Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Robocop: o corpo como mercadoria e propriedade

Robocop: o corpo como mercadoria e propriedade

Ana Flavia Gerhardt - 17 de outubro de 2017

O artigo a seguir contém revelações sobre o enredo (spoilers) de Robocop, filme de 1987 dirigido por Paul Verhoeven.

Robocop

ED209

Cena 1: No toalete VIP da grande corporação estadunidense OCP, dois executivos conversam. Um deles, chamado Bob, comenta grosseiramente sobre o fracasso de um dos seus superiores, cujo plano de segurança para a cidade – o robô-policial ED209 – resultou na morte de uma pessoa. Para seu azar, o superior mencionado ouve a conversa e se aproxima para tomar satisfações:

– Eu tinha uma venda militar garantida com o ED 209. Um programa de renovação. Peças sobressalentes por 25 anos. Quem liga se funcionava ou não?

 

Robocop

Alex Murphy

Cena 2: Um grupo de cientistas conversa com Bob diante de Murphy, policial mutilado e morto por criminosos cujo corpo está sendo usado para um projeto de policial-ciborgue a quem deram o nome de Robocop:

– Conseguimos salvar o braço direito.

– O quê?, exclama Bob. Concordamos em prótese corporal total. Agora retire o braço. Ele pode entender o que estou dizendo?

– Não importa; de todo modo, apagaremos sua memória.

– Acho que devemos retirar o braço – diz Bob – O que você acha, Johnson?

– Ele assinou um termo quando entrou para a força; está legalmente morto. Podemos fazer o que quisermos com ele.

– Retire o braço – ordena Bob.

Robocop

Robocop enfrenta ED209

Cena 3: Após conseguir fugir de ED 209, que foi reprogramado para matá-lo, Murphy/Robocop alcança o estacionamento de um edifício e se depara com uma gigantesca força policial com ordens de atirar para matar. Um outro grupo de policiais tenta chamar os colegas à razão:

– Espere um segundo! Ele é um tira, pelo amor de Deus! Não podem fazer isso!

– Temos ordens para destruí-lo! – responde o comandante da força.

– Merda! Seus maníacos! – Protestam os policiais amigos de Murphy.

– Atirem quando quiserem! – ordena o comandante, iniciando a sequência mais trágica do filme Robocop, que nos dilacera o coração e produz tanta desesperança que acabamos por nos perguntar se Paul Verhoeven conseguirá nos oferecer um final de filme que nos dê alguma serenidade de espírito.

 

Para falar dos trinta anos de lançamento de Robocop, de Paul Verhoeven (08 de outubro de 1987), uma das obras cinematográficas mais importantes do século XX, escolhi essas três cenas para tentar de alguma forma explicar por que o filme ainda permanece no imaginário de milhões de pessoas no mundo todo. Sobre essa constatação, muitos já escreveram. Uns afirmam que a sua genialidade está em antecipar fatos que aconteceriam muito tempo depois, como a falência da cidade de Detroit, cenário dos acontecimentos que testemunhamos no filme. Outros salientam o recrudescimento do poder das corporações sobrepondo-se ao do Estado.

Esses argumentos, a meu ver, são todos congruentes. Mas, neste momento, cabe ainda observar uma questão que só agora, na segunda década do século XXI, é que começamos a reconhecer, sobretudo pelo fato de que os estudos feministas, que trazem proposições teoricamente fundadas sobre a ideia do corpo como mercadoria e propriedade, estão ganhando terreno na reflexão conceitual sobre a sociedade. Penso que essa ideia permeia todo o filme de Verhoeven, fazendo de Murphy/Robocop (Peter Weller) num personagem fascinante. Ela diz respeito à mercantilização dos corpos, uma marca do capitalismo em todos os tempos, e transforma a trágica história de Murphy no eixo em torno do qual Verhoeven desenvolve sua crítica à sociedade ocidental.

