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Vai ter blockbuster politizado sim!

Vai ter blockbuster politizado sim!

Ana Flavia Gerhardt - 21 de dezembro de 2017

Este artigo possui revelações sobre o enredo (spoilers) de Star Wars: Os Últimos Jedi. Se você ainda não assistiu ao grande blockbuster politizado de 2017, leia nossa crítica sem spoilers clicando aqui.

Ratatouille blockbuster politizado

Rémy, o ratinho mais subversivo do Cinema. Por que ele está num artigo sobre Star Wars? Você saberá em breve.

Um dia depois de assistir a Star Wars: Os Últimos Jedi, realizei o desejo de ver Ratatouille, de Brad Bird, junto com minhas sobrinhas mais novas. Meus três sobrinhos adultos, todos iniciados na cinefilia, já foram capturados pelo ratinho mais subversivo e transgressor da História do Cinema. Mas faltava ainda cativar as duas menores com as aventuras gastronômico-existenciais do carismático e delicado Rémy, e agora me sinto satisfeita no que diz respeito a essa parte. Missão cumprida.

O que Ratatouille representa na minha vida justifica a intenção de torná-lo conhecido das pessoas mais próximas a mim. A máxima do chef Gusteau, “qualquer um pode cozinhar”, generaliza para todos, sem qualquer distinção, as capacidades e talentos humanos. Ao mesmo tempo, faz a gente supor que de qualquer camada social, e não apenas daquelas que a gente espera que normalmente venham, pode emergir o que há de melhor nas pessoas. Ora, imaginar que um rato pode ser um grande chef de cozinha é uma ideia análoga a todas as expectativas que podemos construir sobre as pessoas, a respeito de quem pode ser o quê. O fato de Rémy conseguir vencer os preconceitos que insistiam em expulsá-lo da cozinha nos reafirma a esperança de que podemos realizar nossos sonhos, por mais absurdos que eles possam ser em comparação com nossas possibilidades materiais de realização.

Rémy é meu grande ídolo porque, como uma pessoa que gagueja, num mundo acadêmico que cobra fluência verbal e a associa à competência profissional, eu precisei enfrentar situações em que nenhuma pessoa esperaria que uma “gaguinha” estivesse. Também suportei (e ainda suporto), me esforçando como posso para não dar explicações, a suspeita de que muitos primeiros ouvintes devem pensar que não era para alguém como eu estar ali – ou, de um outro ângulo, que certos lugares não são para alguém como eu. Assim como para Rémy, nem sempre é fácil, mas viver para realizar o sonho de ser pesquisadora numa grande universidade vale o sacrifício. Imagino que deve haver muitos Rémys por aí, cavando com brilhantismo e grande empenho seu lugar ao sol.

Ratatouille, obra-prima da Pixar, emerge no mundo cinematográfico num tempo em que já é possível imaginarmos a subversão e a transgressão como um dos caminhos para a singularidade e a potência. Também oferece ferramentas para podermos questionar normas sociais que, a partir de marcadores específicos, estabelecem para determinadas pessoas limitações de ordem profissional e pessoal, a respeito do que elas podem desejar para as próprias vidas. É como se agora os caminhos estivessem pouco a pouco sendo abertos para, num futuro que esperamos seja próximo, todos possam sonhar com coisas que até pouco tempo atrás estavam acessíveis apenas a poucos privilegiados.

Infelizmente, ainda há quem acredite que as pessoas devem se contentar com o que o seu gênero, sua raça e sua classe historicamente lhes destinaram, como nesta notícia do jornal Extra, que tem relação direta com a questão da desigualdade racial em termos de mercado de trabalho e salários.

Como um blockbuster politizado se integra às mudanças de pensamento?

