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Per-sona, a máscara de um filme ou como contar uma mentira no Cinema

Per-sona, a máscara de um filme ou como contar uma mentira no Cinema

Tudo é um filme

Philippe Leão - 21 de fevereiro de 2024

Narrativa, uma mentira. Partindo dessa premissa, a qual desenvolverei, como contar uma mentira no Cinema? O Cinema nasce com a potencialidade evoluída de seus modelos precedentes. O movimento característico do cinema dava a este um novo alento no que tange a vontade de representar o real. Contudo, essa vontade jamais cessou e a mentira sempre esteve presente. Acontece que, tudo que emerge em imagens em um filme é fruto de uma manipulação do tempo do acontecimento, trazido para o tempo da projeção.

Temos então uma escolha, o tempo do acontecimento jamais chegará ao espectador tal como ele é, ainda que porventura você – leitor – estivesse no local onde o evento que irá ser contado tivera acontecido. Aquele que conta, o narrador (cineasta/autor) tem consigo o arbítrio de manipular o tempo – e o espaço – do acontecimento do evento em questão, através dos meios que o cinema o permite. Na pintura o narrador/pintor posiciona seu quadro no cavalete e enquadra uma paisagem à sua frente ou imaginada, seguindo os meios que a pintura lhe permite, para chegar a um fim representativo de sua capacidade de sugestão. Na fotografia, o mesmo, o fotógrafo aponta sua câmera para um espaço e transporta o tempo do acontecimento para aquele que irá contemplar, o que foi enquadrado é também uma escolha. Jamais entramos em contato, portanto, com o real.

O cinema não foi inventado, disse André Bazin, afinal, não cumpriu com seu desígnio (representar a realidade tal como ela é). Ainda assim o Cinema tem algo diferente: o movimento e a capacidade projetiva de articular sua mise en scene. No Cinema não mais temos a sensação de um tempo do passado sendo apresentado no hoje (como na fotografia, que projeta uma memória de imediato), mas o aqui e agora a nossa frente. O cineasta pode caminhar pelos cenários, suprimir tempos, em suma, ter um controle de mise en scene que independe da posição a qual o espectador esteja sentado na sala de cinema ou no sofá de sua casa. O ângulo, os cortes, todos os meios serão aparentemente os mesmos, sempre – diferente do teatro, onde a posição do espectador altera a percepção da mise en scene.

O diretor/autor/narrador tem consigo a sugestão, mas sobretudo a projetividade de um real imediato que, no Cinema, tem a capacidade de melhor esconder a mentira intrínseca de uma narrativa. Afinal, tudo está acontecendo, em movimento, na nossa frente.

O que são os meios, porém, se não máscaras? Máscaras que escondem o real que reveste com a intenção de apresentá-lo sob uma estética única, individual. Máscaras são a mentira do cinema, uma mentira que revela uma nova verdade, uma verdade poética. Se narrativas são uma mentira por não trazerem para nós o real, o tempo do acontecimento em si, por não cumprirem o desígnio do cinema ou qualquer coisa que seja, são a maior das verdades que pode se reproduzir da natureza através da beleza do olhar do artista.

Persona, palavra italiana que significa máscara. Per-sona, por onde sai a voz. A máscara do teatro é aquela em que, através de um vão na boca permite ao artista que a veste falar aquilo que não falaria desnudo. Permite ao artista o surgimento do personagem que, também uma mentira, é acima de tudo uma verdade. A máscara que o artista veste é o EU que emerge, parte de si. Vista-se de máscaras e permita surgir um novo Eu.

Persona, esse também é o nome de um dos maiores filmes da gloriosa carreira de Ingmar Bergman, e não é estranho que seja.

O filme contará a história de Elizabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que durante a encenação da peça Electra, subitamente deixa de falar. A atriz então fica sob os cuidados da enfermeira Alma em uma ilha isolada para seguir seu tratamento, para que pudesse enfim voltar a falar.

Vogler é a máscara profissional, aquela que se reveste destas com o fim de produzir arte, dar vida a novos Eus. No momento em que Vogler deixa de falar, não mais o som será emitido através de sua Per-sona. Há uma retração ou um novo personagem? Ou o som de Per-sona não é a literalidade do som, mas a metáfora de algo que grita, ainda que sem voz? Vogler estaria em seu mais novo personagem, aquele que, porém, não consegue deixar.

