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O Deus da Carnificina

O Deus da Carnificina

Nathan Amaral - 2 de junho de 2016

“Penelope, I believe in the god of carnage.”

O cinema é a supernova de suas artes irmãs. Não é de se estranhar que quase todos os gêneros possíveis tenham sido inventados, todas as bizarrices performáticas e dialógicas tenham sido experimentadas e, a fundo, que algum de seus frutos nos tenha seduzido por completo, ao ponto de total atenção e sincroniza sentimental.

É por via do cinema, e do teatro, em uma instância mais pessoal, que encontrou-se uma forma incrível de destilar os anseios da teorização intelectual. Alguns resultados, como o famigerado A Árvore da Vida, de Terrence Malick, parecem simplesmente tentar demais. Outros, como Deus da Carnificina, de Roman Polanski, parecem simplesmente tentar de menos

Baseado na peça de 2006 Le Dieu du Carnage, de Yasmina Reza (cujo nome, curiosamente, mais se aproxima da tradução tupiniquim do que o título do filme) temos Deus da Carnificina (Carnage, 2011)Um dos raros momentos do cinema onde nossa ansiedade faz-se necessária para um banquete intelectual, como a fome se faz para um bom prato. Um filme que explora as dinâmicas da convivência humana e de seu subconsciente intelectual/acadêmico, quase de modo à zombar dos altos e baixos que constroem um corriqueiro tedioso. Toda esta narrativa perpassa um mesmo ambiente, o apartamento de Penelope e Micheal Longstreet, os pais de Ethan: um menino de onze anos que foi acertado na boca por uma vara, após uma briga no parque, pelo coleguinha Zachary Cowen.

O desenlace inicial se dá em uma tentativa de reconciliação pacífica e civilizada entre os Longstreet e a família Cowen (Alan e Nancy, interpretados por Christoph Waltz e Kate Winslet). O que fica claro, em um primeiro momento, é a sobreposição de paradigmas (que podemos definir, de modo reducionista, como modelos intelectuais) que se coloca entre os casais: os Longstreet soam, por princípio, extremamente moralistas e idealistas enquanto os Cowen encarnam o pragmatismo e o realismo. Esta sobreposição, diante da necessidade de se resolver o problema meu filho bateu no seu com uma vara e quebrou dois de seus dentes constrói uma primeira narrativa esplendida de constrangimento que relembra as proposições iniciais de todos os debates e negociações.

Máscaras, bons costumes, frases polidas, paradas para respirar e não cair no erro da falta de educação – os primeiros minutos podem fazer o telespectador mais assimilativo se esconder de vergonha – mas sem ousar retirar os olhos e ouvidos da película para acompanhar o desenlace dos diálogos. A vida é um conjunto de tédios educados, escreveu Reza, e explorar como tecer os limites da educação e do diálogo são as crenças do filme pelos olhos de Polanski – como se comporta a civilização quando empurrada contra uma parede de travesseiros? É a resposta explosiva da segunda parte dos curtos setenta minutos de filme.

Quando tudo parece se desenrolar em um conjunto niilista de frases polidas, eis que surge o elemento surpresa retratado com maestria pela sutileza da fotografia e do talento de Carnage: a essência humana. Contrariados, os Longstreet e os Cowen iniciam um degelo constante e deixam escapar ofensas, respostas pontuais, questionamentos da hipocrisia de outrem e, principalmente, suas próprias manias. O filme convida o telespectador para sua intimidade e parece renascer para mostrar as entranhas de suas frases e cacuetes.

Alan Cowen é o protagonista desta segunda empreitada, respondendo incansavelmente a cruz moralista de Penepole Longstreet, mãe de Ethan. O embate de ideias, as sobreposições nos olhares diretos e a rechaçada da hipocrisia de mais um diálogo entre pais que querem dar um exemplo diferente dos filhos, mas claramente não o conseguem, afinal, são os filhos, são seus exemplos, são seu norte. Todos estes elementos subjugam a Nancy, que arromba as últimas portas que seguravam qualquer princípio. Adoece, pela doença de se afastar da infantilidade necessária para se resolver um problema de crianças. Adoece e grita sua doença para todos os outros interlocutores gritarem as suas próprias e entrarem de vez no olho do furacão que iniciaram.

E é isso que fazem. Param de citar os problemas que os levaram até ali e passam a questionar a essência do outro. Idealismo e realismo em seu constante embate primordial, não perdoam qualquer vacilo, não fogem de seus esteriótipos e não buscam uma saída simples. A intelectualidade fatalista leva aos moralistas tentarem burocratizar o mundo, a intelectualidade supremacista leva aos pragmáticos tentarem diminuir o mundo por sua natureza visceral. O que nos resta é assistir à um toma-lá-da-cá que poderia muito bem ter sido assistido pelos maiores intelectuais de suas épocas, reduzido a uma Nova Iorque no meio da tarde e quatro assalariados à gritos.

É um daqueles raros momentos onde a arte imita a vida para denunciar que a vida se imita, se diz artista, quando é criança.


Deus da Carnificina (Carnage) está disponível lá na Netflix.

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