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Mulan (1998)

Mulan (1998)

Os passos para frente e os passos no mesmo lugar da Disney.

Gabriel Carvalho - 28 de janeiro de 2019

Mesmo garantindo um nome carregado por pompa no decorrer das décadas que se passaram, acumulando sucessos e obras-primas, a Walt Disney Animation Studios mostrou, enquanto uma identidade específica para animações, poder possuir muitos problemas. Questões que não são necessariamente inexoráveis aos projetos da empresa, mas que, costumeiramente, se sobressaem como equívocos em um caso ou outro. Ao mesmo tempo que “Mulan” comporta muitos passos para frente na trajetória da Disney, certas reiterações estilísticas revelam que pouco realmente mudou, com essa empreitada, na maneira do camundongo em contar histórias para várias gerações.

A já clássica animação, por conta do teor de sua corajosa mensagem, é uma das mais atuais do estúdios, constantemente relembrada com justiça. O longa-metragem, porém, enxerga como parte irrevogável para a sua existência, interessada na conquista da imaginação dos seus espectadores, uma recorrência a certos maneirismos problemáticos. Os equívocos mostram-se presentes quando a premissa e seus arredores não conseguem, aparentemente, serem suficientes para o processo criativo do filme. “Mulan” deve supostamente manter-se acessível ao público recorrente do estúdio, ou seja, conter um dragão engraçado para alcançar esse equilíbrio.

Ainda assim, o projeto comporta, quase que invariavelmente a qualquer equívoco, aquela que é uma das maiores mensagens presentes em obras da empresa, senão a maior e mais significativa. E as intenções do filme se sustentam tanto narrativamente quanto dramaticamente, exemplificando uma execução mais que correta – uma noção margeada de acordo com a proposta pensada nesse caso, que é a desconstrução do papel da mulher perante a sociedade. A animação nunca torna o seu discurso, certamente feminista, sobre uma mulher que traja a armadura de um soldado e se encaminha a guerra, ser mastigado demais, verborrágico nas bocas dos personagens. O que é exposto pode ser compreendido por públicos muito diferentes – e enquanto obra voltada para crianças, esse é um dos casos de animações essenciais para um processo educativo.

O impacto da animação origina-se, antes de qualquer coisa, a partir de uma protagonista extremamente convincente, que o espectador acredita, com muita convicção, ser merecedora do orgulho dos seus pais. Quando se direciona a um possível casamento arranjado, a garota está se sacrificando em prol do bem estar daqueles que ama. Um orgulho que pressiona a sua existência a manter-se em padrões. “Mulan” associa a injustiça de um homem com sérios impedimentos de locomoção, velho e manco, tendo que ir para uma guerra, com a injustiça das mulheres serem relegadas a papéis previamente pensados pela sociedade. São pessoas que se transformariam em mulheres honradas apenas caso cumprissem com as suas obrigações, se casassem e gerassem herdeiros.

“Mulan” contraria as injustiças e contraria certos conceitos, como honra, homem e, por fim, mulher. O projeto nem precisa abraçar a vertente da emancipação feminina por si só, em toda a grandiosidade do sonhe o que quiser sonhar, pois, contrariamente a isso, “Mulan” conclui o arco da personagem retornando-a para a sua casa. A jovem recusa ser parte do império e ir para a guerra, servir ao exército, não era um anseio seu. Mulan apenar quer ser vista como honrada por aqueles que importam. A ausência de um recorte – em questão de sonho mais específico – metamorfoseia o viés da obra de pessoa para a pessoa, porque todas as mulheres, caso queiram ser o que quiserem ser, devem ser vistas com respeito, pois serão sempre honradas.

Continuando essa jornada movida por uma poderosa premissa, o espectador é guiado, com competência, emocional e dramaticamente pelo resto do longa-metragem. O problema é quando “Mulan” puxa muito do seu lado Disney equivocadamente, permeando o seu estofo por maneirismos erráticos, apenas para conseguir ganhar outra substância, a da comodidade. Uma animação de guerra, sem misticismo avulso, seria muito seca para crianças, não é mesmo? Eddie Murphy, como Mushu, um personagem que simplesmente não precisava existir, surge, portanto, já sendo o início dos problemas da animação – e minutos são necessários para a sua introdução. Como se essa espécie de comicidade conseguisse substituir a ausência de uma narrativa menos simplificada.

A vertente oitentista que esse coadjuvante carrega consigo, já evidenciada pelo ator que o encarna, é complementada pelo encerramento patético dos espíritos dançando disco – além de outros momentos da música do filme, que são influenciados erroneamente por esse apreço exacerbado do projeto pelo anacronismo. “Mulan” não é uma obra muito apegada a cultura da China como possibilidade para exploração narrativa – como “Moana” ou “Viva” -, portanto, Mushu e os espíritos ancestrais da garota são auxiliares imensamente gratuitos a uma animação que se sustentaria meramente no charme da sua personagem e nas suas interações com os soldados – engraçados o suficiente, por sinal. Um sentido no qual a Disney, portanto, rejeitou reinventar-se – e no whitewashing também, diga-se de passagem.

O atrapalhado Mushu possui, paralelamente, um arco que não se concretiza verdadeiramente, ou seja, “Mulan” nunca possibilita o personagem ser uma presença que, narrativamente, realmente se mostrasse relevante. Mas, caso esse arco se consolidasse por completo, a força da jornada da personagem principal – interpretada pela fraca Ming-Na Wen -, em enfrentar o mundo e todos sozinha, sem a ajuda de um dragão que cospe fogo, sumiria. Mushu ainda entretém pontualmente, contudo, também situa-se entre alguns dos piores sidekicks animais da empresa, porque contra-argumenta o enredo principal, sem agregá-lo em momento algum.

Já o antagonista funciona o máximo que poderia funcionar quando compreendido em todo o seu maniqueísmo proposital, demasiadamente malvado e só. Quem é encarada como a verdadeira vilã de “Mulan” é a sociedade propriamente dita, os impedimentos que carrega consigo. As pessoas não aceitam ver os valores indiscriminadamente associados ao homem como possíveis também para mulheres – e vice-versa. Quem seria a menina ou a mulher que teria voz nesse cenário masculino se não fosse obrigada a salvar a China inteira para isso conquistar?

“I’ll Make a Man Out of You”, em última instância, é a canção que impulsiona as qualidades de “Mulan” em ser uma produção cinematográfica interessada no novo – se a reinvenção morre nesse escopo discursivo, é apenas uma pena para os espectadores, que ganharam a novidade enquanto intenção, não execução por excelência. A composição também permite argumentarmos o porquê do melhor funcionamento dos três soldados engraçados como alívios cômicos, pois o trio também é visto como parte da mudança de perspectiva acerca da garota, enquanto o dragão e o grilo não, ineficientes em qualquer outro âmbito. A cena em que os três se vestem de mulheres e assim aparecem, justamente quando a passagem “seja um homem”, da canção citada acima, é proferida, é um complemento envolvente que encaminha o espectador à conclusão de uma mensagem administrada com perfeição.

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