Paterson

Paterson

Matheus Fiore - 12 de abril de 2017

Paterson é um filme melancólico. Mas, ao contrário do que a afirmação possa sugerir, a tristeza de seus personagens e suas histórias não estão lá para levar o público às lágrimas. Inclusive, dificilmente quem assistir ao longa se verá emocionalmente abalado durante a projeção. A nova obra de Jim Jarmusch trata da soturnidade rotineira, de como a melancolia já está impregnada no âmago dos cidadãos da cidade que leva o nome do filme e os persegue em cada esquina e se faz presente em cada momento.

No centro da deprimida narrativa temos Paterson (sim, o protagonista leva o nome da cidade e do filme), um motorista de ônibus que, nas horas vagas, escreve poesia. Mesmo sugerindo a existência da melancolia em todos os seus personagens, Jarmusch faz questão de utilizar o personagem de Adam Driver como pilar da obra. Em muitos momentos o público só toma ciência de fatos e acontecimentos quando estes são vistos sob o ponto de vista de Paterson. Para construir tal ideia, a direção sempre direciona os olhares do motorista para onde o próximo plano retratará algum acontecimento, colocando o espectador na mesma posição “voyeurista” do poeta. O curioso é que tal escolha abre possibilidade para duvidarmos do que é projetado na tela, podendo interpretar que, em alguns momentos, estamos vendo delírios do personagem, e não acontecimentos reais, algo que comentarei mais no fim do texto.

Dando personalidade à cidade Paterson e seus cenários, a fotografia e a direção de arte trabalham em parceria criando um clima sombrio, com cores escuras e planos sempre cobertos por um sutil véu azulado. O tom anil também está presente tanto nas vestimentas (o uniforme do protagonista é azul, assim como algumas paredes de sua casa), quanto no bar em que frequente (através de letreiros em neon), e até nos assentos do ônibus que dirige. Quando não trabalhada nas cores, a melancolia está presente em pequenos detalhes dos cenários do filme. É sintomático, por exemplo, que os dois quadros com imagens do cão do protagonista trazem retratos com feições tristes do animal.

O texto (também de Jarmusch) aproveita bem a divisão dos capítulos em dias (o filme é dividido em sete, cada um representando um dia da semana), criando uma sensação de rotina que fortalece a ideia de retratar a monotonia da vida dos personagens. Tal tristeza, aliás, pode ser percebida em todos os personagens. A namorada do protagonista e seu colega de bar, por exemplo, inicialmente parecem ser alguns dos poucos “felizes” da região, mas aos poucos demonstram sua fragilidade. O barman por seus problemas financeiros, enquanto a companheira de Paterson por seu excesso de vontade de alcançar fama e sucesso, claro sinal de um vazio interior que a jovem tenta preencher.

O escape do jovem Paterson acaba sendo a poesia, que é quase um elemento extra-diegético no filme quando Jarmusch projeta as frases do poeta na tela. Tais momentos que trazem a tentativa do motorista de fugir de sua realidade pela arte são os grandes momentos do filme. Em uma das mais tristes cenas do filme, por exemplo, vemos Paterson observando as ruas da cidade enquanto compõe, em sua mente, versos sobre pessoas e acontecimentos que não existem, numa frágil tentativa de encontrar vida num ambiente soturno e desprovido de alegria. Já próximo ao fim do filme, há ainda um belo momento em que pela mudança de foco da câmera, percebemos que, ao pegar em sua caneta e preparar-se para escrever, o personagem se destaca do cenário antes de contemplar a paisagem, mostrando como sua relação com seus poemas funciona para salva-lo de sua rotina.

Mesmo que pouco exploradas, há sutilezas no filme que são dignas de elogio, como a abordagem de Jarmusch para o conceito de eterno retorno de Niezstche. Somos introduzidos à quatro pares de gêmeos durante a projeção. Desde irmãos jogando sinuca no bar favorito do protagonista à crianças passeando em família e idosas. Cada par surge em determinado momento da obra, mas sempre em contextos similares, trazendo pequenas interações com o protagonista. Pelo fato do filme ser quase um ode à monotonia da rotina, tal elemento, que é repetido à exaustão, pode ser interpretado até como a inevitável repetição de acontecimentos na vida humana.

Curiosamente, todos esses gêmeos só surgem em Paterson a partir do momento em que Laura, a namorada do protagonista, conta sobre um sonho que teve em que ela e o poeta tinham… um par de gêmeos. Fica claro, a partir de então, como o imaginário do personagem influencia em sua percepção da realidade. Sejam os gêmeos fruto de sua imaginação (o que é improvável, mas possível dentro do que é apresentado em tela) ou apenas uma mudança em sua visão da realidade a partir de uma ideia externa (a fala de sua namorada), o fato é que, para o personagem de Adam Driver e para seus poemas, aquilo é real. E tal relação sintetiza muito bem a ideia de Jarmusch em seu filme: real ou imaginário, o fato é que através da arte Paterson é capaz de desligar-se do triste mundo em que vive e, por curtos momentos, ver beleza no que está diante de seus olhos.

 

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