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Nocturama: os indignos da periferia do capitalismo

Nocturama: os indignos da periferia do capitalismo

Ana Flavia Gerhardt - 22 de outubro de 2017

Este artigo contém revelações do enredo (spoilers) de Nocturama.

Um casal passeia pelos corredores de um shopping e para diante de manequins cobertos com vestidos de noiva. Sabemos bem qual é a imagem que estão formando em suas mentes nesse momento: eles, diante de um padre, numa igreja enfeitada e repleta de amigos. Pessoas que testemunharão, como sociedade, seu amor e sua união.

Ao mesmo tempo, um rapaz perambula pelo mesmo shopping e, num determinado momento, se depara com outro manequim vestido exatamente como ele: o mesmo modelo de camiseta de marca esportiva, calça da mesma cor e tênis. Ao praticamente se ver no manequim, ele estranha um pouco, mas percebemos com clareza que aquilo não significou muito para ele.

Esses dois momentos, cujo rico significado é facilmente detectado pelos espectadores, não fazem parte de um contexto usual. Seus personagens compõem um grupo de jovens que ocupam um shopping center durante a madrugada para não serem descobertos, porque acabam de matar pessoas e causar explosões em prédios públicos de Paris. Eles são parte de Nocturama, longa de Bertrand Bonello produzido em 2016 e disponível na Netflix. Nocturama é um filme que nos coloca o tempo todo diante das contradições do modelo capitalista em que estamos mergulhados até o último fio de cabelo – muitos de nós lutando, sim, contra a opressão que esse modelo impõe, mas muitas vezes sem perceber o quanto de capitalismo está presente em nossos desejos e ações.

Nocturama

Uma geração com problemas para enxergar as próprias contradições

O desejo de ser digno

Karl Marx já havia identificado uma forma específica de subjetividade como parte da manutenção de um modelo hegemônico de mundo, à qual denominou “dominação simbólica”. Desenvolvendo e atualizando essa ideia, muitos intelectuais dos séculos XX e XXI continuam a denunciar uma construção sutil de pessoa, destinada a estar completamente adaptada ao modelo capitalista, e vivendo para operar o movimento das engrenagens que fazem a grande máquina do mercado funcionar: pessoas que produzam e posteriormente consumam o que é produzido. Para haver pessoas assim, constroem-se padrões de comportamento que sustentem e perpetuem essa forma de viver. Em função disso, é necessário que o consumo e a produção se transformem em valores morais.

O sociólogo Jessé de Souza, no livro A tolice da inteligência brasileira, descreve o modelo perfeito de pessoa para o mundo capitalista sob o termo “dignidade”: basicamente, a pessoa “digna” é aquela que não fuma, não bebe, constitui família nos moldes heteronormativos, tem emprego, vai à igreja etc. Esse tipo de pessoa é o que mais se ajusta a um modelo baseado na produtividade. Ser “digno” é estar com o corpo e a mente aptos à produção eficiente e em larga escala. Por outro lado, estar fora de alguma das práticas enumeradas acima implica correr o risco de produzir menos, tornar-se menos relevante e, em última instância, menos “digno”.

A dignidade como valor moral, nos termos dispostos por Jessé de Souza, é propagada e reiterada por uma rede discursiva. Ela é tão complexa e poderosa que é capaz de fazer com que pessoas profundamente oprimidas por todos os lados construam e alimentem para si mesmas a ilusão de que, ao cumprirem seu dever de serem dignas, são felizes e livres, pensam por si mesmas, exercem a própria vontade nas escolhas da vida e, com isso tudo, estão obtendo vantagens materiais e simbólicas. Mas, na verdade, não passam de massa de manobra no processo de acúmulo progressivo de dinheiro e poder nas mãos de um número diminuto de pessoas.

Não conheço ninguém que esteja fora disso. Nem eu estou. E muito menos os personagens de Nocturama. Não estamos de fora porque, entre outras razões, a “dignidade” e os outros valores morais que compõem a subjetividade no mundo capitalista existem para que suas mazelas e contradições sejam justificadas no fracasso das pessoas, e não na injustiça e insustentabilidade inerente a esse mundo.

Estamos no centro ou na periferia?

Para Jessé de Souza (e também para Cristovam Buarque e Fernanda Cornils, em artigo de 2013), as sociedades de base capitalista são estruturadas em termos de uma relação centro-periferia. Esta relação ultrapassa o âmbito de país, chegando a uma dimensão global. Fundamenta-se na oposição entre ricos e pobres, ou, em outras palavras, entre quem ocupa o lugar central na estrutura capitalista – o lugar de produção de bens materiais e simbólicos e de consumo massivo de mercadorias –, e o lugar periférico, destinado ao fornecimento de commodities e de territórios de cultivo de alimentos – campos agrícolas, pastos –, para onde também vai o lixo resultante dessa produção.

