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Poesia (2010)

Poesia (2010)

Lee Chang-Dong discute os valores da sociedade coreana e mostra que sempre é tempo de aprender e se libertar.

Ana Flavia Gerhardt - 15 de novembro de 2018

Há alguns dias, recebi de uma amiga uma charge em que há dois rapazes conversando, e um pergunta ao outro: “E agora, o que faremos?”, e o outro responde: “Poesia, esses canalhas não suportam poesia”. A poesia de que falam é o elemento condutor que torna absolutamente necessário um filme como Poesia, dirigido e também roteirizado por Lee Chang-Dong em 2010. Poesia é um filme para os tempos em que os corações endurecem, e o ódio cego, materializado na ganância, no machismo, no racismo e na homofobia, norteia a tirania e a opressão.

Cineasta bissexto, Lee Chang-Dong causou impacto na mais recente Mostra de Cinema de São Paulo com seu filme Em Chamas, mas seu imenso talento é reconhecido em filmes anteriores, sendo Poesia a sua realização mais próxima. Esses dois filmes mais alguns outros incluem Chang-Dong na categoria dos cineastas coreanos brilhantes que estamos acostumados a admirar. Para quem se prepara para assistir a Em Chamas, Poesia é um exemplar perfeito para começar a conhecer o trabalho do diretor, porque este filme aborda a relação entre seus personagens e a escrita com um sentido bastante semelhante ao que vemos em Em Chamas, e, da mesma forma, essa relação é extremamente profunda e impactante.

Mija Yang, mulher de meia idade interpretada com convicção e sentimento por Yun Jeong-hie, cria sozinha o neto, chamado Wook, numa cidade do interior da Coreia do Sul. Sem grandes recursos financeiros, Mija trabalha como cuidadora de um idoso inválido para complementar a pensão. Os pais divorciados do neto não contribuem para suas despesas, então Mija tem que arcar com todas as contas com relativo sacrifício e algumas renúncias. Aparentemente, ela conduz sua vida de maneira conformada, acreditando que as coisas não têm como ser de outra forma.

Essa vida vai seguindo sem alterações até que ela recebe o diagnóstico do Mal de Alzheimer em fase inicial, o qual, coerente com o papel no mundo que acredita ter, silencia e esconde da filha. Esse diagnóstico desencadeia uma série de transformações internas e modifica a percepção que Mija tem de si mesmas e das pessoas à sua volta, e isso não se limita ao curso de poesia que decide realizar. O que Mija não sabia era que estava iniciando algo realmente insuportável.

Uma das mudanças de Mija diz respeito ao neto, adolescente mimado, desrespeitoso, irresponsável e preguiçoso. De princípio, somos levados a pensar que personalidade docilizada de Mija a impede de agir com energia diante do mau comportamento do garoto. Aos poucos, porém, vamos percebendo que o não posicionamento de Mija diz respeito a um silenciamento bem maior, que permeou sua vida: um silenciamento de si mesma e de suas convicções, que a impediram de encontrar uma forma de dizer as coisas que fosse completamente sua.

Ao longo da vida, Mija encobriu seus pensamentos, sentimentos e linguagem com décadas de repressão, já que cresceu imersa numa cultura machista, em que as mulheres vão aprendendo a ser serviçais. Tanto é que, em variadas situações do filme, Mija precisa atender e servir a homens de três diferentes gerações: seu neto, os pais dos colegas do seu filho e o velho paralisado, e nenhum deles lhe dá absolutamente nada em troca.

Sabemos que é possível a uma mulher passar toda a vida nessa condição de silenciamento acreditando que é assim que se vive uma vida normal, que é assim que uma mulher precisa ser. Não é à toa, por exemplo, que Mija faz um comentário sobre uma notícia no caixa do mercado e  ninguém presta atenção nela: as sociedades são tão machistas que toda mulher passa pela condição cotidiana de não ser ouvida, e esse é o grau mínimo de todas as violências que caracterizam nosso gênero.

Por esse motivo, aprender a dizer o que se deseja, de qualquer forma que isso seja possível – pela linguagem, pela música, pelas imagens, pelo corpo, pelas mãos -, é ação que toma tempo e esforço, porque são poucas aquelas mulheres que aprendem a dizer o que sentem pela via amiga de outras irmãs dispostas a lhe ensinar. Antes disso, porém, é preciso reconhecer que se tem algo a dizer. E essa é a parte mais difícil.

Mas Mija é praticamente obrigada a sair do seu lugar de torpor porque, além do diagnóstico trágico, um acontecimento também trágico atinge seu cotidiano e a arranca de sua alienação: ela descobre que seu neto, junto com outros colegas, cometeu uma ação repugnante, e agora ela precisa assumir as responsabilidades disso no lugar dele, indenizando, junto com os outros pais, que a subestimam e dela escarnecem, a pessoa atingida.

