‘O Exterminador do Futuro’ no presente

‘O Exterminador do Futuro’ no presente

Como “Destino Sombrio” assimilou as mudanças culturais à sua narrativa

Redação - 7 de janeiro de 2020
Por Susana Castro

Artigo COM SPOILERS do filme “O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio”.

O Exterminador do Futuro Destino Sombrio

“O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio” é o sexto filme da franquia criada e dirigida por James Cameron em 1984. Muita coisa mudou nos últimos 35 anos, como se pode perceber na mudança do eixo central do filme: a pessoa que deve ser salva no presente para que haja esperança em um futuro dominado por máquinas mortíferas é uma mulher mexicana. E ela precisa ser salva não porque dará à luz ao salvador, mas porque ela mesma é a salvadora da humanidade no futuro.

Filmes são produtos do tempo

É muito interessante analisar o quanto essas sequências de uma franquia vão alterando o enredo principal da história para atender ao momento cultural em que o filme está inserido. Algo semelhante ao que ocorreu com “Destino Sombrio” ocorreu em 2015 com “Mad Max: Estrada da Fúria”, quarta sequência da franquia de George Miller. Este é um filme completamente diferente do original de 1979. Ao longo dessas três décadas e meia, a cultura ocidental foi entendendo que o protagonismo de filmes de ação não poderia ser exclusivo dos homens.

As mulheres haviam se cansado de se verem sempre representadas como as personagens que são salvas pelo herói. “Estrada da Fúria” é um filme feminista, como procurei mostrar durante a minha apresentação no projeto da Faculdade de Educação da UFRJ, Pedagogia da Imagem. A palestra pode ser assistida abaixo:

Entre as razões pelas quais esse quarto filme da franquia “Mad Max” é feminista está no fato de Max (Tom Hardy) ajudar uma mulher a libertar um harém de mulheres, escravas sexuais, do líder local que detinha o poder no deserto porque dominava a fonte de água.

Mad Max: Estrada da Fúria

O exterminador do machismo

Para mim, “O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio” também é um filme feminista. Há vários elementos na trama que mostram quase que didaticamente o porquê. Antes de mais nada, o trio central do filme na sua primeira hora é composto por três mulheres: Sarah Oconnor, Grace e Dani Ramos. Grace vem do futuro para salvar a mexicana Dani do exterminador que vem do futuro para eliminá-la, já que no futuro ela será a chefe da resistência dos humanos contra as máquinas.

É muito importante salientar que a escolha da nacionalidade da salvadora da Humanidade não é algo secundário na trama. James Cameron quer, certamente, mandar um recado para os apoiadores da política de tolerância zero com os emigrantes do presidente norte americano, Donald Trump. As três atravessam a fronteira que divide os dois países de modo clandestino e, ao chegar nos EUA, são presas pela polícia e colocadas em cadeias improvisadas, cheias de imigrantes. Além da questão da sororidade que vai se construindo entre as três personagens, considero que há uma importante inversão de valor nessa nova versão.

O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio

O que torna Dani Ramos uma líder no futuro é sua capacidade de empatia e de agregação. Logo no início do filme, vemos como ela chega da rua com as compras e chama o irmão para irem trabalhar. Troca as flores do vaso e chama o pai para o café que havia preparado. Ela ‘cuida’ deles imbuída de enorme carinho e amor. Quando mais tarde Grace revela a verdade, de que estava ali para salvá-la do exterminador porque ela, Dani, era a líder da resistência no futuro, o espectador assiste as imagens do dia em que no futuro Grace conheceu Dani. A terra destruída no futuro depois da guerra com as máquinas. Poucos eram os sobreviventes. Grace, criança, era um deles.

Dani surge no momento em que Grace estava sendo atacada por uma gangue de jovens humanos sobreviventes. Sua intervenção não se dá pela força, mas pela persuasão, pela palavra. Ela consegue eliminar o conflito mostrando que deveriam se unir contra o inimigo maior, às máquinas. Mais tarde Grace é gravemente ferida em combate, tentando proteger sua comandante ferida. Grace pede, então, para entrar no programa de aprimoramento e dessa forma nela são implantados circuitos eletrônicos que a tornam muito mais forte do que os seres humanos. Sarah Oconnor custa, inclusive, a aceitar que Grace seja uma humana, a despeito de Grace insistir o tempo todo que sim.

A revisão do papel masculino

Outro elemento importante para identificar o feminismo da história é a entrada em cena do T-800 vivido por Arnold Schwarzenegger. Ele conta que depois de ter cumprido com a missão de eliminar John Connor, o futuro líder da resistência e filho de Sarah, ele conheceu uma mulher a quem ajudou a sair de uma relação abusiva. Os dois se casaram e ele a ajudou a criar seu filho. Relata, então, o quanto essa relação o fez ver as coisas desde outra perspectiva, a humana. Ele inclusive se arrepende de ter matado John. Sabe, entretanto, que não tem poderes para trazê-lo de volta.

Por isso, esse tempo todo o T-800 ajudou Sarah, sem que esta soubesse, para que ela desse sentido à sua vida eliminando exterminadores que vinham do futuro. Por ter ficado no presente, ele ganha a capacidade de prever quando virá do futuro um novo exterminador e sua coordenada exata. O mais interessante é que apesar de não poder transar com a esposa, essa se interessou por ele por sua capacidade de escuta. Ele, ao contrário do seu ex-marido, a escutava. Percebemos aqui que o roterista procura criticar as masculinidades tóxicas, desprovidas de capacidade de empatia.

O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio

O exterminador se torna uma máquina humanizada porque sensível às dores femininas e da humanidade. Podíamos inclusive dizer que o roteiro de “Destino Sombrio” trabalha com a ideia da inversão de papéis: o bruto exterminador se torna um homem afeminado, se entendermos o ser feminino como o ser capaz de empatia, enquanto Sarah, a mãe amorosa, se torna uma mulher masculina, se entendermos o ser masculino como o ser caracterizado pelo ceticismo e a frieza. Evidente que nenhuma das descrições servem para caracterizar a diferença sexual, apenas para identificar certos estereótipos.

É muito comum as franquias serem mera repetição de fórmulas manjadas, mas tanto “Mad Max: Estrada da Fúria” quanto “O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio”, em minha avaliação, superam seus originais na medida em que põem em xeque os pressupostos machistas que deram origem aos primeiros filmes.

(Susana de Castro é professora de filosofia da UFRJ. Trabalha com filosofia e gênero desde 2010. Cinéfila e leitora de quadrinhos, possui dois gatos com personalidades totalmente diferentes um do outro: John e Samba. Na filosofia, trabalha principalmente com neopragmatismo, filosofia política e feminismo)

 

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