É fundamental pontuar que essas discussões são possíveis porque hoje há condições de pensabilidade para viabilizá-las, como eu tenho afirmado em alguns artigos acadêmicos e também em vários textos meus aqui no Plano Aberto. Dentre essas condições, como afirma bell hooks em Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, está o problema de aceitarmos ou não o que dizem sobre o que devemos ser. Assim, para racionalizar e expor o que constitui o preconceito social, uma ação inteligente foi implementada: levantar a questão de que, na grande maioria das vezes, a ideia sobre quem vamos ser na vida já está previamente dada por outras pessoas. Com isso, vem a reboque o questionamento de se vamos ou não aceitar o que os outros dizem sobre quem vamos ser.

Essas questões, dentre muitas, abrem campo para filmes problematizadores como Ratatouille e Star Wars: Os Últimos Jedi, que podem ser feitos porque temos elementos cognitivos e discursivos para debater o que estou chamando aqui de “blockbuster politizado”.

Star Wars Os Últimos Jedi Rey Daisy Ridley blockbuster politizado

Rey é a Jedi que ninguém esperava.

A construção dessas condições tem sido feita majoritariamente pelos movimentos sociais que lutam sobretudo pelo fim dos privilégios de gênero, classe e raça, e pelos estudos em Ciências Sociais que colocam em xeque a condição das mulheres, das minorias raciais, dos economicamente desfavorecidos e da comunidade LGBTQ. Estes movimentos têm recebido reações preconceituosas, com seus militantes sofrendo represálias como desqualificações e até tortura e morte.

O Cinema tem respondido a essa luta de maneira razoavelmente permeável. As novas condições de pensabilidade fazem com que cada vez mais pessoas rejeitem filmes que insistem em modelos arcaicos e anacrônicos de mundo, que colocam, sem qualquer problematização, mulheres, LGBTQs, não-brancos e pobres em condições de vida hoje vistas como inaceitáveis. Grandes franquias cinematográficas que não entram nesse mesmo movimento também são bastante criticadas pelo público e pela crítica, que demonstram uma exigência cada vez maior por filmes com qualidades temáticas relevantes, inclusive os blockbusters.

O trajeto das problematizações sociais em Star Wars

É interessante revisitar filmes que pertencem a um tempo em que a sensibilidade às desigualdades sociais era bem menor. O caso de Star Wars é muito simbólico nesse sentido: a saga dos Jedi e da República contra o Império, e posteriormente da Resistência contra a Primeira Ordem, é uma das mais longas franquias da história do Cinema. Entre o primeiro filme de George Lucas e o mais recente, de Rian Johnson, há um intervalo de 40 anos. Por isso, é de se esperar que haja transformações de pensamento marcando as relações entre os personagens. Sob a batuta do midas J. J. Abrams, o primeiro filme da trilogia mais recente, O Despertar da Força, já trazia plantadas em solo fértil as sementes de discussão política e social que Os Últimos Jedi nos oferece.

Star Wars A Ameaça Fantasma Conselho Jedi blockbuster politizado

Embora um Jedi inesperado, o plebeu Anakin não sofreu nenhuma rejeição dos fãs porque era um menino.

Eu tive o privilégio de assistir a todos os filmes no Cinema, e a memória deles me faz reconhecer a mudança de paradigma que marca o filme que acaba de ser lançado. Antes, muita coisa não era questionada: as condições de mobilidade social tanto na República quanto no Império;  por que os Jedi eram majoritariamente homens; por que pessoas eram criadas para obedecer – no caso, os clones, precursores dos stormtroopers, criados pela República (????) por encomenda de um Jedi (????).

Como dito em nossa crítica, os primeiros heróis de Star Wars, aqueles que são alçados aos lugares de poder tanto na República quanto no Império, são os que têm origem nobre, ou a descobrem após passar a vida acreditando serem plebeus, órfãos e miseráveis. A República é uma organização política que se afirma democrática, mas durante as duas primeiras trilogias da saga permanece sendo uma aristocracia.

