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Ponto Cego

Ponto Cego

Matheus Fiore - 30 de setembro de 2018

Em abril deste ano, o jornalista e fotógrafo americano Fred Ritchin apresentou uma palestra na conferência Rio2C, evento realizado na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Em sua apresentação, Ritchin falou, entre outras coisas, sobre as obrigações éticas da mídia. Ao relatar um caso de um jovem que cometeu um crime, Fred apresentou duas possibilidades como exemplo de como a mídia constrói narrativas distintas em cima de um mesmo fato: após a morte de um rapaz negro, a imprensa tinha duas opções de fotos para usar na reportagem sobre o falecido, uma com o rapaz fazendo sinais de gangue e com roupas mais simples, e outra imagem do mesmo sujeito em sua formatura do ensino médio. Como fica óbvio, cada foto constrói, na mente do espectador, uma narrativa completamente diferente, fazendo com que vejamos o rapaz como criminoso ou como um cidadão comum, vítima da violência.

“Ponto Cego”, filme de estreia de Carlos López Estrada, diretor americano com ascendência mexicana, trabalha justamente baseado nessas construções. É uma obra sobre identidade, narrativas e sobrevivência. Na trama, Colin (Daveed Diggs) é um rapaz negro que, após cometer um crime e ser preso, está nos momentos finais de sua liberdade condicional. Enquanto trabalha numa empresa de mudanças, Colin precisa aguentar os últimos dias sem se envolver em problemas que possam levá-lo de volta à prisão. O problema é que seu melhor amigo, Miles (Rafael Casal), um rapaz branco que trabalha com ele, está sempre colocando a dupla em situações delicadas.

A relação entre a dupla principal é a força motriz de “Ponto Cego”. Há um claro contraponto entre Colin e Miles. Enquanto o primeiro está sempre tentando evitar qualquer situação perigosa, e demonstra receio até de ir à festas, o segundo é um sujeito que, mesmo que simpático e amigável, exala impulsividade e imprudência. Momentos em que Miles põe Colin em situações de apreensão, portanto, são uma constante que ajuda “Ponto Cego” a desenhar uma análise das diferentes perspectivas para um mesmo caso quando encarado por um rapaz negro e outro branco. Se, para Miles, andar com uma arma é algo comum e descolado, para Colin, o simples fato de estar próximo ao colega armado significa por sua própria liberdade em risco.

Essa relação de perspectivas distintas é trabalhada todo o tempo de diferentes maneiras e tons. O filme tem altas doses de comédia, mas também sabe mergulhar no drama e no suspense e chega até a ser musical, graças às rimas feitas pela dupla protagonista. É interessante observar, porém, que todas as variações de gênero são uma forma de “Ponto Cego” desenvolver um estudo sobre o racismo e seus efeitos. Pela comédia, o roteiro consegue satirizar a apropriação cultural do personagem branco que se sente negro e falar sobre a gentrificação de Oakland; pelo drama, entendemos melhor o passado do protagonista e quais eventos o levaram a ser a pessoa que é; pelo suspense, somos inseridos na pele de Colin para que possamos entender a apreensiva rotina de quem precisa sempre viver atento aos arredores; pela música, entendemos como a arte acaba sendo a única forma que Colin encontra para expurgar seus demônios.

As rimas compostas pelo protagonista são acompanhadas também por rimas visuais. Nesse ponto, há de se elogiar a montagem de Gabriel Fleming, que consegue não só criar um filme dinâmico, mas que também reflete visualmente muito do que os personagens sentem e falam através dos cortes e justaposição de planos.  Mas há também muitas rimas de conteúdo, que são ideias apresentadas e revisitadas de diferentes formas ao longo da projeção.

Em uma das mudanças em que Colin e Miles trabalham, por exemplo, encontram um artista que, em seu ateliê, faz obras que consistem deduas fotografias justapostas, mostrando casas e carvalhos atravessados em um só espaço. Essa ideia é transformada em um exercício de perspectiva para o público, que constantemente notará planos que trazem casas e carvalhos vistos frontalmente pela vizinhança de Colin.

O desafio se estende ao protagonista, que, como dito em certo ponto de “Ponto Cego”, precisa provar a todo momento sua honestidade, já que a sociedade e a mídia constroem a vilania negra e o heroísmo branco a todo momento. Quando um rapaz negro é assassinado a sangue frio por um policial, não surpreende que, no dia seguinte, no noticiário, a imagem usada para retratar o jovem negro seja seu mugshot, enquanto o policial é mostrado em sua farda, ressaltando seu compromisso com a “lei”.

Fica claro, portanto, que a liberdade condicional de Colin não é resultado de crimes e muito menos está limitada ao período estabelecido pela lei. “Ponto Cego” mostra que, para o negro, em uma sociedade que constrói um sistema racista há séculos, a vida inteira é uma condicional. Portanto, é tão previsível quanto desolador ver cenas como um menino de 6 anos levantando os braços e dizendo “não atire”, evidenciando como o negro é doutrinado a agir de forma defensiva e reativa diante do abuso da força policial americana. Convenhamos, não é muito diferente no Brasil.

Isso, obviamente, reflete em toda a forma como Colin percebe o mundo ao seu redor. Não é à toa que seus dias se iniciem com corridas no cemitério: Carlos Estrada pode, assim, mostrar de forma alegórica como a morte sempre cerca a rotina do protagonista. Alegorias e simbolismos, aliás, são um meio comum para que Estrada nos ajude a mergulhar nos sentimentos e climas de “Ponto Cego”. A luz vermelha de um semáforo, por exemplo, é intensificada pela fotografia para projetar a cor no rosto do protagonista quando ele estiver vulnerável.

Transpirando verdade em cada linha de seu roteiro, “Ponto Cego” é um filme narrativamente riquíssimo por conseguir desenvolver sua ideia central de diferentes maneiras. Seja pela música, pelo suspense ou pelo humor, não há sequer um minuto de “Ponto Cego” que não provoque a reflexão de seu espectador. Não poderia ser diferente, já que a obra desafia seu público a questionar nossa percepção de mundo a todo momento. E o grande diferencial de “Ponto Cego”, que faz do filme tão grandioso, é justamente isso: construir uma história que instigue seu espectador a perceber a dualidade dos fatos.

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