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O Mordomo da Casa Branca e a conquista da consciência de raça

O Mordomo da Casa Branca e a conquista da consciência de raça

Lee Daniels mira no que deseja e acerta em algo muito maior

Ana Flavia Gerhardt - 17 de novembro de 2019

Em 2013, ano de seu lançamento, “O Mordomo da Casa Branca”, de Lee Daniels, recebeu duras críticas, e não sem razão. Todos os seus defeitos derivam de ele ser aquilo que denominamos “Oscar bait”: concebido especificamente para agradar à Academia de Hollywood com uma discussão sobre racismo que os brancos estadunidenses conseguem suportar.

A par de outras obras medíocres realizadas com a mesma intenção, como “12 anos de escravidão”, “Histórias Cruzadas”, “Estrelas Além do Tempo” e “Green Book”, “O Mordomo da Casa Branca” repete os problemas desse tipo de filme: música e atuações melodramáticas, imposição do pensamento branco acerca das pessoas negras, e um aparente louvor ao não-agenciamento disfarçado de resistência pacífica.

Concordo com todos esses argumentos. Mas, sob as camadas de interesse por prêmios e lucros, o filme apresenta, e acredito que de forma involuntária, oportunidades de discussão importante e oportuna sobre racismo e colonialidade. E, por conta disso, ele merece ser lembrado.

A bem da verdade, preciso pontuar um problema irritante que os filmes que citei acima apresentam, mas que não está presente em “O Mordomo da Casa Branca”: não há nenhum personagem branco “salvando” um personagem negro, e isso já é uma relativa vantagem. Todo o tempo, as ações são praticadas, as reflexões são feitas e as tomadas de decisão são realizadas por pessoas negras. Os brancos que aparecem são apenas coadjuvantes na história da vida de Cecil Gaines (Forrest Whitaker), o mordomo que permaneceu na Casa Branca por quase trinta anos enquanto viu passar por ali vários Presidentes dos Estados Unidos.

O mordomo da casa branca

Os brancos poderosos entravam e saíam da Casa Branca, mas os empregados ali permaneciam como se fossem propriedade do lugar.

Entretanto, Gaines não é uma versão negra de Forrest Gump. Embora tenha feito no último dia de trabalho o que fez no primeiro, transformações emocionais e existenciais o afetam e interferem em seu relacionamento com sua família e colegas. Essas transformações têm um direcionamento preciso e se encaminham coerentemente para uma conscientização final do personagem, que acontece de maneira absolutamente pertinente com a vida que levou.

A colonialidade do mundo

Escrevo este artigo sobretudo pelo fato de que “O mordomo da Casa Branca” se inclui à perfeição no campo epistemológico descolonial, que considera o racismo como uma invenção necessária tanto ao desenvolvimento do capitalismo, quanto àquilo em que ele se tornou: não apenas um modelo econômico, mas uma estrutura de mundo, que molda inclusive as subjetividades. Não à toa, a história de Cecil começa nos campos de algodão do sul dos Estados Unidos, onde, mesmo sem escravidão, as vidas das pessoas negras estavam nas mãos de seus patrões.

A verossimilhança dessa situação se reafirma quando nos damos conta de que o modo colonial de pensamento e de construção de mundo – o que se denomina colonialidade – e a categorização das pessoas por sua raça permanecem no tempo presente, mesmo depois de as colônias terem se desfeito. As pessoas ainda pensam e agem como pertencendo à casa grande ou à senzala, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos.

O conceito de colonialidade se fundamenta na existência de pessoas como Cecil: homem negro e livre, ainda assim se sentia devedor dos brancos, que, a seu ver, lhe proporcionaram um bom trabalho e a possibilidade de constituir família e educar os filhos. Mais do que isso ele não podia almejar, por ser negro num país racista. E por que desejar mais, se ele vivia muito melhor do que tanta gente de sua cor?

Os ausentes presentes*

Ocorre que Cecil, um “negro doméstico”, como profetizou a proprietária branca da fazenda em que seus pais trabalhavam, acabou exercendo sua profissão no lugar em que se pratica o poder mais absoluto no mundo contemporâneo: a Casa Branca. Porém, embora Cecil tenha passado ali décadas de sua vida, esse poder nunca lhe esteve acessível – nem a ele, nem aos outros colegas que, assim como ele, permaneceram como “negros domésticos”.

O mordomo da casa branca

Cecil permaneceu por quase toda a vida no lugar que pessoas brancas lhe destinaram.

