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“Minding the Gap” e a masculinidade tóxica

“Minding the Gap” e a masculinidade tóxica

Documentário mostra com grande brilho como se criam homens violentos

Ana Flavia Gerhardt - 7 de abril de 2019

Assistindo a “Minding the Gap”, o maravilhoso documentário de Bing Liu que concorreu ao Oscar este ano, não me saiu da cabeça a imagem de uma flor desabrochando aos poucos, revelando cores, formatos e perfumes que o botão inicialmente não anuncia. Sim, porque as primeiras imagens de “Minding the Gap” mostram três meninos, sendo Liu um deles, que firmaram amizade através do skate, e o que logo se imagina é que o documentário tratará da importância do esporte em suas vidas.

O correr das cenas, porém, não tarda a mostrar que novas pétalas se abrem: ao atingirem a maioridade civil, os amigos têm de enfrentar todas as obrigações da vida adulta. Mas esse momento ainda é um estágio do desabrochar da obra de Liu, já que a flor completamente aberta revela o objetivo principal do filme: mostrar como a masculinidade tóxica impregnou a vida dos três amigos, reprimindo sentimentos e sonhos surgidos na juventude e transformando sua vida num inferno. Eu não disse que a flor não tinha espinhos…

Um filme feito para que lacunas sejam percebidas

Tendo escolhido um título bem mais instigante do que o deste artigo, que entrega logo tudo de uma vez, Liu nos permite imaginar um outro tipo de raciocínio a partir da expressão minding the gap, que pode significar, entre outras coisas, o reconhecimento de vãos, lacunas. Aviso do metrô de Londres para chamar a atenção dos passageiros sobre o cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, a frase Mind the gap é uma das marcas registradas da cidade e ganhou os metrôs de outras cidades, inclusive o do Rio de Janeiro, que transmite o aviso em português e em inglês.

A metáfora proposta por Liu expande a ideia inicial da expressão, e ao longo do filme também vamos descobrindo que o trabalho longitudinal do diretor, que filmou aos amigos e a si mesmo ao longo de quase uma década, teve como finalidade descobrir os vãos e lacunas construídos em suas vidas, os quais agora são causa de grande sofrimento. Encontrar esses vãos pode ser um dos caminhos para uma vida menos infeliz para eles e para quem eles amam. Nesse sentido, “Minding the Gap” é um trabalho de autoconhecimento.

Esse autoconhecimento diz respeito especificamente ao fato de os amigos serem homens e de sua criação ter traços de violência em função de seu gênero. Esse fato conecta “Minding the Gap” a, por exemplo, “The mask you live in” (2015), disponível na Netflix, e a “Encarcerado” (2013), que já resenhei aqui no Plano Aberto, todos eles documentos importantes para os estudos e debates atuais sobre gênero, que procuram deixar claro que o machismo não faz bem a ninguém.

O que se tem entendido como masculinidade tóxica

Masculinidade tóxica pode ser considerado um conceito porque já compõe trabalhos relevantes sobre  suas causas e efeitos nas diversas esferas sociais, como este artigo de Susana de Castro, da UFRJ. Mas fora da universidade também podem ser encontrados textos explicativos sobre o problema, como este e este, e artigos sobre suas consequências sociais, como, por exemplo, o alto índice de suicídios entre policiais militares brasileiros. Esses trabalhos em conjunto nos ajudam a desenhar um quadro razoavelmente preciso do que o conceito enquadra.

Muito basicamente falando, a masculinidade tóxica se caracteriza por três fatores: primeiro, a separação estanque das categorias masculino e feminino, que impede os meninos de assumir sem repreensão qualquer comportamento e atitude atribuída às mulheres, como expressar afeto, manifestar fragilidade emocional ou incerteza, cuidar com vaidade do próprio corpo, entre outras inúmeras ações tidas como femininas. Segundo, a impossibilidade de discutir essa separação, porque ela é completamente naturalizada e posta em bases biológicas, sem haver espaço para que seja percebida como algo aprendido, e fruto de uma construção histórica e social. Terceiro, o desenvolvimento, ao longo da vida, de um pânico e um ódio ao feminino, a fim de que os meninos se coloquem o mais distantes possível de qualquer influência das mulheres e não caiam na “tentação” da homossexualidade.

O processo de construção da masculinidade tóxica na mente dos meninos inclui uma criação em que a violência é algo corriqueiro, e a manifestação de emoções, como lágrimas, busca de afeto e contato amoroso físico, é reprimida ao máximo. Essa repressão é que produz os gaps, as lacunas que Liu busca identificar: o que lhes faltou de amor, de compreensão, de diálogo e proteção, algo negado a muitos meninos apenas porque seus pais acreditam que isso é coisa de mulher.

As lacunas nas vidas dos três amigos

Liu e seus amigos Keire e Zach se conheceram através do interesse comum pelo skate, e mantiveram a amizade ao longo dos anos, o que permitiu a Liu filmá-los durante esse tempo. Aos poucos, as vidas dos três meninos vão sendo descortinadas, tanto pela câmera de Liu quanto por revelações deles mesmos.

Zach compõe o se costuma denominar white trash estadunidense: aquele segmento da população a quem o american dream não favoreceu, e cujas vidas a crise econômica desencadeada em 2008 piorou mais ainda. Criado sob o regime da masculinidade tóxica, Zach não fala muito de seus pais, mas revela o resultado de sua criação na forma como trata a namorada e o filhinho pequeno: não hesita em agredir fisicamente a moça e não se constrange muito por privar o pequeno de seu afeto e auxílio material. Sua personalidade instável e violenta é acentuada com o alcoolismo e a certeza de que as mulheres precisam apanhar de vez em quando para conterem seus arroubos emocionais e sua desobediência ao mando masculino.

