos, fraquejando somente no ato final do episódio, que amplia em excesso a incompreensão de uma mente criminosa por parte dos dois lados da balança ideológica e esquece de manter um ritmo que incite a curiosidade para o episódio futuro, mas nada que arruíne o ótimo trabalho desta amostra. Assista clicando aqui.

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