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Pariah e o feminino como subjetividade histórica

Pariah e o feminino como subjetividade histórica

Ana Flavia Gerhardt - 3 de setembro de 2017

Hoje, enquanto almoçava num dos bairros centrais da cidade onde moro, vi passar um grupo de pessoas se manifestando contra a homofobia. Não era um grupo grande, e se via bem que ainda faltava muito para desenvolverem minimamente o know-how que torna as Paradas Gays pelo mundo tão bem organizadas e bem sucedidas. Mas era inegável que àquelas pessoas não faltava vontade, porque elas deviam ter planejado aquela ação por bastante tempo e estavam dispostas a sair à rua num domingo, embaixo do sol quente, para provavelmente se exporem ao escárnio alheio. Certamente, a elas valia a pena manifestarem juntas a sua condição social comum: pessoas que apenas desejam sair às ruas sem medo de serem espancadas e mortas, e reivindicam que seus direitos fundamentais, previstos pela Constituição Brasileira, não sejam tratados como privilégios.

O que torna essa manifestação digna de nota? O fato de estarmos na segunda metade do século vinte e um, quando todas as previsões dos profetas do futuro sobre uma humanidade de bem estar social já deviam estar concretizadas, e, mesmo depois de tantas ações violentas serem objeto de horror em todo o mundo, muitos de nós ainda temos de sair à rua para dizer que o fato de sermos quem somos não pode ser motivo para sermos mortos.

Evidentemente, ser espancado e morrer por ser quem se é não afeta apenas as pessoas gays. Além delas, muita gente morre porque é não-branca, mulher e pobre, e todas elas se assemelham por pertencerem, segundo um determinado grupo que anda dando cada vez mais as caras, a uma condição humana inferior, portanto estarem vivas ou mortas lhes é indiferente. Aliás, muitos acham que elas têm é que ficar mortas mesmo, tanto é que as matam de uma vez. Nem vou citar exemplos, dada a obviedade dessa constatação.

Neste artigo, não me estenderei na discussão sobre homofobia; falarei como mulher e feminista (para mim, a mulher feminista é aquela que reflete sobre sua condição de mulher; li uma vez essa definição e não lembro quem a deu, mas achei bastante apropriada e agregadora, tanto é que a assumi). Assim como os gays que morrem porque são gays, muitas de nós também morremos por sermos mulheres, e essa é a mais trágica violência que sofremos, numa longa escala que começa, pode-se dizer, no assédio sexual, particularmente em lugares públicos, em que estranhos nos passam a mão, nos dizem palavras chulas, nos convidam para o sexo, entre outras nojeiras.

O assédio em lugares públicos é algo que praticamente todas as mulheres já sofreram; muitas de nós passamos um bom tempo sem nos darmos conta de que o sofremos, até que tenhamos a sorte de nos depararmos com alguém que nos ajude a compreender que aquilo que nos incomodou tanto por algum motivo, esse motivo é justamente o fato de termos sido assediadas, desrespeitadas. Os homens em geral, até aqueles com boa vontade para dialogar conosco, têm dificuldade em compreender o que é o assédio. Muitos deles acreditam que, para reagir aos assediadores, precisamos dizer que temos marido, namorado etc.

Infelizmente, eles não compreendem que afirmações desse tipo apenas reforçam a ideia de propriedade e objetificação que subjaz a toda a violência contra as mulheres. De fato, quando falamos que temos companheiro, alguns assediadores param de nos assediar, mas não pelos motivos certos: eles acreditam que a mulher que está desacompanhada na rua é uma mulher que não tem proprietário, então estaria disposta a fazer sexo com qualquer um que a abordar; por outro lado, uma mulher com marido já tem proprietário, então é melhor não mexer com ela. Mas agora me digam o que leva um homem a acreditar, em pleno século vinte e um, que uma mulher, só por estar num lugar público, estaria disposta a fazer sexo com qualquer um. E por que esse mesmo homem xinga de puta e vadia a mulher que o repudia.