O ecocídio perpetrado no Rio Doce pela multinacional Vale e suas afiliadas exemplifica bem essa relação de forças, mostrando que o Brasil ocupa a posição periférica no mundo capitalista. Seu território é voltado para a extração de matérias-primas para produção e consumo dos países ricos, na mesma medida em que é o lugar para onde vem (e onde fica) o lixo tóxico do processo de produção.

Segundo Jessé de Souza, para o senso comum, o Brasil estaria nesse lugar graças às “indignidades” que nós, brasileiros, insistimos em cultivar: somos corruptos e irresponsáveis, preferimos nos divertir a trabalhar, não temos espírito comunitário, não gostamos de estudar etc. Estes são alguns dos preconceitos que alimentamos sobre nós mesmos, e que muitos estrangeiros também alimentam sobre nós. E, dentro da sociedade brasileira, tendemos a achar as pessoas que não trabalham ou estudam, não têm religião ou casa, que não constituem família, não são “dignas”. Portanto, não são merecedoras das concessões dos programas sociais (que por isso sequer deveriam existir), por não preencherem as condições definidas conforme o modelo de mundo que compreendemos como sendo o certo. Mais ainda: como sendo o único viável.

 

Nocturama

Os jovens de Nocturama: muitas etnias, nenhum nome, mas todos indignos.

Há várias estratégias que perpetuam a relação centro-periferia em âmbito nacional e global, mas me limitarei a duas, que são justamente as que aparecem em Nocturama. A primeira é a imposição da ideia de que a relação é de outra ordem, a segunda é a inclusão útil de discursos e ações que buscam problematizá-la.

A primeira estratégia de manutenção da relação centro-periferia é a repetição de um discurso em que na verdade a oposição é política, e não econômico-social. De fato são ambas as coisas, mas o discurso capitalista as segmenta. A Guerra Fria, por exemplo, foi uma dessas formas de oposição que garantiu por décadas a consolidação vitoriosa do capitalismo ocidental: o estilo de vida que se vendia era bom porque o que existia em alternativa a ele era muito ruim. Após ser pulverizada pela queda do Muro de Berlim, a Guerra Fria cedeu espaço à Guerra ao Terror, que produziu inimigos da “ordem” e da “paz mundial”, conforme definidas pelo Governo dos Estados Unidos.

Agora, na era Trump, a Guerra ao Terror se mescla aos elementos da Guerra Fria, e dessa forma se somam, ao grupo dos fundamentalistas inimigos de uma suposta paz mundial, os velhos oponentes comunistas, materializados, neste momento, pela Coreia do Norte, depois de os holofotes já terem estado voltados para Cuba e Venezuela. A sua existência e, sobretudo, a notícia da sua derrocada, é fundamental para mostrar que os que se opõem à forma hegemônica de vida estão fadados ao fracasso. Mas realmente não acho que esse estado de coisas exista apenas porque o sistema de mundo vigente é o capitalismo: o mesmo aconteceria em qualquer outro sistema. Estamos falando de capitalismo, mas poderíamos estar falando de qualquer outro modelo. O capitalismo foi o que a História nos legou.

Mas é importantíssimo notar que, embora a Guerra Fria e a Guerra ao Terror, construídas por meio de uma alimentação mútua entre discursos e estruturas de conhecimento, sejam questões mundiais relevantes, é bem provável que elas existam para escamotear a verdadeira oposição mundial neste momento, que é a relação centro-periferia, ou seja, a oposição entre ricos e pobres.

O que há por trás dos discursos?

No Brasil, a oposição imaginária, também política, que está sendo construída discursivamente pela mídia hegemônica, é a que existiria entre os brasileiros de esquerda e os de direita. Neste momento, o senso comum é o de que os brasileiros de esquerda são partidários da corrupção perpetrada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e do favorecimento de pessoas cuja vida é sustentada pelas políticas públicas populistas (Bolsa-família, cotas universitárias e Mais Médicos, por exemplo). Tais “populismos” teriam sido criados pelo PT com intenção de arregimentar eleitores pobres e se perpetuar no poder.

Já os de direita se manifestam contra a corrupção, acreditam da meritocracia e desejam o fim das políticas públicas, para que a cada um seja dado de acordo com seu merecimento e sua capacidade de trabalho. Essas imagens todas são forjadas de forma tão convincente, que impedem em grande medida que as pessoas estabeleçam entre si um mínimo de condições de diálogo, para perceberem que, no fim das contas, desejam a mesma coisa: menos injustiça e desigualdade.

