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O Bem, o Mal e o Coringa

O Bem, o Mal e o Coringa

“Coringa” também é sobre onde nos situamos na eterna disputa entre Bem e Mal – com larga vantagem para um dos dois.

Ana Flavia Gerhardt - 15 de outubro de 2019

Certamente os há por aí, mas, das muitas leituras que fiz acerca do filme “Coringa”, nenhum texto que li se propôs a comparar as atuações de Heith Ledger, o Coringa de Christopher Nolan, e o Coringa que Joaquin Phoenix entrega ao público na obra de Todd Phillips. Ambas as interpretações já fazem parte da história do Cinema e transcendem os filmes em que se incluem. Mas o pouco interesse nessa comparação diz mais do que comprovar o brilho de dois grandes atores. E é sobre esse algo mais que pretendo escrever neste artigo. Diante dos trabalhos de Ledger e Phoenix, que a meu ver estão muito além de qualquer termo de comparação, minha ideia é relacionar não os atores, mas os personagens relativamente aos filmes em que se desenvolveram.

No processo de feitura deste artigo, era importante rever “Batman, o Cavaleiro das Trevas” (2008), em que Ledger apresentou ao mundo sua visão pessoal do Coringa, chancelada, claro, por Christopher Nolan. Mesmo ciente do legado de Ledger para o Cinema, optei por não rever o filme. Assistir ao Coringa do “Cavaleiro das Trevas” no cinema foi quase insuportável. O mais absoluto Mal e horror que esse Coringa representa e manifesta pesa sobre meu espírito de uma forma que poucos filmes de terror conseguiram fazer. O filme entregou subliminarmente alguns fatos da vida pregressa do personagem, o que pode ter servido para minimizar a reação de alguns espectadores. Mas mesmo assim me recordo de quase ter saído do cinema no meio do filme, enojada e envenenada pela adrenalina que o pânico da possibilidade do caos sem fim me provocou.

Não me lembro de algum outro personagem que tenha despertado em mim tanta desesperança, nem uma visão tão precisa do que o ser humano pode fazer quando deixa livres seus mais perversos e patológicos sentimentos. O Mal no Coringa de Heath Ledger é o Mal puro, sem motivo, sem origem. É um Mal sem possibilidade de dividir espaço com qualquer outra coisa. Não é possível sequer pensar nesse Mal, analisá-lo. Ele foge a qualquer linguagem ou qualquer enfrentamento. É um Mal sobre-humano. Se existe algum inferno, é de lá que o Coringa de Heath Ledger viria.

Ledger

Heath Ledger construiu um personagem insuportável, e, talvez por isso, brilhante e inesquecível.

No entanto, ao estar novamente diante do inesquecível personagem, agora na pele de um dos mais merecidamente festejados atores do Ocidente (tanto é que ninguém duvidou que o que apareceria na tela seria algo extraordinário), não passei mal, e para mim isso é bastante significativo. Uma semana após a experiência, concluo que o que percebi vindo do Coringa de Phoenix foi uma violência focada, com uma lucidez e um propósito razoavelmente justificados, e não o Mal. Este, no filme, veio de outro lugar.

De onde vem o Mal com que o personagem luta e, ao fim, incorpora

Em “Coringa”, o Mal se aloca na Cidade, como imagem da decadência extrema, resultante de todos os erros que a sociedade ocidental já produziu. Como construção humana, a Cidade, que violenta, maltrata, indignifica e invisibiliza o personagem, é uma compressão daquilo que o ser humano tem de pior. A greve dos lixeiros, no período em que o filme se desenvolve, é uma escolha de mise-en-scène genial, porque materializa a sujeira produzida pelos seres humanos em sociedade: não apenas a sujeira imaterial, a injustiça, o preconceito, o escárnio e a desesperança, que produzem a auto-destruição da personalidade social do personagem, mas também a destruição do planeta por conta das diversas espécies de lixos não biodegradáveis e tóxicos que temos lançado na atmosfera e na crosta terrestre.

Poucos se isentam da decadência moral da Cidade. Até as pessoas que afirmam querer lutar por ela e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes o fazem da boca pra fora. O apresentador Murray Franklin (Robert de Niro) parece querer proporcionar alegria e diversão – e por isso é o modelo de pessoa de um aspirante a comediante -, mas é mais um explorador da miséria alheia, capturando feito abutre aqueles fragilizados pelo desequilíbrio geral para atender aos instintos sádicos de sua audiência. O milionário benfeitor Thomas Wayne promete reconstruir Gotham, mas, quando os holofotes não estão sobre ele, é capaz de humilhar e agredir os que estão abaixo dele na pirâmide social, sem qualquer traço de compaixão.

Fleck e mãe

Em “Coringa”, acompanhamos os esforços de Arthur Fleck em manter-se são.

Tudo isso encontra eco na vida real. Na mídia, os poderosos afirmam-se como paladinos do povo, enquanto se preparam para sugar todas as energias e potência criativa de quem não tem poder político e financeiro. Já que controlam as imagens que entram nas casas vendem através delas a ideia de que o Mal está com os que lutam para romper com a corrente de exploração e injustiça e propõem outra forma de viver que não seja pelo consumo – algo como o que foi descrito por Henry Bugalho neste vídeo.  Observando-se a tudo isso em conjunto, de uma vez, na ficção e na “realidade”, e as múltiplas sujeiras que se retroalimentam, não se pode concluir outra coisa além do fato de que fracassamos como humanidade.