Sinceramente, não tenho resposta para essas perguntas. Mas até aquele que não se faz pergunta nenhuma se coloca sem palavras diante das contradições deste mundo, que alcança o presente oferecendo perplexidades como o fato de que alguns grupos de pessoas acreditam que outras são inferiores; que as vidas de uns valem menos que as de outros; que acreditam que algumas pessoas precisam demonstrar que são propriedade de alguém para serem “respeitadas”; que acreditam que mulheres que vivem com homens são sua propriedade; que acham normal viver num país em que sete mulheres morrem por dia vítimas de violência doméstica. Na ausência de respostas, temos, porém, o Cinema, e a Arte em geral, que, entre muitos outros feitos, desconstroem realidades previamente postas como formas únicas de viver, e devo confessar que essa é uma das suas partes que mais aprecio.

Essa desconstrução pode ser feita de inúmeras formas, e a frequência cada vez maior com que isso tem sido feito, por diretoras e diretores, gera dois feitos importantes. Um é o de mostrar que ainda há obras em que isso não acontece de jeito nenhum, ao darem visibilidade a uma visão preconceituosa sobre a mulher que ainda permeia o Cinema e tem chamado a atenção de muitos estudiosos do feminismo. O outro é o de nos ajudar a reconhecer a construção histórica do feminino como uma forma de subjetividade (aqui estou usando o sentido foucaulteano de “subjetividade”, que, basicamente, trata da pessoa constituída pelos padrões de discurso e conhecimento que formam categorias sociais como classe, raça e gênero, entre outras), dentro da qual se espera que emerja uma singularidade, que é a apropriação da pessoa de si mesma e do seu próprio desejo, para além dos padrões sociais em que ela nasceu e cresceu.

No plano da subjetividade, cabe falar do feminino como uma ideia estável e historicamente fundamentada; no plano da singularidade, estamos falando de pessoas que existem por meio de suas experiências e a partir delas edificam suas crenças, ações e decisões, independente da sua orientação sexual, gênero, classe ou raça. Para ambos os conceitos, teremos filmes à farta, mas, neste momento, Pariah, dirigido por Dee Rees em 2011, me parece ser, dentre os muitos filmes que há para pensarmos sobre o assunto, um dos que mais representam a ideia de como uma mulher encaminha seu rumo em direção à singularidade.

As grandes qualidades de Pariah se tornam ainda mais evidentes quando comparadas a vários outros filmes também dos anos 2000 para cá, um período em que, nas Ciências Sociais, se construiu mais linguagem e mais cognição para problematizar a condição histórica da mulher (e do homem também, é preciso dizer), promovendo o diálogo entre categorias sociais como classe, raça e gênero e mostrando como elas todas se interpenetram na vida das pessoas. Ainda retornarei a Pariah, mas antes quero falar de outros filmes que me chamaram a atenção nesse sentido.

Um deles é Eternité, dirigido por Tran Ahn Hung em 2016. Todo voltado para a descrição de sentimentos femininos, narrados em off, Eternité se insere completamente no padrão heteronormativo e burguês do casamento, e na ideia da felicidade feminina baseada no amor conjugal, não raro despertado após um casamento arranjado, e na maternidade. As mulheres do filme existem em mundos despolitizados, em que as contradições inerentes à sua condição são apagadas, e a vida para elas consiste não em realizações pessoais, mas no cuidado de outras pessoas, especificamente, filhos e maridos, dentro de residências belíssimas, iluminadas pela fotografia maravilhosa do filme. A sua dor diz respeito exclusivamente à perda dos entes amados, que muitas vezes elas recompõem com a busca de outros entes – mais filhos, outros companheiros.

O mundo de Eternité, com a proposta de ser um mundo feminino, acaba por ser um mundo fora das relações de trabalho, competição, desigualdade e violência – um mundo exclusivamente doméstico, que, pelo que se pode inferir, é suficiente para tornar completa e plena a vida de uma mulher. Um mundo em que pouquíssimas mulheres reais se encaixam, se é que se encaixam. Salta do filme, em cada cena, a subjetividade histórica feminina, que por séculos tem sido, supostamente, o desejo de muitas mulheres, que hoje sabemos ser o desejo produzido por outrem para elas: marido, filhos, uma vida abastada, sem preocupações, voltada para os espaços domésticos e os afazeres cotidianos. É uma vida aparentemente maravilhosa, sem qualquer dificuldade nem conflito, como se isso fosse possível, mas mascara a condição subalterna e reprodutora da mulher ao longo dos séculos em todas as sociedades.