Nesse sentido, o filme é o exemplo perfeito do que a intelectual estadunidense Patricia Hill Collins denominou outsider within – aquele que aparentemente está dentro, mas em verdade está fora. É que a noção de lugar às vezes não tem nenhuma relação com a dimensão física. Mesmo estando no mesmo lugar físico, Cecil ocupava um lugar social completamente distinto dos lugares sociais que as pessoas brancas e poderosas que viviam ali ocupavam: ocupava o lugar da invisibilidade.

Essa condição torna ridiculamente ingênua uma fala, pretensamente atribuída a Martin Kuther King, ao filho de Cecil: a de que a presença de seu pai na Casa Branca servindo aos poderosos era importante, porque assim eles notariam que as pessoas negras têm valor. Nada poderia ser mais falacioso: de maneira alguma a partilha de um espaço físico leva automaticamente a que as pessoas que ali estão se enxerguem verdadeiramente. Na Casa Branca, a presença de Cecil e dos colegas sequer era notada, porque eles estavam exatamente onde os brancos colonizadores o queriam – na subalternidade -, e isso não vai mudar tão cedo. Realmente, a memória de Martin Luther King podia ter passado sem esse constrangimento.

A colonialidade do ser

O grande conflito do filme, e um dos acertos involuntários de Daniels, é a inviabilidade do relacionamento entre Cecil e seu filho Louis (David Oyelowo). O campo do embate entre pai e filho é a maior virtude do filme, porque cai em cheio na discussão filosófica principal na relação entre capitalismo e colonialidade. É a que aborda o conceito de colonialidade do ser, proposto por Nelson Maldonado-Torres, e que resumo aqui de uma forma que passa a anos-luz do brilho de sua magnífica argumentação.

Maldonado-Torres propõe que a invenção do racismo que favoreceu a escravidão mercantil a partir do século XVI se baseou num padrão de pensamento e valores relacionado à guerra. Segundo esse padrão, determinadas formas de violência, como a prisão, a escravidão, a tortura, o assassinato e o estupro, são licenciadas durante tempos de guerra. No regime da colonialidade, essas ações violentas, que em princípio seriam específicas dos tempos de guerra, acabam se tornando parte do cotidiano das pessoas escravizadas. E, já que a colonialidade permaneceu no Ocidente mesmo após o fim das colônias, a violência da guerra acabou se inserindo na vida diária das pessoas nas diferentes condições de vulnerabilidade social: as mulheres, as pessoas não brancas e as pessoas LGBTQ, principalmente. É impressionante a precisão da descrição de Maldonado para a realidade de guerra que marca a vida de quem não é homem, branco e heteronormativo.

As mudanças só acontecem de baixo para cima

Em “O Mordomo da Casa Branca”, tanto Cecil quanto Louis reconheciam que, sendo eles negros, seu cotidiano era de guerra, e por isso eles poderiam a qualquer momento ser presos, estuprados, torturados e mortos. Mas ambos divergiam de forma traumática por terem escolhido diferentes maneiras de lidar com essa situação.

O mordomo da casa branca

Os empregados da Casa Branca divergiam sobre como deveriam enxergar a si mesmos naquele lugar.

Cecil assumiu que, aceitando o lugar subalterno destinado a ele pelos brancos que ocupavam as instâncias de poder, ele garantiria condições mínimas de sobrevivência para si e sua família, o que seria o máximo que os de sua cor poderiam ter num país segregado. Situando-se conscientemente num lugar específico no campo de batalha, ele se dedicou a aprender a desviar do próximo golpe.

Louis reconhecia o estado cotidiano de guerra, mas não se contentava com a sobrevivência e com uma vida excluída de uma dimensão estética, coisas que para ele eram o supra-sumo da injustiça. Desejava a liberdade e a vivência plena de que os brancos gozavam, porque se reconhecia como igual a eles. E, mais que isso, desejava o fim da condição de guerra que tornava a sua vida insuportável.

Mas o fazia de uma maneira que, tanto na resistência pacífica de Martin Luther King quanto no enfrentamento proposto por Malcolm X, era uma maneira agentiva, propositiva, de ações que não se limitavam à mera reação à violência imposta pelos brancos, mas, num filme cuja temática principal é a ocupação de lugares sociais, aconteciam pela afirmação da presença em espaços focais, que são os espaços públicos: os ônibus, os restaurantes, as ruas.

