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Politécnica (2009)

Politécnica (2009)

Ana Flavia Gerhardt - 27 de maio de 2018

Um rapaz entra devagar e silenciosamente em um prédio de uma universidade da província do Québec, no Canadá. Em meio aos jovens reunidos sob o teto aquecido de um grande salão, protegidos da neve pesada que cai do lado de fora, o rapaz retira de um saco plástico uma enorme espingarda. Por dois segundos, as pessoas sequer se dão conta do que ele tem nas mãos. E, durante quase todo o tempo em que ele percorre as dependências do prédio atirando nas mulheres que vê, é mais ou menos assim que elas se comportarão. O contraste entre o desarmamento psicológico dos alunos da universidade e a pesada espingarda que o rapaz empunha, junto com uma quantidade praticamente infinita de balas, estrutura boa parte dos eventos de “Politécnica”, realizado em 2009 pelo hoje consagrado cineasta canadense Denis Villeneuve.

O tempo de exposição desse contraste na tela não se presta somente a criar nos espectadores, e com grande sucesso, o terror de prever o que o rapaz com a espingarda pode fazer, e testemunhar que ele realmente o faz. Presta-se também para deixar em quem assiste a esse filme poderoso a necessidade de refletir em profundidade sobre a doença cujos sintomas aparecem na tela em sua forma mais criminosa: o machismo e a misoginia.

Politécnica Polytechnique Denis Villeneuve

Entre muitas outras reflexões, “Politécnica” traz à mente a ideia de que o terror pode vir de qualquer lugar.

“Politécnica” trata daquilo que foi chamado o Massacre de Montreal, trágico acontecimento ocorrido em 1989, em que Marc Lépine, um dos alunos da Escola Politécnica da Universidade de Montreal, passou vinte minutos dentro das dependências da faculdade mirando e atirando em mulheres, matando 14 delas e ferindo mais dez, além de ferir quatro homens. A sequência de mortes só acabou quando Lépine atirou na própria cabeça. Em cartas que deixou, Lépine afirmou odiar as mulheres em geral, que no seu entendimento haviam usurpado direitos dos homens e usufruíam de privilégios que não mereciam. O atirador detestava em especial as feministas, que para ele eram a causa principal do seu infortúnio.

Para entendermos melhor o que irá acontecer, Villeneuve de imediato nos expõe em primeiro plano, e em cortes bem fechados, os três personagens mais importantes de sua narrativa, todos estudantes de Engenharia: o próprio Lépine, interpretado por Maxim Gaudette com uma expressão sinistra e determinada no rosto durante todo o trágico evento que provocou; Jean-François (nome fictício), encarnado por Sébastien Huberdeau, um dos que buscam inutilmente ajudar os feridos; e, sob a responsabilidade de Karine Vanasse, Valérie (também nome fictício), de certa forma a figura que personifica os medos e ódios de Lépine: uma moça inteligente e pró-ativa, que batalha a vida com afinco numa sociedade que limita os espaços de atuação profissional às mulheres, e busca realizar seu desejo de uma vida toda: formar-se em Engenharia de Aviação.

Politécnica Polytechnique Denis Villeneuve

Sim, é possível que crimes sejam praticados na nossa frente sem que consigamos reconhecer o que está acontecendo.

Além dos planos fechados, o diretor opta pelo preto-e-branco, que não serve apenas para diluir o impacto do sangue que flui fartamente dos mortos e feridos. A falta de cor também ajuda a fazer com que nosso olhar não se desvie do que realmente interessa, algo que se soma às mortes em si: a forma como Lépine age livremente, sem qualquer resistência ou contenção policial, em meio a pessoas que por algum tempo permanecem prostradas diante de seu assassino, como se em suas mentes não houvesse padrões e bases de conhecimento capazes de lhes permitir identificar o que acontece à sua frente. E, de fato, no pacífico Canadá, numa época anterior à epidemia mundial de assassinatos em massa provocados por ódio e preconceito, não havia.