Mestre Yoda é um Jedi de origem desconhecida, mas é tido como o mais extraordinário dos Jedi, provavelmente para compensar sua origem plebeia – tal como acontece na vida “real” com pessoas que fogem dos padrões raciais, estéticos e de gênero, que precisam ser melhores do que todo mundo para merecer ocupar os lugares sociais que ocupam. Anakin Skywalker, um dos autocratas do Império, era outro personagem de origem marginal na estrutura social da narrativa de Star Wars. O pai dos gêmeos Lea Organa e Luke Skywalker é filho de uma escrava, mas sobe na cadeia social ao se tornar parte dos Jedi, força diplomática oficial da República.

Lea Organa, uma Princesa, lidera a Resistência ao longo de toda a franquia. Luke Skywalker, por sua vez, cumpriu a cartilha do herói clássico: de vida humilde e origem desconhecida, Luke, ao entrar em contato com os membros da Aliança Rebelde contra o Império, descobre-se não apenas poderoso na Força (herança do pai), como também um nobre, já que é filho de Rainha e irmão de Princesa. Portanto, Luke Skywalker, o herói típico, é nobre não só em coragem e poder, mas também em linhagem. Aliás, é excepcional o rumo humanizador que a trajetória de Luke assume em Os Últimos Jedi, entre outras ações corajosas do roteirista e diretor Rian Johnson. Por fim, Han Solo é um herói inequívoco, mas, como não ocupa nenhum lugar de poder, sua origem plebeia não traz problemas estruturais para a narrativa geral dos filmes.

O filme de Rian Johnson pavimenta o percurso de politização da franquia

Um ganho narrativo importante que a saga Star Wars traz é o fato de que a Força, como elemento propulsor da expansão do universo, e presente mais fortemente em algumas pessoas independente de sua espécie, é um fator narrativo que quebra os maniqueísmos usuais das histórias de herói. Da mesma forma que há o lado iluminado da Força, voltado para a harmonia do universo, há o lado negro, caracterizado pelo desejo de poder absoluto e sem qualquer consideração pela vida das demais pessoas. Alguns daqueles em quem ela é forte passam por períodos de perdição ética e podem cair em desgraça total.

Star Wars Os Últimos Jedi Kylo Ren Adam Driver blockbuster politizado

Kylo Ren pode ser visto como uma concessão do novo paradigma de Star Wars à tradição dos Jedi aristocratas.

Isso acontece porque a Força é uma evidência de que o Bem e o Mal estão dentro de nós, e não em elementos míticos externos, como deuses e demônios. Não há um mundo espiritual em Star Wars: o que existe é o Universo e seus poderes que fluem como propulsores de vida e de morte. A questão interessante, que as trilogias das décadas anteriores não abordam, é o que aflora na trilogia atual: antes, a Força acontecia majoritariamente no meio aristocrático; agora, parafraseando a máxima de Gusteau, qualquer um pode ser um herói; qualquer um pode ser um Jedi. Assumir isso como opção narrativa é problematizar lugares sociais, o que é uma ação politizada.

Finn é um stormtrooper, portanto criado para não planejar nem agenciar – apenas obedecer. Dele não se espera sequer que pense. Mas de repente ele se vê pensando e questionando eticamente suas funções e deveres. A tomada de consciência e a individualização de Finn se acompanha da retirada de seu emblemático capacete, que o igualava aos demais de sua espécie (algo que também foi feito pelo policial Murphy em Robocop). Significativamente, a ação individual e singularizadora de Finn praticamente abre o filme O Despertar da Força, já propondo aos espectadores o tom temático da trilogia. Tendo Finn consolidado seu papel heróico na Resistência em O Despertar da Força, aparentemente ninguém mais questionaria sua importância e origem.