Dois filmes compondo uma só tragédia

No início de “Coringa”, diferentemente do que ocorre com o Coringa terrorista e niilista de Heath Ledger, testemunhamos Arthur Fleck lutando para se manter minimamente isento desse Mal, porque o sente à espreita, pronto para sugá-lo, engoli-lo. Pede à assistente social mais remédios a fim de não passar o tempo todo pensando em coisas sombrias, mesmo sabendo que eles lhe apagam a potência em todos os sentidos. Aceita o subemprego e tenta buscar alegria onde o Mal ainda não começou a penetrar – junto às crianças. Num ato de lucidez, interpreta o transtorno neurológico que o faz rir sem controle como uma forma de talento para o riso e a alegria, muito embora não encontre nada disso dentro de si. Cuida da mãe com esmero e carinho e chega a desejar uma vivência afetivo-sexual. Trata-se de um personagem que busca com afinco alguma conexão com a vida.

Ao fim do filme, ao tornar-se definitivamente o Coringa, Arthur Fleck sela o processo de internalização e incorporação do Mal da Cidade, passando a encarnar não esse Mal, mas os seus efeitos: ao cindir-se de vez e esmagar os traços de sanidade que ainda preservava, passa a personificar a desagregação do tecido social e a decorrente visão de qualquer outro ser humano não como semelhante, mas como inimigo, como argumentei neste artigo. E na Cidade tornada praça de guerra, as máscaras de palhaço que todos nas ruas usam enquanto as vandalizam não os tornam iguais no projeto de um mundo melhor; tornam-nos iguais na desistência de apostar e sonhar com um mundo melhor, e, quando isso acontece, só o desejo de violência iguala as pessoas. Nesse mundo, Arthur Fleck pode finalmente plenificar sua grande vocação, que é a de ser o Imperador do Caos.

Fleck

O Coringa se constrói sobre a distorção total das ideias de alegria, felicidade e plenitude.

O Cinema é capaz de operar a mágica de transgredir e transcender os ciclos temporais. Dez anos depois, vemos assim completada a história trágica e desesperadora de um personagem cuja importância na cultura popular já reconhecíamos, agora com uma proposta que se mostra perfeita para narrar a origem daquele que o próprio mundo ungiu como a personificação do Mal. Estamos diante da ideia de que esse Mal não nasceu com ele. Que ele, sim, realizou muitas tentativas e se esforçou em se manter com algum grau de pureza e ingenuidade. Tentou ver o melhor das pessoas – esse melhor sempre ligado à capacidade das pessoas em notá-lo, em dialogar com ele. Não é à toa que logo no início do filme ele afirma à assistente social que visita periodicamente: “Você não ouve nada do que eu digo”. Essa frase é o início do fim.

O que são o Mal e o Bem?

Porém, num texto que fala do Mal e de sua origem como criação humana, é preciso também falar do Bem. O deus da Bíblia é a divindade a quem os ocidentais atribuem o Bem absoluto. Mas esse mesmo deus, como diz a própria Bíblia, é capaz de afogar a humanidade inteira ou incendiar cidades se não concorda com seu comportamento sexual. É um deus que reserva o gozo da eternidade àqueles que lhe forem suficientemente vassalos e o louvarem de acordo com suas regras, e condenará à danação eterna aqueles que não acreditarem nele, não importa suas ações na Terra. Chega a trollar um dos seus fieis exigindo o sacrifício de seu próprio filho como prova de lealdade.

Extermínio, vaidade… Características demasiado humanas. Não terá deus sido criado à imagem e semelhança do ser humano? Não serão Mal e Bem forças que trazemos dentro de nós, e as projetamos em divindades inventadas, porque somos incapazes de suportar nossas contradições?

Fleck e Franklin

Ao tornar-se Coringa, Fleck deixa de conduzir sua vida por exemplos de competência e felicidade.

Filmes Como “Batman – Cavaleiro das Trevas” e “Coringa” servem a muitos para que, diante de um Mal tão gigantesco, até absoluto, eles imaginem que são pessoas boas e que jamais praticariam a perversidade gratuita nem se congratulariam com a violência. O problema é que somos isso tudo, sim, e talvez façamos o Mal diariamente, de forma indireta, ao não nos importarmos com o fato de que os que estão no poder assinam acordos e leis capazes de exterminar pessoas e ecossistemas, e ao demonizarmos quem luta contra a violência praticada por quem está no poder.

Meu horror supremo diante do Coringa de Heath Ledger decorre do fato de que já estou curada da ilusão de que sou uma pessoa boa e imune à prática da maldade e do abuso de poder, e por isso tenho a certeza de que trago em alguma medida um Coringa dentro de mim. Por isso é que a luta inglória e posterior capitulação de Arthur Fleck não me derrubou. Fleck perdeu, mas lutou. Se eu também lutar, minha sorte pode ser outra, porque, diferente de Fleck, talvez eu não esteja sozinha.

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