Para sair, Vogler precisa de Alma (Bibi Andersson), a enfermeira, ou sua máscara. Contudo, em um primeiro momento há uma evidencia oposta, Vogler em seu silêncio permitirá a voz de Alma. Onde uma é ouvido, a outra fala e deixa emergir seus mais terríveis traumas estruturados em seis grandes monólogos por Ingmar Bergman. A cada momento em que temos o avanço para um novo monólogo, mais profundamente conhecemos o espírito, o que há por detrás das vestes de enfermeira, que fora retraído justamente pelas máscaras sociais que antes à revestia, estando a decupagem de Bergman cada vez mais reconhecendo esse aprofundamento. Até que chegamos a derradeira cena em que o diretor realiza um recuo breve no tempo narrativo para reprisar um dos monólogos de Alma. Em um primeiro momento a câmera aponta para Vogler e, à medida que a carga dramática é despejada pelas palavras proferidas, Liv Ullmann intensifica o tempo do instante com uma atuação cheia de respiro e transições sutis, porém profundamente antagônicas. Em um segundo momento temos Alma, proferindo exatamente as mesmas palavras, palavras de um eu já não retraído, que une ao final as duas em uma única. Ambas são máscara. Mas máscara não é falseamento da realidade é, mais uma vez, permissão. Janelas abertas para uma nova voz.

Não é do meu desejo, porém, me alongar nas características temáticas do filme, tampouco em como Bergman apresenta tais elementos, mas reconhecer como o diretor nos ensina um pouco sobre Cinema a medida que penetra nas per-sonas (máscaras). Bergman dá luz às máscaras de um filme, não somente às máscaras de suas personagens.

Tudo é um filme. Assim desde o primeiro plano o diretor faz questão de nos avisar. O rolo de filme é queimado e então se inicia o tempo do narrador. Uma história precisa ser contada e, para isso, o tempo do acontecimento é trazido por aquele que deseja contar. Não mais temos (e jamais tivemos) o tempo real do ocorrido, ainda que o contado nos pareça suficientemente verdadeiro (ou verossímil) em razão da autoridade dada pela fotografia e projetividade garantida pela movimentação cinematográfica. Somos jogados em um espaço e um tempo como se fossem estes presentes para nós. Subitamente, porém, Bergman nos lembra novamente que tudo é um filme, uma máscara, uma mentira. Uma mentira que, porém, somente revela uma nova verdade tal qual as máscaras que revestem as personagens em cena, que revelam o Cinema. Bergman não esconde o Cinema em seu filme, que se encerra com uma câmera – a qual podemos enxergar – se aproximando do rosto de Vogler. Verdade!

Tudo é máscara em um filme e, ao contrário do que a tradição narrativa ocidental nos diz – basta conhecer contos como os da Bela e a Fera, onde o amor guia a fera a conhecer o seu verdadeiro Eu e sua asquerosidade inicial apenas uma máscara que escondia a verdade – a máscara não é uma mentira ou, é uma mentira que revela uma nova verdade.

Ao realizarmos um filme, escolhemos o que mostrar e deixamos de fora infinitas possibilidades de apresentações daquele universo contado. Ao realizarmos um filme, suprimimos tempos e espaços desinteressantes ao nosso estilo narrativo através da montagem. Ao realizarmos um filme, mentimos. Mentimos para dar luz à profundidade e dela fazer crescer poeticamente uma nova verdade.

O Cinema, tal como Bergman nos permite pensar em Persona, é a arte que melhor sabe contar mentiras. O motivo? Christian Metz nos diz algo:

“Já que a fotografia fixa é de certa forma vestígio de um espetáculo passado, como diria André Bazin, poderíamos imaginar que a fotografia animada (quer dizer: cinema) fosse percebida de modo análogo, como vestígio de um movimento passado. Fato esse que na verdade não ocorre, pois o espectador percebe sempre o movimento como atual (inclusive se reproduzir um movimento passado)”

– Christian Metz. A Significação no Cinema, pag. 21.

Quer dizer que, ainda que o cinema reproduza uma narrativa, um modo de contar – suprimindo tempos e espaços, dramatizando, etc –, estará sempre surgindo fenomenologicamente como um evento presente, tangível, ainda que tenha sido filmado no passado. A fotografia não tem essa capacidade, a medida que projeta uma imagem estática, um retrato de um evento passado. O teatro não tem a mesma potência, a medida que sua mise em scene é limitada ao palco. O Cinema mente, assim como os outros modelos, mas mente suficientemente bem ao ponto de ser um código do presente.

Início, meio e fim. Bergman nos lembra que tudo é um filme. Não para dizer que tudo é falso, mas que tudo é uma escolha, uma máscara. A máscara nada mais é que sua encenação, a maneira pela qual todos os elementos se reúnem em torno de uma ideia geral e que dão vida, presença à verdade reveladora do próprio autor.

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