Mas, entre inúmeras razões, não tem sido possível dialogar porque, se os brasileiros estão preocupados com o futuro do planeta e com uma provável guerra nuclear entre Estados Unidos e Coréia do Norte, com certeza estão muito mais preocupados com as pessoas que a TV joga contra eles – pessoas que o sociólogo Ruy Braga denomina “precariados”: os não-brancos, os desempregados, os gays, os moradores de rua, os artistas alternativos, os que estão envolvidos com o tráfico, com a guerra diária e sem fim da cidade grande, com a qual os cidadãos têm de lidar todos os dias. Ou seja, os “indignos”.

A ilusão de que a oposição é política nos tem feito acreditar que a desigualdade entre ricos e pobres no Brasil existe porque houve um governo que, por quatorze anos, “sustentou” quem “não quer” trabalhar. E não porque, ao longo de cinco séculos, a desigualdade tem sido maturada e conservada por uma elite escravocrata e coronelista, que dela retira sua perpetuação.

Os jovens de Nocturama percebiam qual é a oposição real. Um exemplo disso é a cena em que um dos rapazes traz para dentro do shopping um casal de mendigos, para que eles também se banqueteiem com as iguarias à disposição do grupo, já que os seguranças que protegiam o estoque das lojas foram todos mortos. O “anfitrião” assevera que seus “convidados” não vão denunciar o grupo, dando a entender que, mesmo que o denunciem, ninguém acreditará neles, porque são mendigos – ou seja, são os “indignos” da periferia, que não têm voz e nem credibilidade.

Lá e cá

Preciso pontuar que, na Europa, a desigualdade social produzida pelo capitalismo assume uma feição um tanto distinta da que vemos no Brasil. Aqui, o caleidoscópio racial, embora evidente, não é tão complexo quanto o que se vê por lá. Assim, embora o filme retrate um modelo de mundo em escala global, há nele elementos que se referem à Europa contemporânea. Aliás, Nocturama é tão fiel ao lugar e momento que focaliza, que, à época do seu lançamento, os fatos que aborda se repetiram tragicamente na França, o que obrigou seus realizadores a adiarem a exibição do filme.

O aumento da desigualdade entre os países do centro da estrutura produtiva (América do Norte e Europa Ocidental) e os da periferia (a maior parte do resto do mundo) dessa mesma estrutura, somado às guerras civis e ao terrorismo que destroem pouco a pouco as nações do Oriente Médio e parte da África, intensificou ainda mais o já intenso fluxo migratório, produzindo uma Europa multiétnica como nunca. Essa pluralidade é lembrada sabiamente por Bertrand Bonello para compor seu grupo de jovens, inclusive para evitar leituras extremistas de seu filme: europeus ocidentais e orientais, argelinos e descendentes de imigrantes do Oriente Médio, sendo que pelo menos dois deles são muçulmanos. Assim, o grupo reúne, à exceção dos imigrantes da África subsaariana, quase todas as etnias presentes na França atual.

Entretanto, embora cientes da desigualdade que a história recente da Europa aprofundou, os jovens de Nocturama, talvez por estarem completamente imersos no modelo capitalista, não conseguiram notar que suas subjetividades também estão. Por isso, no filme, as contradições do mundo ocidental contemporâneo são a todo momento colocadas diante deles, em seus atos, pensamentos e desejos: manequins vestem roupas iguais às de um deles; o casal deseja unir-se dentro do modelo tradicional; para se esconderem da polícia, procuram o lugar que representa tudo o que afirmam repudiar. Tendo tido suas subjetividades formadas dentro desse estado de coisas, eles não conseguiram perceber isso. Portanto, o que os derrotou foi a incapacidade de enxergar as próprias contradições, e não o serviço de inteligência que os encontrou.

 

Todos somos úteis

A segunda estratégia da manutenção da relação centro-periferia é o fato de que a construção dessa verdade se torna visível quando, de tempos em tempos, surgem ondas de pensamento sobre outras formas de viver: outras estruturas de nação, outras estruturas de mundo, outras subjetividades, outros valores éticos e morais. O problema é que os agentes dessas ondas precisam, pelo menos, estar cientes do fato de que suas subjetividades também podem ter sido construídas de acordo com o modelo hegemônico. De outra forma, como Nocturama mostra, suas ações estarão fadadas ao fracasso.