Keire, menino pobre e negro, mostra que a condição racialmente desvantajosa na sociedade estadunidense lhe proporcionou meios de pensar sobre si mesmo. Seu pai justificava a violência com que o tratava com o fato de que meninos negros, para enfrentar o racismo, precisam acumular mais carapaças emocionais através da disciplina e do castigo. A revolta contra o pai não abalou a personalidade construtiva de Keire, que passou os anos da juventude procurando meios de escapar do ambiente violento que o cercava, mas sem muitas saídas efetivas, e com dificuldades de se afastar da família, mesmo reconhecendo sua toxicidade.

Liu, por sua vez, foi criado por um padrasto violento com ele, seu irmão e sua mãe. A revolta dos meninos custou a ser reconhecida pela mãe, que não conseguia reunir auto-estima para se livrar daquele homem, e ainda no presente tem dificuldades em falar sobre isso. O momento em que a mãe é entrevistada por Liu ganha um formato em camadas: Liu filma a preparação da filmagem, ajudando a mãe a se instalar e falar diante da câmera, construindo assim um breve documentário do documentário. Esse momento evidencia o talento de Liu como cineasta e também sua sensibilidade em reconhecer a distância entre o sofrimento das pessoas e suas condições emocionais de falar sobre elas. Igualmente, revela seu entendimento de que aquela filmagem precisa ser delicada o suficiente para conseguir revelar as lacunas que sua mãe ainda não pôde perceber. É uma verdadeira declaração de amor e respeito pela mulher que o criou.

A saída é pelo perdão

Talvez o mais difícil a um ser humano que busca reconhecer as lacunas do seu passado seja compreender as razões daqueles que as provocaram sem se darem conta do que fizeram. Como perdoar quem não sabe o sofrimento que produziu? Como perdoar quem já não mais está ali para ouvir o que precisa ser dito? Como perdoar quem sequer reconhece o mal que nos fez?

Essas são as perguntas que dizem respeito a cada um dos amigos, e a ideia da masculinidade tóxica tem a propriedade de dar corpo, em seus diferentes detalhes, ao que aconteceu com eles, porque ela os ajuda a entender que o sofrimento por que passaram faz parte de uma construção histórica muito mais longa do que o tempo de suas vidas. Essa escolha temática coloca Liu, muito acertadamente, por sinal, numa direção oposta ao usual à cultura estadunidense, que costuma atribuir ao sofrimento psicológico e econômico de cada pessoa causas estritamente individuais, sem consideração pelas naturalizações sobre raça, gênero e pobreza que acompanham as ideologias do american way of life.

Liu demonstra compreender isso ao escolher falar de sua vida e de seus amigos por esse prisma, e é também por aí que as formas de lidar com isso vão sendo apresentadas. Aos poucos Keire e Liu vão se dando conta de que sobre eles foram inculcados uma linguagem e padrões de vida sobre os quais é preciso falar, para que eles possam assumir uma dimensão real e possam ser enfrentados.

Mas Zach ainda permanece num lugar de meramente repetir aquilo que lhe foi dito, sem demonstrar já ter reconhecido as lacunas de sua vida. No entanto, Liu é generoso o suficiente para dar ao amigo um voto de confiança para que o filme termine com esperança de que cada um deles possa agenciar para si uma vida com menos rancor, e em que os sentimentos de amor ocupem um espaço relevante.

Mas a saída é também pela potência

A esperança de Liu também está no reconhecimento das lacunas da infância e de que não é mais possível preenchê-las. Por isso, as possibilidades reais de vida se encontram na descoberta da própria potência e singularidade.

Em “Minding the Gap”, duas ações são fundamentais para isso: a primeira é que, no caso de Keire,  o skate, que de início aparece como prazer e alívio para os problemas familiares, é ressignificado como esporte profissional. O rapaz encontra o caminho de vida que sempre buscou ao angariar o patrocínio que lhe permitirá participar de competições oficiais, e poucas coisas são melhores do que a gente ganhar a vida fazendo o que adora.

A belíssima edição de algumas cenas em que os amigos estão sobre pranchas rasgando as ruas, além de novamente mostrar que o skate os congrega como amigos, revela que Liu compreende plenamente o que significa o esporte para o encontro daquelas pessoas consigo mesmas, e inspira no espectador o mesmo encantamento que eles experimentam sobre as quatro rodinhas.

E a segunda é o Cinema, que para Liu antes era apenas diversão, mas acaba se tornando não apenas uma forma de enxergar as lacunas – em algum momento Keire confessa que ser filmado falando de sua vida é uma “terapia grátis” -, mas também um lugar de existência no mundo. O gigantesco talento que Liu revela em seu primeiro trabalho mostra que ele está no lugar certo: além de dirigir, Liu edita e fotografa seu filme, portanto uma boa parte da beleza e da verdade que “Minding the Gap” transmite vem de seu trabalho consciente e inspirado.

Liu enxerga com precisão que Zach não parece estar no mesmo ritmo de autoconhecimento dos dois amigos. Mas a construção de uma imagem precisa sobre o que pode ser feito para resgatar os sentimentos que uma criação tóxica reprimiu é uma forma de ajudar o amigo que ainda não começou o caminho de compreender o que lhe falta. Com essa ação, Liu auxilia a muito mais pessoas, homens e mulheres, além de Zach, e isso transforma “Minding the Gap” num documento artístico, existencial e educacional para muito além do contexto que focalizou. É doloroso pensar que houve tanto sofrimento nas vidas das pessoas que “Minding the Gap” apresenta e menciona, mas o brilhante registro de suas histórias e conquistas traz possibilidades de que mais e mais meninos e meninas possam desabrochar para o amor e para a potência.

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