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Remédio para Melancolia (2008)

Remédio para Melancolia (2008)

Ana Flavia Gerhardt - 19 de outubro de 2017

Remédio para Melancolia é um filme do diretor estadunidense Barry Jenkins, que se tornou mundialmente conhecido após a explosão de Moonlight no mundo cinematográfico. Merecidamente, Moonlight arrebatou (e isso não é uma hipérbole) o Oscar da Academia este ano, depois de o vermos ser premiado por ator coadjuvante e roteiro adaptado. De fato, Moonlight representa um passo adiante, em termos estéticos e temáticos, à obra-prima Brokeback Mountain, no que diz respeito ao relato do sentimento homoafetivo e da condição emocional e social das pessoas que se reconhecem dentro de uma prática existencial queer. O ganho que Moonlight traz é o de situar essa questão na contemporaneidade, o que significa trazê-la do lugar isolado em que ela sempre esteve e integrá-la organicamente às outras categorias de vida que nos constituem.

O que há de mais interessante nessa ação é que, ao ser posta para o debate, a questão categorial, paradoxalmente, descategoriza a nossa existência, fazendo com que nos demos conta de que, acima de tudo, somos pessoas, por isso bastante complexas, plurais e singulares. Esse caminho do marcado para o não-marcado, entre outras qualidades artísticas inegáveis, é que foi o encanto de Moonlight e criou um “antes e depois”, subindo o grau de exigência para as obras cinematográficas que tematizam os planos sociais de vivência. Bom, pelo menos o meu grau de exigência subiu bastante. Porém, é importante pontuar que o trabalho de Jenkins na construção desses significados absolutamente necessários não se limita à discussão sobre sexualidade.

Provas disso temos tido por exemplo no episódio da série da Netflix Dear White People dirigido por ele, e, bem anteriormente a Moonlight, em Remédio para Melancolia, filme de 2008 que marca a estreia de Jenkins no formato longa-metragem. Antes disso, o diretor já estava mostrando seu potencial em alguns curta-metragens, incluindo neles elementos também encontrados em Remédio para MelancoliaMy Josephine, de 2003, em que já experimenta a dessaturação cromática; Tall enough, de 2009, que aborda relações amorosas inter-raciais; e Remigration, de 2011, que traz as contradições da urbanização massiva nos Estados Unidos. Em todos eles, a recorrente temática racial atravessando as relações mais íntimas entre as pessoas, mas sempre enquadrada no que os tempos atuais têm a dizer sobre elas: “eu vivo no presente”, afirma a novaiorquina apaixonada de Tall enough. Essa frase pode perfeitamente ser dita pelo próprio Jenkins.

Remédio para Melancolia

Em Remédio para Melancolia, os elementos que encontramos sumarizados nos curtas de Jenkins encontram-se desenvolvidos numa plenitude apenas possível aos grande cineastas. Observamos em Remédio para Melancolia, de forma excelentemente delineada e absolutamente cristalina, boa parte das contradições que emergem como efeito dos movimentos sociais e no quanto eles estão afetando as relações entre as pessoas em todos os sentidos – não apenas no profissional e público, mas no emocional, afetivo e sexual.

A pergunta de Jenkins é bastante clara e precisa: como ficamos nós, pessoas, em meio a essa tsunami de transformações sociais, científicas e históricas, muitas delas obtidas à custa de esforço gigantesco de muitas pessoas e de sacrifício de milhões de vidas? Será que essas mudanças são realmente capazes de mudar o mundo? Ou serão tão-somente mais uma camada de percepção ideológica das coisas, que se soma às milhares que já existem, muitas ainda remontando ao Velho Testamento, que ainda sabemos existir? Por que, mesmo com tantas conquistas éticas e sociais, ainda há tanta desigualdade de chances entre as pessoas?