Ao assistir a Eternité, senti-me desconectada daquelas mulheres e das formas de produção daqueles sentimentos, e não pude deixar de me lembrar de A história da eternidade (não deve ser por acaso que a mesma palavra se encontra nos dois títulos), dirigido por Camilo Guimarães em 2014, esse sim um filme extraordinário, em que, em pleno semiárido nordestino, explode o sentimento de três mulheres de três gerações, poderosas e donas de seus destinos. Num lugar em que se supõe que as pessoas estariam voltadas apenas a operar sua própria sobrevivência, o que se vê em A história da eternidade é a transcendência dos sentimentos de homens e mulheres, dispostos a vivê-los até a última gota, não importassem os impedimentos para isso.

É possível, porém, assistir a filmes em que a mesma construção da subjetividade histórica do feminino é transformada em questão e serve de base para narrativas problematizadoras das condições sociais que estão sendo descritas, e sobre isso quero salientar dois em especial: A Garota Húngara, de Attila Szász, e Amor e Amizade, de Whit Stillman, ambos de 2016. Tanto um quanto outro se inscrevem no tema da condição da mulher europeia nos séculos mais recentes, cada qual oferecendo uma abordagem crítica muito interessante.

A Garota Húngara denuncia a situação objetificada da mulher, que a excluía completamente das instâncias de poder, de voz e de voto, bem como da estrutura e da dinâmica da produção de bens e trabalho. Mostra também o quanto a beleza e a juventude eram capitais importantes para que uma mulher fora dos círculos de elite pudesse sair da condição de servidão e de humilhação que lhe eram impostas. O filme traz três mulheres de gerações diferentes – uma, ainda bastante jovem e exalando frescor; outra, no auge da beleza mas já temendo a derrocada social que o passar dos anos certamente lhe traria; e uma terceira, já no ocaso pessoal por conta do que naquela época era considerado velhice: “as mulheres de mais de quarenta anos cheiram mal”, lhe diz um homem rico.

O interessante título do filme refere-se a essas três mulheres, em períodos diferentes da vida: as três, cada um em seu momento, são garotas húngaras, e, como tais, têm diante de si as escassas possibilidades de vida para uma mulher não casada daquela época e lugar: a criadagem, a prostituição ou a mendicância. A descrição da subjetividade feminina como condição histórica por meio do desdobramento de mulheres em três momentos diferentes da vida fornece a visão clara do quanto é difícil uma mudança de pensamento que rompa com os valores sociais que produzem o estado de coisas em que a um gênero é concedida a liberdade, o poder e a autonomia, e a outro só restam as migalhas que lhe são por acaso oferecidas. Não seria na Budapeste do princípio do século vinte que essa mudança seria alcançada.

E também não seria na Londres do século dezenove, que é o contexto de Amor e Amizade, baseado no genial texto de Jane Austen. Austen já provou ser capaz de uma escrita absolutamente subversiva e crítica da situação da mulher na rígida sociedade inglesa do seu tempo, criando personagens femininas que impõem sua vontade mesmo em tempos em que isso poderia significar a miséria para toda a vida. No caso de Amor e Amizade, essa personagem é Lady Susan Vernon, que, se não logra romper com o padrão da subjetividade feminina da época, em que apenas através do casamento uma mulher poderia conseguir uma vida, digamos, “digna”, é capaz de ter cristalina clareza acerca das suas limitações e saídas de vida.

Por isso, a personagem consegue manipular as situações a fim de produzir fissuras e fricções naquele padrão, tornando-se artífice da própria vida – mais até do que muitos homens – e promovendo para si mesma o bem-estar que era possível em sua época. A inteligência para negociar a própria potência faz de Lady Susan uma das grandes personagens Austenianas, ao mesmo tempo em que torna ainda mais escandaloso o machismo de uma sociedade que recusa às mulheres qualquer representatividade política e econômica, condenando pessoas brilhantes e talentosas à indigência. E, além disso, é delicioso ver como Lady Susan coloca todo mundo no chinelo.

No caso da jovem Alike, protagonista de Pariah, o machismo se soma à homofobia, que força a moça negra e lésbica a viver duas vidas, materializadas nas roupas que veste: junto à amiga Laura, frequenta boates para mulheres gays em roupas de menino; em casa, para satisfazer à mãe que luta com todas as forças para encaixar marido e filhas no modelo heteronormativo de vida, ainda vigente e poderoso na Nova York dos anos 2000, veste a contragosto as roupas femininas, que, no entender da mãe, a “corrigirão” em direção a um comportamento heterossexual.