A existência de discursos e práticas de oposição evidencia que o centro precisa da periferia para sobreviver e se perpetuar. Ele precisa de mendigos tanto quanto precisa de ativistas, militantes e até terroristas. São estes tipos que alimentam a ilusão de equilíbrio de forças; há a necessidade de pessoas que combatam a relação centro-periferia, porque a derrota delas demonstra que a estrutura hegemônica é boa e que as outras possibilidades de viver não são possíveis. Por isso é que os jovens de Nocturama foram, nesse sentido, massa de manobra – foram úteis àquele sistema, porque a sua eliminação reafirma essa impossibilidade.

Por não terem observado o fato de que sua existência é fundamental à permanência do mundo contra o qual estavam se insurgindo, os jovens personagens de Nocturama, mesmo se não tivessem cometido atos extremistas, já estavam todos derrotados antes até de iniciar a ação que planejaram. Derrotados não fisicamente, mas ideologicamente: no pensamento, no sentimento e na vontade. Derrotados sobretudo por não perceberem que a própria ideia de ferir a estrutura hegemônica de mundo não havia partido deles, mas sim de uma dinâmica social que torna seu raciocínio e suas ações úteis à manutenção da estrutura capitalista ocidental. Essa dinâmica os fez desejar as roupas que vestiam, as pôs no manequim, os fez planejar aquela ação, os atraiu para o shopping e os matou.

O que eles não perceberam, e aí emerge a grande questão que o Nocturama propõe, é que, para além da consciência de que o grande problema é a diferença entre ricos e pobres, o ataque ao capitalismo não é apenas o ataque a um sistema de mundo; é um ataque também às pessoas cujas subjetividades foram construídas no capitalismo e que nele encontraram o que supõem ter sido a dignidade e a felicidade, e por isso acham que a forma capitalista de viver é a única possível.

Dessa forma, insurgir-se contra as injustiças do capitalismo não é apenas ferir a ele, é também ferir às pessoas constituídas dentro dessa visão, que se sentem ameaçadas na sua forma de viver e na sua “essência”. É importante também, quanto a isso, evidenciar que, no modelo capitalista, assim como são “indignas” as pessoas que não se esforçam para estar entre os que atendem ao modelo de produção, as que abraçam a tarefa de lutar pelos “indignos” passam a ser vistas como seus iguais, e suas vidas passam a valer tanto quanto valem aqueles por quem elas lutam.

Estamos no mesmo lado

Esse talvez seja um dos motivos para o grande ódio que as pessoas têm alimentado ultimamente no Brasil: os que lutam contra a invisibilidade, o silenciamento e a exclusão de pobres, gays, mulheres e não-brancos também são vistos como agressores das pessoas cuja subjetividade é completamente formada pelo capitalismo – principalmente as pessoas conservadoras da classe média, que se veem como aquelas que sustentam um país inteiro com seus impostos. Por essa razão, a classe média é o segmento da população brasileira que se sente mais prejudicada.

Muitos que se situam na classe média se veem como produzindo as riquezas do Brasil, ao mesmo tempo em que estão sendo forçados a sustentar os que estão fora do sistema produtivo e que, portanto, não merecem qualquer benefício social. A questão é que, ao inverterem a causa pela consequência, as pessoas de mentalidade conservadora, assim como os jovens de Nocturama, não percebem que também são massa de manobra, e, pelo que tenho constatado, não reconhecem a contradição que constitui suas subjetividades.

No âmbito dessa forma de pensamento, é bem pouco provável que os que não se encontram à margem da sociedade se solidarizem e empatizem com os marginalizados, porque estes não trabalham para receber o que aqueles julgam serem benesses de um governo populista. Da mesma forma, os que lutam pelos direitos dos marginalizados nunca serão vistos como heróis nem como mártires; sempre serão vistos como inimigos, por se oporem ao estilo de vida que as pessoas que não estão à margem lutaram para conquistar com tanto sacrifício. Nesse sentido, Nocturama é preciso em seu final, e aposta na inteligência do espectador ao deixar que ele suponha o que acontecerá com os comandantes da ação policial que resultou na morte de todo o grupo – provavelmente, serão tratados como heróis.

Mas imaginem se, em algum momento, o povo brasileiro se der conta, como um todo, de que estão lhe vendendo visões imaginárias de nação, enquanto o Brasil é loteado entre os que se julgam seus proprietários, como se ainda estivessem no tempo das capitanias hereditárias. Aí, talvez, o “gigante deitado eternamente em berço esplêndido”, a metáfora que mais fielmente nos caracteriza, acorde. Esse é o desejo de todos os que trabalham por um Brasil mais justo, mais igual e mais digno. Sem aspas. Digno de fato.

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