Remédio para Melancolia

Não acredito que haja perguntas mais urgentes do que essas. Numa semana em que, ao mesmo tempo em que são anunciados os Prêmios Nobel para as pessoas que vivem, pensam e trabalham na fronteira do desenvolvimento da humanidade, ficamos sabendo que, no interior do Piauí, um pai entregou seu filho de doze anos de idade para ser seviciado na cela de um estuprador pedófilo. Fatos tão absurdamente contrastantes como esses sempre me fazem pensar no que estamos fazendo de errado, para não conseguirmos que as ações de transformação para um mundo melhor, menos injusto, menos violento, que tanto reivindicamos e trabalhamos para construir, surtam os efeitos que desejamos, porque muitas vezes as mudanças sequer ultrapassam esferas específicas de vida social. Me parece que o que fazemos, no máximo, é apenas oferecer novas formas de pensabilidade que pouco afetam as que já existem, mas evidenciam cada vez mais quão contraditórias elas são. Esse problema não é apenas um gosto esquisito que fica na boca quando assistimos a Remédio para Melancolia. É a questão que permeia todo o filme e justifica sua existência.

O problema fundamental de Jenkins é como lidar com o paradoxo da vida dos afro-americanos que são minoria na cidade de San Francisco – apenas 7 por cento da população de declara pertencente a essa categoria. Esse paradoxo se constitui de duas ideias básicas: como não-brancos, os afrodescendentes são excluídos das ações de desenvolvimento da cidade, as quais, por isso, podem ser vistas como ações segregacionistas, como por exemplo o processo de gentrificação de determinadas áreas da cidade, fato recorrente em praticamente todos os grandes aglomerados populacionais do mundo. Situações como essa reforçam os movimentos sociais em busca de afirmação da condição de afrodescendente para o fortalecimento coletivo diante da dura e secular luta por mais igualdade racial e social (e, por sinal, têm motivado a realização de obras magníficas como o brasileiro Era o hotel Cambridge, de Eliane Caffé).

Não obstante, o resultados dessas lutas já podem ser usufruídos por afrodescendentes que, em seu cotidiano e vida pessoal, não se sentem mais na necessidade de se afirmarem racialmente, o que dá amplo espaço ao desejo e à singularidade: desobrigados de assumir uma prática identitária, sentem-se à vontade para realizarem projetos pessoais, agir com liberdade afetiva e sexual e investirem sem limites em seus lugares profissionais. Essas pessoas não dedicam ao fato de que são afrodescendentes mais tempo do que dedicam às realizações que pretendem, e nenhum dos seus planos de vida passa pelo filtro da raça, que é o que acontecia obrigatoriamente aos que vieram antes deles, que viveram toda sua vida sob essa marca. Para o que desejam para si, não faz diferença serem negros, ou brancos, ou asiáticos.

Remédio para Melancolia

A grande questão, e isso fica bem evidente em Remédio para Melancolia, é que as conquistas não transformaram o racismo anterior: apenas o que se tem é a agregação de uma forma, digamos, não-racial de viver, sobrepondo-se àquela que já existe por séculos e oprime milhões de pessoas. Jenkins inscreve essas duas formas nas vidas de seus dois personagens.

Jo (Tracey Heggins) mora com o namorado numa área nobre de San Francisco e trabalha na produção artística e cultural da cidade. Produz camisetas com mensagens de cultura, como a que usa em boa parte do filme, que traz o nome de uma cineasta. Vive sua sexualidade sem as culpas e tabus das gerações anteriores, e também parece, como a moça de Tall enough, viver o presente, com sentimentos e práticas contemporâneas. Por sua vez, Micah (Wyatt Cenac) constrói aquários e é um rapaz engajado na causa racial afro-americana, lembrando-se do que seus antepassados sofreram, das imposições discursivas relacionadas à raça (em algum momento, ele questiona o porquê de um casal inter-racial nunca ser hispano-asiático) e das dificuldades cotidianas que enfrenta por conta da cor de sua pele.

Remédio para Melancolia

Malgrado o desejo que os aproxima, os diferentes mundos existenciais de Jo e Micah são confrontados por Jenkins em todos os noventa minutos de Remédio para melancolia: realçam-se nos lugares onde moram, nas escolhas afetivas (e suas consequências), nas emoções que experimentam diante da história racial dos afro-americanos e nos diálogos que travam sobre o assunto. De início, esses dados apresentam-se apenas como características de cada um, mas as incompatibilidades se impõem mais e mais, em função dos argumentos de que precisa haver alguma negociação entre duas percepções tão distintas sobre a vida dividida que caracteriza o que é ser negro na contemporaneidade estadunidense, e de que precisa haver reconhecimento mútuo entre estes dois mundos, o das conquistas e o das lutas, para que possa haver reais ganhos sociais e pessoais para todos.

