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O Rei da Comédia (1982)

O Rei da Comédia (1982)

Matheus Fiore - 16 de janeiro de 2017

Poucos anos depois de Taxi Driver Touro Indomável, Martin Scorsese lançou O Rei da Comédia, que consegue ser ao mesmo tempo seu maior fracasso cinematográfico mas também um de seus longas mais interessantes e introspectivos. O nome e o visual do filme em suas artes e cartazes podem sugerir tratar-se de uma comédia – e até certo ponto, a obra tem sim uma forte veia cômica – mas Scorsese é capaz de subverter as expectativas do público e transformar a obra em uma trágica e melancólica história sobre distúrbios mentais, ego e culto à personalidade.

Protagonizada pelo genial Robert De Niro, a obra acompanha Rupert Pupkin, um aspirante a comediante que tem Jerry Langford (Jerry Lewis) como ícone. Rupert tenta, desde os primeiros momentos da projeção, se aproximar de Langford e convencê-lo a alavancar sua carreira. Já em seu primeiro ato, O Rei da Comédia estabelece uma interessantíssima inversão de papéis: enquanto Langford, o renomado comediante, apresenta uma personalidade humilde e contida, Pupkin, ainda tentando iniciar sua carreira, já possui uma arrogância tão grande que é capaz de chamar seu ícone de “príncipe” e se referir à si mesmo como “rei”.

E essa inversão de papéis extrapola a narrativa e vai até a escalação do elenco. Jerry Lewis se consagrou por seu cinema de humor, enquanto De Niro tinha em três papéis extremamente dramáticos seu nome na sétima arte (O Poderoso Chefão: Parte 2, Taxi Driver e Touro Indomável). Como na condução da narrativa de O Rei da Comédia, Scorsese foi capaz de surpreender seu público até na escolha dos atores.

Ainda no começo, O Rei da Comédia usa uma montagem paralela para mostrar ao público que seu protagonista não é plenamente são. Logo após a cena na qual Pupkin conhece seu ídolo, vemos os personagens em um jantar amigável, em que Langford implora pela ajuda de Rupert em seu programa. A montagem alterna os momentos desta conversa com o personagem de De Niro falando sozinho, em sua casa, simulando os dois lados da conversa. É interessante notar como em seu quarto, Rupert está completamente sozinho, em um ambiente pouco iluminado onde apenas as cores de suas roupas se destacam. Enquanto fantasia suas conversas, o personagem é constantemente interrompido por gritos de sua mãe, que nunca entra em cena visualmente, apenas por sua voz, simbolizando o isolamento de Pupkin em seu mundo fechado.

Os momentos de delírio do personagem são recorrentes durante os 109 minutos de projeção, e até metade do filme, Scorsese faz questão de mostrar o quanto estes destoam da vida real de Rupert, sempre usando Jerry Langford como âncora da realidade através dos dois polos: o comediante de sucesso extremamente paciente e o decadente e inseguro “príncipe” da comedia.

Um dos elementos mais sutis da obra é a forma como Scorsese constrói visualmente a insegurança incubada de Rupert. Na cena seguinte ao passeio com uma antiga paixão de sua juventude, Rupert utiliza uma gravata dourada, mesma cor do corredor de sua amada. O uso das gravatas também constrói a tentativa de aproximação de seu grande herói: mais à frente, o perturbado personagem utiliza uma gravata azul, cor de parte das paredes do escritório de Langford, onde ele repetidas vezes visita tentando conversar com Jerry.

Em outro interessante uso das cores, Pupkin observa que ao lado do rosto de Jerry, na entrada de seu escritório, há um espaço pintado de vermelho. Em seguida, o personagem volta a ter delírios de conversas com Langford, usando uma gravata com o mesmo vermelho, fortalecendo o anseio do humorista de estar ao lado de sua maior referência. Scorsese encontra muita leveza ao construir a forma com que Pupkin se apega às pessoas que ama e admira, e estes elementos passam a se intensificar conforme a obra perde seu tom cômico e entra em um túnel de melancolia.

Vemos que as ilusões do protagonista interferem ferozmente em sua percepção da realidade quando ele acredita ter compromissos que foram firmados em devaneios dele, como quando Pupkin aparece na casa de um personagem sem este ter convidado-o. Scorsese não deixa claro, mas é possível dizer que De Niro esteja interpretando um personagem com problemas de maturidade mental se observarmos que, tanto na realidade quanto em suas viagens mentais, Rupert sempre recorre à pessoas da sua infância (sua paixão de colégio e o diretor de sua escola), além dele ter 34 anos e ainda viver com sua mãe, que o trata como um menino (ela está sempre presente gritando para o rapaz dormir cedo e não perder a hora do ônibus).

Em sua parte final, o que era uma leve comédia sobre um fã perseguindo seu ídolo eleva suas ideias à um novo patamar quando o protagonista chega ao ponto de sequestrar Jerry Langford para ter sua atenção e algum espaço em seu programa de televisão. Aqui, o deboche aos fãs fanáticos que tornava a primeira parte do filme cômica dá espaço para uma melancólica sucessão de fatos que não só indica que Rupert se tornou incapaz de separar fantasia e realidade, como não deixa claro para o espectador o que é real e o que não é.

Ao sermos incapazes de definir até que ponto o que nos é passado é real e o que não passa de devaneios de uma mente perturbada, somos capazes de, finalmente, sentir empatia e compreender Pupkin. À essa altura, porém, não faz mais diferença. Como o personagem diz durante a projeção: “é melhor viver um dia de rei do que uma vida inteira de tolo”. E em O Rei da Comédia, o personagem de De Niro experimenta os dois. Após passar boa parte de sua vida fazendo piadas para uma parede de rostos que não o escutavam e recebendo aplausos de mãos que não existiam, mesmo que por um curtíssimo momento, Rupert vislumbrou o sucesso. E para ele, foi o suficiente.

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