Até que Finn reencontra a capitã Phasma, a quem era subordinado nos tempos de stormtrooper. Ao lembrar o passado servil de Finn, afirmando que ele sempre será aquilo que foi criado para ser – um stormtrooper, ou seja, um soldado raso, ou seja, “ralé” -, Phasma enuncia um significado importante e inédito, confirmando o que já sabemos: quando os preconceituosos reiteram discursos sobre quais devem ser os lugares sociais ocupados pelas pessoas, como se eles fossem uma espécie de destino inescapável, isso acontece sempre como reação a mudanças sociais que não agradam a todos. Portanto, a afirmação de Phasma só existiu porque mudanças sociais aconteceram; por conta disso, sua fala termina por ratificar a nova realidade de Star Wars: qualquer um pode ser um herói, inclusive um stormtrooper negro.

Star Wars Os Últimos Jedi Gwendoline Christie Phasma blockbuster politizado

Gwendolyne Christie e sua voz poderosa marcam com precisão o campo contrário ao dos que se recusaram a aceitar modelos de vida previamente dados.

O mesmo faz Kylo Ren em encontro definitivo com Rey, a mulher catadora de lixo que se descobre Jedi, contrariando décadas de crenças consolidadas sobre quem pode compor o privilegiado grupo dos protetores da República e inspiração para a Resistência. Na tentativa de destruir as esperanças da moça, que busca sua origem familiar, Ren assevera que não, ela não seguirá o destino do herói clássico. Seus pais não são um casal de nobres que, por motivos extremos, precisaram se separar dela. Ela não somará à sua nobreza heróica uma linhagem aristocrática, uma nobreza de nascimento. Ela é apenas uma criança vendida e abandonada pelos pais, que cata lixo espacial para sobreviver. Assim, a fala de Kylo Ren tem efeito igual à de Phasma: ela afirma uma reordenação das tradições sociais da franquia. Ao ver revelada a Força dentro de si, Rey se alinha a Finn para ratificar a ideia de Gusteau: qualquer um pode ser um Jedi, inclusive uma mulher catadora de lixo.

Os dois sinais que recorto para uma mudança no estado de coisas social na recente trilogia Star Wars se aliam a alguns outros que, embora sem tomar muito tempo do filme, existem em quantidade suficiente para deixar marcas importantes. Isso provavelmente acontece por conta da inserção, nos filmes, de marcadores como gênero, raça e classe, que compõem a estrutura das Ciências Sociais do século XXI. Essa atitude é de uma ousadia gigantesca, porque Os Últimos Jedi seria um estrondo de bilheteria mesmo se tivesse feito uma opção conformista e não incomodativa dos preconceitos sociais, como alguns filmes têm feito. Ao tornar-se uma espécie de Ratatouille da ficcção científica, um blockbuster politizado e problematizador de modelos e discursos que estão aí engessados há milênios, a atual trilogia de Star Wars se transforma numa obra de Arte a ser discutida no presente e no futuro como um elemento de diálogo com os movimentos sociais.

Assistimos a aristocratas fora do protagonismo e acompanhamos uma história em que um stormtrooper negro é um herói e uma mulher catadora de lixo é uma Jedi. Vimos explicitados os preconceitos de quem pensa que apenas determinados tipos de pessoas são capazes de ocupar de forma competente espaços de poder. Atribuímos medos, paradoxos e contradições a heróis clássicos e tradicionais. Por esses motivos todos, e alguns outros que outros articulistas estão apontando em todo o mundo, a nova trilogia Star Wars se coloca na fronteira da construção do conhecimento em Ciências Sociais. Oferece-nos obras de Arte problematizadoras, alinhando-se a outras franquias que também sustentam, de forma tímida ou mais efetiva, mas sempre com orgulho, esse título. Aos que rejeitam a problematização e acreditam que todo mundo tem que fazer tudo igual a todo tempo, e que as pessoas não podem ser o que manda o desejo do seu coração, é como diz o pessoal do funk: “se não gosta, senta e chora“, porque vai ter blockbuster politizado sim! E as mudanças estão só começando.

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