É importante salientar, porém, que em nenhum momento Micah e Jo se prestam a ser metáforas dessas formas de vida: ambos são pessoas completas, com suas dores particulares, suas concepções de mundo, suas formas de julgamento e seu entendimento individual do que estava acontecendo entre eles durante o dia que passaram juntos. Essa escolha de Jenkins foi a mais acertada, porque evita qualquer possibilidade de que se pense Remédio para Melancolia como manifestação de alguma ideologia racial relacionada ao passado da discussão social. O tempo de Jenkins é sempre o presente, e é imensa sua ousadia em capturar um momento em que as temporalidades estão cada vez mais hiperativas, e as inúmeras certezas que insistimos em construir friccionam-se e chocam-se todo o tempo, como vemos acontecer entre Jo e Micah.

Em termos de linguagem de cinema, a questão proposta por Jenkins está solidamente transcrita e permeia também todo o filme, a começar pela fotografia dessaturada, quase em preto-e-branco, salvo alguns detalhes que nos lembram de que se trata de uma escolha do diretor, como por exemplo a cor um pouco menos dessaturada sobre Jo. O quase preto-e-branco de Remédio para a Melancolia me lembrou o pensamento tradicional, conservador, que imagina e produz significados num mundo binário, bipolar, formado por bons e maus, todos muito bem marcados imagética e espacialmente – a visão de mundo que agora, por motivos muito mais complexos do que os que este texto busca abarcar, tem alcançado territórios sociais e políticos cada vez mais amplos.

Remédio para Melancolia

Taxa de saturação abaixo dos 25%, tornando o universo de Remédio para Melancolia, de fato, melancólico

Mergulhados na bipolaridade cromática, Micah e Jo percorrem a cidade de bicicleta, integrados organicamente às perspectivas ecológicas da contemporaneidade. E isso, assim como o interesse sexual mútuo, os aproxima. Mas, como fica evidente nos diálogos em que se engajam, o que poderia no passado tê-los aproximado fortemente não é mais motivo para tanto: sendo ambos afrodescendentes, numa cidade em que eles podem ser contados nos dedos, isso não mais leva naturalmente a que se interessem um pelo outro, a que fiquem juntos. A cor da pele, na contemporaneidade, não é mais garantia de empatia. Para muita gente, é só um detalhe, e longe de ser determinante.

Essa ideia, exposta por Jo, é capaz de causar dor em muita gente que, como Micah, construiu boa parte de sua individualidade sobre a percepção identitária. Obviamente, isso diz respeito não apenas à raça, mas também a todas as condições humanas, como ser mulher, ser gay, ter necessidades físicas especiais etc. Abrir mão disso é extremamente complicado, sobretudo pelo fato de que ainda vivemos num mundo preto-e-branco, em que pessoas são assediadas, violentadas, injustiçadas e mortas justamente por serem o que são.

Mas não podemos negar que existe um clamor legítimo e extremamente consistente por uma vida em que não precisemos dar explicações, nem sofrer, nem ter medo de morrer, em virtude do que somos. Jenkins, em Remédio para Melancolia, não se sente na obrigação de propor qualquer solução para o problema que apresenta, o que é extremamente sábio. Mas isso não o impede de sugerir, para a melancolia causada pelos paradoxos da contemporaneidade, o remédio que cura boa parte das feridas de um coração machucado pelas dores do mundo: o amor, o encontro verdadeiro entre as pessoas.

Mais tarde, Jenkins repetiria a mesma dose em Moonlight, e seus expectadores cada vez mais admirados têm concordado com ele e esperado ansiosos por novas prescrições. Ocupar lugar entre os grandes cineastas do Cinema mundial é consequência de sua coragem, criatividade e originalidade como artista, e é revelador da importância e necessidade de discussão premente das ideias propostas em seus filmes.

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