Mesmo incapaz de dirigir ao neto uma palavra acerca do que ele fez, nem por isso o horror de Mija ao presenciar seu comportamento inconsequente, quase psicopata, é menor. Por isso, o fato de ter passado a vida sem ter aprendido a dizer o que se passa dentro de si passa a ser, em vez de uma carapaça para seguir a vida sem conflitos, um peso que se torna cada vez mais angustiante, a ponto de se tornar desesperador.

No curso de poesia, o professor ensina que o poeta é aquela pessoa que aprendeu a olhar. Equivocadamente, Mija de início compreende que esse olhar se dirige às coisas do mundo externas a seu espírito, portanto ela precisa internalizá-las em sua mente para que daí a poesia surja. Em busca de inspiração, Mija sai pela natureza observando os pássaros e árvores. Vai a grupos de poesia para ouvir os colegas enumerarem metáforas, acreditando que eles é que sabem fazer poesia, e ali estará sua inspiração. Esse trôpego andar acontece simultaneamente às situações relacionadas ao crime dos garotos e todos os outros crimes que vão sendo cometidos em função dele.

Mas Mija, mesmo enojada a ponto de sequer conseguir estar na presença dos pais dos colegas do neto, não consegue realizar as conexões que lhe trarão as respostas que busca nos lugares errados. Oprimida em meio a homens que a desprezam e lhe dizem o que fazer, Mija parece condenada ao mutismo e à servidão que marca a vida da grande maioria das mulheres em todas as sociedades, em todos os tempos. A perda da memória é apenas um detalhe a mais em tantas perdas, perdas de potências que ela sequer chegou a saber que existiam.

O ponto de inflexão que finalmente leva Mija a conectar-se consigo mesma e a descobrir onde de fato está a poesia acontece quando, obrigada pelos pais dos colegas a falar com a mãe da vítima dos adolescentes, ela conhece outra mulher como ela – mais uma mulher destituída do seu direito de desejar uma vida que seja diferente da que lhe impuseram historicamente. Sem perceber, ao iniciar com ela a conversa que muda seu destino, Mija descreve a si mesma e às outras mulheres como elas como a fruta que, enquanto na árvore, não tem bom sabor, e que só quando cai ao chão e se transforma em adubo para servir as outras formas de vida ainda a vingar é que encontra o seu sentido.

Assim, oprimida por todos os lados por homens de variadas idades, todos eles exímios articuladores do modo masculino de conduzir o mundo, que os isenta de toda a responsabilidade por seus crimes, Mija encontra, no diálogo com outra mulher, sua irmã em subjetividade, a resposta de que a poesia está dentro de si mesma. Interessantemente, o encontro com essa resposta não faz com que Mija recuse as tarefas que lhe foram impostas. Mas, agora, essas tarefas são cumpridas com outro objetivo, diferente daquele que os homens lhe determinaram.

Isso se torna possível porque agora Mija se descobre capaz de definir para si mesma as finalidades e as ações de sua vida, apropriando-se de um lugar que sempre lhe pertenceu, embora tenha passado toda a vida acreditando que não. Infelizmente, porém, o encontro que mudou sua vida não foi tão afetador para a mulher com quem conversou. Essa mulher, ainda, está muito afogada na própria dor para que possa empreender o movimento em busca de si mesma em que Mija se propôs a ingressar.

Em Poesia, assim como em Em Chamas, a necessidade de se conquistar um dizer de si mesmo se confunde com a própria necessidade de viver. Nesses dois trabalhos de Chang-Dong, fica muito patente que, se não há nada a dizer, nem vale a pena viver. A ideia de que o desejo e a potência da linguagem são maiores que a vida faz com que não haja diferença entre estar biologicamente vivo ou morto. Muita gente que já morreu está ai ditando os rumos do mundo, para o bem e para o mal. E muita gente está aí viva sem ocupar qualquer espaço, sem justificar sua existência.

Para Friedrich Nietzsche, filósofo mais vivo do que nunca, a diferença real entre estar vivo ou morto é a que há entre, de um lado, quem faz de sua vida uma obra poética, uma vida imersa numa dimensão estética de existência e liberdade, e, de outro, quem faz da vida uma forma de opressão aos outros, ocasionada pela pura incapacidade de olhar para si mesmo. A meu ver, algumas pessoas, por suas escolhas de vida, têm a chance de, como Mija, um dia descobrir formas de viver sua potência de dizer. Outras…. bem, essas não têm jeito, já são um caso perdido. Diante delas, o jeito é fazer poesia; é uma forma de mantê-las longe de nossos corações, ainda que suas botas de general estejam em cima de nosso pescoço.

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