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O Dia de Jerusa: a urgência da representação e da representatividade

O Dia de Jerusa: a urgência da representação e da representatividade

Yasmine Evaristo - 23 de agosto de 2018

A população brasileira é composta em sua maioria por negros e pardos. É no mínimo estranho observar que esse grupo ainda possua pouca representatividade na produção audiovisual. Além dos poucos representantes nos meios de produção – direção, roteiro, elenco, etc. -, a representatividade nas telas ainda se dá em forma de estereótipos, que subjugam a imagem do negro ao associá-la a papéis marginalizados. Neste artigo, vamos apontar elementos que tornam importante a existência de filmes feitos por realizadores negros. O filme escolhido para essa análise foi o  curta metragem “O Dia de Jerusa” (2014), de Viviane Ferreira.

Segundo a ANCINE (Agência Nacional de Cinema) no ano de 2016, dos 142 longa metragens lançados 75,4% foram dirigidos por homens, sendo que nenhum dos 24,6 % restantes, foram dirigidos por mulheres negras. Apenas 3 desses filmes tiveram um negro ou pardo no comando. Esses dados explicitam a ausência de produção de mulheres negras no mercado nacional. Segundo Ceiça Ferreira e Edileuza Penha de Souza 

[os] regimes de (in) visibilidade que as mulheres negras experienciam assimetrias de gênero e raça, estreitamente relacionados com os silêncios e ausências no imaginário nacional de suas relações de pertencimento e formas específicas de confrontação e subversão no contexto social e na produção simbólica (Silva, 2016). Exemplos disso são as estratégias de luta por visibilidade empreendidas por cineastas negras […] (FERREIRA; SOUZA. 2017. p. 176)

Os meios de comunicação audiovisuais foram e são usados para formar ideais estéticos. Com relação à população negra, acabaram por perpetuar o discurso da mestiçagem. A partir do momento que a branquitude é o padrão estético em vigor, a face apresentada do negro é exclusiva com os que tem a pele mais retinta ou fogem dos traços fenotípicos, mais próximos do europeizado. Essa prática exemplifica onde se encontra o imaginário da construção de nossa identidade nacional.

Fora das telas, esse ideal permanece quando observamos que as pessoas envolvidas na realização dos filmes são, em sua maioria, caucasianas. Logo, a representação da população negra é mantida nos estereótipos provenientes de uma cultura patriarcal, escravocrata e colonial, pois parte de um ponto de vista distante da multiplicidade existente entre os componentes dessa maior parcela da população. Uma maneira de exemplificar isso é refletir sobre quantas vezes uma mulher negra é representada, em um filme ou telenovela, por uma personagem livre de mazelas sociais. 

A representatividade que reforça estereótipos

São necessários outros parâmetros para construir a imagem da mulher negra na produção cinematográfica brasileira. Citando, novamente, Ferreira e Souza,

Por tais razões, esse fazer fílmico que constitui o cinema negro no feminino é tão caro às realizadoras negras, pois significa a oportunidade de construir um cinema de subversão e combate às visões preestabelecidas e, sobretudo, consolidar uma produção focada na pluralidade, na consciência dos múltiplos eixos de opressão e no exercício de afirmação identitária que seus filmes instigam. (FERREIRA; SOUZA. 2017. p. 178)

Logo, entender o que pode existir para além do “padrão” – conhecido e estabelecido – de como essas mulheres são e agem, se faz necessário para atentar sobre quais as possibilidades que o cinema tem de inseri-las em seu fazer e em seus produtos.

“O Dia de Jerusa”, ao se encontrar nas mãos das diretoras negras, passam a afirmar a identidade dessas mulheres. Representa a maior parcela da população que não está habituada a se ver nas telas de uma maneira coerente a realidade. Ressignifica os lugares que foram dados a essas pessoas nos muitos anos em que elas, suas práticas e sentimentos foram descritos e afirmados.

O Dia de Jerusa: espaço para dialogar

O curta “O Dia de Jerusa”, da cineasta baiana Viviane Ferreira, realizado em 2013, não foi selecionado para festivais no Brasil, mas representou o país na mostra Short Films Corner, de curtas-metragens do Festival de Cannes, em 2014.

A história desse filme se passa no bairro do Bexiga, São Paulo, e retrata o encontro de Jerusa (Léa Garcia), uma dona de casa solitária, com Sílvia (Débora Marçal), pesquisadora de opinião. Durante a entrevista, sobre uma nova marca de sabão em pó, as memórias da senhora ressurgem e ela faz uma viagem em seu passado.

Toda a trama se desenvolve em apenas um dia. Mesmo ambientado em sua maior parte dentro do sobrado de Jerusa, há tomadas externas que situam a personagem em seu bairro. Logo no início, ela caminha pela rua puxando seu carrinho de compras, se misturando ao transeuntes locais. Todos interpretados por atores negros:  um catador de lixo, um casal de mendigos e um homem louco, que recita “Minha Mãe”, de Luís Gama (1861).

Jerusa, porém, sofre de banzo, saudade melancólica que não se vai das memórias mantidas, desde seus ancestrais. Ao chegar à casa, a protagonista arruma a mesa de jantar dispondo seis pratos em sua mesa, que tem em seu centro um jarro de flores, pois aguarda seus filhos e netos, para a comemoração de seu aniversário de 77 anos. Mas quem toca a campainha é Sílvia, em busca de respostas para a pesquisa de opinião sobre uma nova marca de sabão.

Sílvia é uma jovem que parece estar impaciente e cansada de seu serviço. Pouco antes de se encontrar com dona Jerusa, passa por um assédio do senhor que estava entrevistando. Ela, como outras mulheres, está cansada. Essas situações a desgastam e frustram. Ela chega à casa de Jerusa e é convidada para entrar.

À medida que Sílvia faz as perguntas sobre a marca, Jerusa resgata suas memórias e as relata à moça. De trivialidades com o marido, passando pela educação dos filhos e momentos de resistência e a vida como mulher negra. Jerusa proporciona a Sílvia uma gama de relatos. Narra memórias de sua avó, de sua mãe e suas. 

Sílvia, impaciente com a demora de Jerusa, transparece irritação, mesmo diante de informações que parecem ser banais, mas que funcionam como uma linha do tempo que relata como a vida daquela senhora se desdobrou em cada momento.  Isso permite que conheçamos o local sociocultural da mulher negra na sociedade brasileira ao longo dos tempos, desde a escravidão até a atualidade. Sua memória verbalizada dá corpo à solidão na qual se encontra. 

Ouvindo, sentindo, compartilhando

A narrativa está focada nesse encontro das duas gerações de mulheres negras, nessa relação de troca de vivências. O processo se assemelha aos diálogos ancestrais, nos quais o conhecimento era transmitido oralmente.

Em “O dia de Jerusa”, esse olhar é aplicado e consegue transmitir parte da multiplicidade das pessoas negras que compõem a população do país. Retira-as do espectro estereotipado do negro que se encontra apenas na condição subalterna e desta não sai. 

A memória é, então o vínculo mais importante para que esse desenvolvimento ocorra. Proporciona sabedoria, conhecimento e o não esquecimento dos empecilhos e das glórias existentes no percurso que a população negra enfrenta.

Para saber mais:

“Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro”, de Karla Holanda e Marina Cavalcanti Tedesco – link para compra aqui;

“Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura”, de Heloísa Buarque de Hollanda – leia aqui.

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