Outro recurso muito bem sucedido é a presença exclusiva de sons diegéticos, que nos colocam quase fisicamente no cenário. Em alguns momentos do filme, o silêncio se impõe absoluto. Sobre isso, é interessante notar como as imagens silenciosas de terror fazem aumentar nossa capacidade de atenção, obrigando a que também permaneçamos em silêncio, o que intensifica o impacto das ações que testemunhamos na tela. Incapazes de fazer qualquer barulho, ficamos paralisados de espanto, horror e revolta diante do que estamos vendo, desejando ardentemente que nenhuma aluna apareça no cenário, que Jean-François possa ajudar os feridos, que o atirador seja contido ou morto, e que mais nenhuma mulher ferida morra.

Politécnica Polytechnique Denis Villeneuve

O horror da situação se impõe por si. Não é necessário qualquer recurso que o intensifique para o espectador. E Dennis Villeneuve sabe disso.

Pelas escolhas artísticas e estéticas que resultaram em “Politécnica”, Villeneuve materializa com precisão duas ideias: a primeira é a de que o ato de Lépine é em si tão absurdo e horrendo que não há a necessidade de nenhum recurso cromático ou sonoro para que os espectadores compreendam o enorme disparate que é a manifestação de ódio a um determinado grupo social causado pela projeção doentia de frustrações pessoais que não se pode, ou não se quer, resolver.

A segunda ideia é a de que o que lhe interessa mesmo é as vítimas de Lépine: o que pensam, desejam e sentem, e isso é tão importante quanto o que acontece com elas. Esse interesse resgata sua humanidade e singularidade, e por isso salienta a imensa injustiça representada por qualquer ameaça gratuita à sua vida. Como representantes das vítimas de Lépine, Jean-François e Valérie são pessoas que têm sonhos, amizades e sentimentos – ou seja, muitas razões para viver. Valérie, a quem Villeneuve dedica mais tempo de projeção, nem de longe traz a ameaça que Lépine enxerga nela e em todas as mulheres. A vida também é difícil para ela, porque o suposto comando do mundo nas mãos das feministas pertence apenas aos delírios de Lépine. Em nenhuma sociedade isso é uma realidade. Aliás, nem é por isso que nós feministas lutamos.

Politécnica Polytechnique Denis Villeneuve

“Politécnica” apresenta alguns dos elementos que compõem a mente de uma pessoa capaz de matar por ódio.

Entretanto, a atitude de responsabilizar os outros – no caso específico do filme, culpar mulheres por uma vida de frustrações sexuais – tem cada vez mais se materializado em ações criminosas perpetradas por homens jovens, quase certamente com alguma patologia de personalidade. Por exemplo, o chamado INCEL – em português, celibato involuntário -, formado por homens jovens frustrados e impotentes, está envolvido em atentados a bala nos Estados Unidos, onde em 2014 um atirador de 22 anos matou seis pessoas e feriu mais 14, alegando que queria matar mulheres porque elas não se sentiam atraídas por ele. Também está presente no Canadá de Villeneuve, onde, em abril de 2018, um atirador de 25 anos atropelou várias pessoas com uma van, matando dez delas.

Atentados como esses são o cúmulo e o extremo mortal do machismo e da misoginia, preconceitos que ainda persistem fortes mesmo com, ou por causa de, os movimentos organizados por mulheres que lutam por leis e mudanças sociais que as protejam e clamam por igualdade e respeito. Considero, e não estou sozinha nisso, que a diferença entre os assassinos de mulheres e os demais machistas e misóginos de vários tipos – homens que não reconhecem o valor profissional das mulheres; homens que julgam que elas são seres inferiores e meros objetos sexuais; homens que assediam e desrespeitam mulheres em todos os lugares sociais; homens que agridem e estupram mulheres e crianças -, é meramente uma questão de grau.

Filmes excelentes como “Politécnica”, que escancaram o machismo e a misoginia extrema e provocam um horror que faz pensar, que provoca auto-crítica, têm que existir. É preciso denunciar que ainda há muitos homens que odeiam mulheres em vários graus, sem sequer serem capazes de reconhecer o próprio ódio. Mas, convenhamos, filmes assim só são feitos porque ainda existe uma realidade em que eles se fazem necessários. Porque, numa sociedade sem machismo e sem misoginia, não precisaríamos deles.

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