Alike poderia passar a vida assim, como Lady Susan, driblando o preconceito, mas ela tem a escrita como projeto de pessoa, e, com isso em mãos, rapidamente tira o foco da vida dupla e parte para as ações de potencialização de si mesma, buscando e enxergando, com rara sensibilidade, pessoas que possam lhe trazer ganhos pessoais, sobretudo intelectuais. Para isso, submete seus trabalhos a pessoas que podem avaliá-la, e não se recusa a identificar, venha de onde vier, quem pode lhe trazer subsídios imaginativos para a expansão do seu talento.

Em particular, é interessante reparar no contraste entre Alike e sua mãe, que cultivam duas visões diferentes de felicidade: a mãe de Alike obviamente deseja ser uma das personagens de Eternité, e meio que mostra o que acontece quando as crenças que sustentam o estilo de vida retratado naquele filme não se acompanham dos privilégios sociais das mulheres que vivem com grande conforto sem trabalhar: frustração profunda, insatisfação. Embora imensamente infeliz, a mãe de Alike não consegue desgarrar-se das distorções éticas que ancoram o seu pensamento, mesmo que isso implique o rompimento com as pessoas que deseja ter ao lado, não apenas por convenção social, mas também por sentimento. Alike, desde o início do filme, se encontra em lugares de verdade e de desejo bastante diferentes dos da mãe, e isso não se limita à discussão em torno da sua sexualidade. É evidente que as possibilidades de encontro entre elas são mínimas.

As escolhas que Alike faz ao final do filme se encaminham para que um dia ela possa falar por si mesma, sem delegar para que outros falem por ela. Suas ações seguem sua bússola interior, seu coração; a desilusão amorosa que sofre funciona mais como um nutriente para fazer as escolhas certas, e sua orientação sexual, no fim das contas, acaba sendo uma das características que a constituem: pessoa ainda jovem, mas plena no seu desejo e na sua singularidade.

Não se fixar nas categorias de raça, classe e gênero para descrever a dimensão existencial de Alike é para mim a maior virtude de Pariah, que o insere na posição dos grandes filmes deste século e o situa nas fronteiras da discussão em filosofia que trata justamente das rupturas necessárias à construção e plenificação da nossa potência e nossa singularidade. Tornar-se potente é, a meu ver, é a suprema subversão desses tempos de neoliberalismo acachapante, que força para todo modo uma subjetividade produtiva, encaixada nos modelos hegemônicos, opressivos, injustos e insustentáveis de geração de capital e consumo de bens.

A existência de filmes como Pariah, e, analogamente, Moonlight, que se recusa a aquiescer aos modelos históricos da subjetividade masculina, é para mim sinal de muitas coisas boas acontecendo no Cinema e no mundo. O Cinema tem sido permeado pelos movimentos da construção do conhecimento que estendem os limites de como enxergamos a nós mesmos, para além das imposições sociais. Pariah e Moonlight reconhecem que somos heterogêneos, únicos, portanto não definíveis por categorias dadas a priori, mesmo que sejam mais de uma.

Por isso, são muito mais do que filmes de pessoas negras e gays: são filmes sobre pessoas na direção do seu desejo, por meio do agenciamento e do auto-conhecimento. Neles há pessoas que procuram lugares sinceros de existência, onde possam viver sua sexualidade sem repressão nem violência, mas que ao fim descobrem que podem transcender os modelos sociais e tornarem-se, elas mesmas, um lugar para si mesmas.

Obras artísticas do porte de Pariah e Moonlight mostram a rápida evolução da discussão contemporânea sobre as pessoas, que começou denunciando a invisibilidade e a violência que mulheres, não-brancos e gays sofrem, e com isso agora pode narrar as práticas pessoais e sociais de quem busca a sua singularidade. Evidentemente, ainda é necessário realizar filmes como Eternité, porque eles, em comparação com muitos outros, são materialidades importantes para enxergarmos de forma multifacetada o feminino como subjetividade histórica. O que não pode, e espero que ninguém tenha feito isso, é reconhecer essa ou qualquer outra subjetividade como verdade absoluta.

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