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Mindhunter – 1ª Temporada

Mindhunter – 1ª Temporada

Mario Martins - 16 de outubro de 2017

O texto a seguir é sobre a 1ª temporada completa da série Mindhunter, para ler a crítica do Episódio 1, clique aqui.

“Se nasce criminoso ou se torna criminoso?”

Conforme dito na crítica do episódio-piloto, Mindhunter lida com o desconhecido. Mapear possíveis pontos psicológicos para prevenir futuros crimes e a ação de criminosos é um campo de dedução, observação, arquivamento e improviso. Alguns fazem questão de deixar pistas para serem pegos, outros tentam ocultar seus crimes, trazendo a tona os amadores e conviver com esse grupo específico de pessoas e fatos, conforme demonstrado em alguns episódios, afeta a todos.

A ambientação na década de 70, extremamente fortalecida pela trilha musical da série, figurinos, cenografia e conservadorismo na personalidade dos personagens, torna-se a maior ferramenta para ilustrar também o quão primitivo é qualquer aprofundamento acadêmico nessa área. O termo “assassino em sequência” é sugerido por acaso pelo protagonista Holden Ford, antes mesmo da nomenclatura atual “assassino em série” nascer. Os chamados psicopatas e estupradores são celebridades, muitas vezes persuasivos por conta de sua personalidade, assim como o Dr. Lecter, personagem fictício do filme O Silêncio dos Inocentes (1991), um indivíduo extremamente intelectual, educado e com paciência em suas falas. Os métodos revolucionários, no que se diz respeito a entrar na mente dos “caçadores” –como alguns serial killers se consideram com relação a suas vítimas- são sempre vistos com surpresa e pânico, somente ganhando respeito ou embasamento aceitável após o êxito em sua aplicação.

Mindhunter ao longo de sua primeira temporada contou com renomados diretores que ricamente nos entregaram um trabalho de imersão nos tensos, rápidos e geniais diálogos apresentados pelos personagens, independente de seu núcleo. Além do aclamado David Fincher, temos três poderosos nomes que assinam a direção dos episódios, cada um com um gênero especializado em seu currículo de filmes. Tobias Lindholm representa o drama de seus roteiros em filmes como A Caça (2005) e Sequestro (2012). Asif  Kapadia dá o tom documental de sua direção apresentada em Amy (2015) e Senna (2010). Andrew Douglas ilustra o terror, seja ele psicológico ou não, que paira a atmosfera de toda a série, como mostrado em Horror em Amytville (2005).

Mindhunter

A atuação não é ausente nem mesmo em personagens que contribuem com minutos ou segundos de tela, conquistando o espectador aqueles que mais conseguem destaque e participação em episódios, pois todos são excepcionais. Destaque para Cameron Britton, que vive Edmund Kemper, o primeiro entrevistado no aprofundamento comportamental que tenta manter um padrão entre os assassinos. O ator serve como estímulo para prender nossa atenção em cada feição e linguagem corporal, dando movimento aos episódios 2 e 3, conquistando tal foco de uma maneira tão grande, que iremos despejá-la em todos os outros capítulos seguintes.

O uso de caracteres em itálico para exibir cada cidade e estado que os protagonistas Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) visitam, além de dar um ar mais noir no ambiente de Mindhunter, evitam o uso clichê de placas como “Bem Vindo a tal lugar” e filmagens dos agentes botando o pé na estrada, características comuns em filmes onde se muda o endereço mas que se tornaria extremamente cansativo aqui, pelo simples fato da frequência em que tais viagens ocorrem. Além de contar mais uma vez com o uso da música para ajudar na narrativa, repare por exemplo a mistura de discoteca e 5ª sinfonia de Beethoven no episódio 2 quando os agentes especiais chegam na Califórnia, não só os fazendo parecer uma dupla policial de um clássico do cinema, como também abordando o período em que se passa, 1977, onde a disco music começa a dar as caras em São Francisco.

Mindhunter

O elemento crítica social, mencionado por mim na crítica do episódio-piloto se expande e lidamos com passagens sobre a fragilidade de uma relação familiar, homofobia, racismo na contratação de trabalho, entre outros. A série não busca trabalhá-los e tornar tais elementos destaque. A abordagem transitória fortalece o ar de alfinetada, uma vez que isso tudo ocorra até hoje, mais de três décadas depois, mas que pode passar batido caso você não dê muita importância, sendo um elemento sutil e passageiro em fragmentos de alguns episódios. Os personagens em sua maior parte do tempo tentam se mostrar fortes, seja por orgulho, pelo cargo profissional, reputação ou personalidade. Uma vez que o roteiro tende a promover o confronto desses elementos entre si, vemos o desabrochar dos personagens. A gradativa mudança de tom é balanceada com as equilibradas durações de tempo dos episódios, outro elemento extremamente favorável à série.

O uso da música em Mindhunter é tão pontual que me fez perceber uma futura revelação, entre as tantas que ocorrem no meio da trama, antes mesmo de ser mostrada, provando que o compositor Jason Hill compreende perfeitamente a importância da nuance sonora em uma cena. A inocência e/ou a malícia de um ato, mesmo sendo dois extremos, podem ser rapidamente modificadas dependendo da música que se toque naquele instante, provando que até nisso a produção acerta o tom.

Início certeiro, narrativa bem desenvolvida, episódios com vida própria, personalidades indiferentes, personagens surpreendentes, ficção moldada em ligações históricas, diálogo entre fotografia e enredo, atuações memoráveis, roteiro sólido e final apoteótico. 2ª temporada não é necessária, mas será muito bem vinda se confirmada.

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