O conflito entre pai e filho se agrava com a profissão do pai sendo negada pelo filho, por materializar uma subalternidade existencial que este repudiava. Cecil, por sua vez, repudiava o inconformismo do filho, por ser uma negação de sua dedicação e sacrifício como pai extremado. Dedicado a ser subalterno e invisível, Cecil não podia compreender por que motivos muitos negros estadunidenses partiam para a desobediência civil (ele inclusive achava que o faziam por opção, no que estava redondamente enganado), arriscando-se à prisão, ao sofrimento físico e moral e à morte. Não compreendia como preferiam isso a viver como ele, em sua confortável bolha.

A autodefinição como prática de vida

O fim das diferenças entre Cecil e Louis é outro dos alvos em que o filme acerta sem ver. E se possibilita por causa de uma cena maravilhosa, que é a presença de Cecil como convidado, e não como garçom, num dos jantares da Casa Branca, a convite de Nancy Reagan. A epifania de Cecil acontece quando ele partilha a mesa com o presidente dos Estados Unidos e algumas outras pessoas muito importantes. Desconfortável, observa a felicidade da esposa a uns poucos metros dele – algo que por mais de trinta anos nunca sentiu naquele lugar. Circulando a seu redor, serviçais que ele conhece muito bem: são seus colegas, alguns deles amigos íntimos e pessoas com quem pode contar em momentos de crise.

O mordomo da casa branca

Invisível todo o tempo, não importa quão perto do poder estivesse.

Em noites normais, Cecil estaria entre eles, usando luvas brancas, enchendo copos e servindo o jantar. Mas, desta vez, como convidado especial do presidente, Cecil é por eles servido. Isso significa experimentar uma condição e lugar que antes nunca ocupara, o que lhe permite observar os que o servem de uma perspectiva inédita: percebe a representação, o mascaramento, artifícios que ele próprio construiu ao longo dos anos para suportar estar invisível entre os que inventaram sua inferioridade.

Ao sair desse lugar, mesmo que por algumas horas, Cecil pôde finalmente se ver, ver a pessoa em que havia se tornado, ao seguir fielmente os planos que, em sua mente maltratada pela violência, lhe trariam proteção numa sociedade injusta, racista e assassina. Ao enxergar-se a si mesmo sem a carapaça que criou para se proteger, Cecil compreendeu que um lugar numa mesa por algumas horas seria o máximo que teria naquele lugar. Compreendeu que aqueles brancos nunca haviam lhe dado nada, e nunca lhe dariam. Que qualquer coisa que as pessoas negras estadunidenses teriam seria conquistado com luta e sacrifício, algo que seu filho dedicou a vida a fazer.

A sociedade só muda se as mentes mudarem

Não vemos as coisas quando as pessoas nos mostram; as vemos quando as podemos ver. E essa visão, quando Cecil estava pronto para ela, lhe provocou transformações tais que o impediram de continuar aceitando a invisibilidade em que por toda a vida esteve. Mas lhe permitiram ver o que havia perdido, assim como o que devia fazer para poder recuperar.

A ação de autodefinição de Cecil não foi seguida de uma revolução social no seu lugar de trabalho. Esse tipo de desenvolvimento narrativo tornaria o filme tão medíocre quanto os outros que citei no início deste texto. Mas se seguiu de uma transformação interior que o fez reconhecer algumas das injustiças de que sempre foi vítima e começar a construir uma relação de amor e admiração mútua com o filho.

Para as grandes revoluções sociais, isso é quase nada, mas para toda uma vida sem autoconhecimento, é um grande feito. É grande o suficiente para afetar as pessoas ao redor com os sentimentos mais potentes que existem, e promover nas novas gerações a confiança e a convicção para as lutas sociais que transformam o mundo.

O mordomo da casa branca

A questão não é de que lado da guerra se está, mas sim como acabar com ela.

A inserção em campos conceituais importantes sobre racismo e colonialidade torna “O Mordomo da Casa Branca” uma obra que vale a pena ser visto e discutida. O filme pode ensinar muito a pessoas de todas as raças que desejam viver uma vida pautada pelo antirracismo e articular a conquista da consciência de raça à construção da própria autodefinição. Ensina também que essa articulação é muito mais gratificante quando se faz em relacionamentos de afeto, o que é fundamental para desconstruirmos a existência em guerra que a colonialidade impõe à maioria das pessoas. Esses aprendizados ampliam as possibilidades de ação e luta por um mundo menos racista, algo que muitos de nós temos buscado de maneira cada vez mais urgente, porque o mundo não comporta mais a injustiça e a desigualdade em nenhum sentido.

*Termo usado pelo geógrafo brasileiro Milton Santos.

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