Robocop

Robocop: crítica à mercantilização do corpo humano no sistema capitalista

Um “Robocop” no museu

Não posso deixar de fazer conexões entre a saga de Murphy e alguns acontecimentos recentes no Brasil. Especificamente, o escândalo causado nos meios conservadores pela presença de um homem nu fazendo uma performance no MAM de São Paulo e sendo tocado nos pés por uma criança acompanhada da mãe. Muitas análises foram feitas sobre esse fato, mas aos poucos comecei a imaginar se o escândalo seria tão grande caso, em vez de um homem, uma mulher estivesse nua no museu.

Essa ideia se fortaleceu a partir da publicação feita por um amigo em rede social: uma foto de Xuxa Meneghel apresentando seminua um programa infantil na década de oitenta. A quem argumente dizendo que naquele tempo os padrões de moralidade eram outros, pergunto como explicar a quantidade de vezes em que o corpo feminino ainda é exposto indiscriminadamente na rua, na TV, na internet, no cinema etc. Por que praticamente ninguém, além de nós, feministas, levanta questionamentos a respeito?

A resposta a essa pergunta já está sendo dada há anos: sendo mercadoria, o corpo feminino, como qualquer corpo subalterno na escala capitalista, pode ser despido não apenas das roupas, mas também da dignidade, já que em princípio não a teria. Um exemplo: em cena do filme Uma mulher fantástica, Marina (Daniela Vega), uma mulher transgênero, e por isso subalternizada, tem de passar pela invasiva e profanadora exposição de sua nudez num exame de corpo de delito. A assistente social que a acompanha, por pura ignorância, acaba por humilhá-la mais ainda, a pretexto de protegê-la.

Analogamente ao que acontece a Marina, o homem nu (e branco) no museu vira objeto de escândalo porque, ao despir-se, ou seja, ao corporificar-se, na frente das pessoas, abdica da sua condição de macho superior na hierarquia capitalista; a reação escandalizada, além de ser manobra midiática de grupos de ultra-direita, evidencia o horror causado quando um homem declina da sua posição de proprietário e opressor e ocupa o lugar de quem é oprimido e propriedade, o que pode abrir espaço para que outros o façam, expondo assim as ranhuras de uma estrutura social patriarcal sustentada por séculos.

O corpo como ferramenta para o lucro alheio

O que ocorre com o corpo feminino na sociedade capitalista contemporânea pode ser identificado em todas as formas marcadas de existência, isto é, todas as formas que não são ao mesmo tempo masculinas, brancas e cisgênero.  No excelente livro O circuito dos afetos: corpos politicos, desamparo e o fim do indivíduo, Vladimir Safatle sustenta que “o neoliberalismo não é apenas um modo de regulação do sistema de trocas econômicas; […] é um regime de gestão social e produção de formas de vida que traz uma corporeidade específica, uma corporeidade neoliberal”. Nesse regime, “nossos corpos perderam a qualidade narrativa, eles são habitados pela violência dos fluxos contínuos codificados pela forma-mercadoria”.

Isso ocorre para que os corpos, e o que se pensa e se diz sobre eles, sejam moldados para atender a uma maior eficiência dos modos de regulação econômica. Reconhecendo a realidade da afirmação de Safatle, que o Cinema evidencia em obras de excelência como Robocop, cabe a nós buscar, e com a máxima urgência, caminhos que, mesmo ainda inseridos no modelo mercantilizador, resgatem a qualidade narrativa de que fala Safatle. Para tanto, não vejo nenhum outro ponto de partida além do de postular que todas as formas de existência baseadas no modelo capitalista ocidental foram instituídas de variadas maneiras para servir à propriedade e ao lucro, e que aquele modelo reconfigura e distorce a ideia de sucesso das políticas públicas em que se envolve.

Um ganha, todos perdem

Recentemente, um amigo que teve seu celular roubado refletiu, em conversa: “além do ladrão, todo mundo ganha com o roubo do meu celular: a fábrica de telefones, porque terei de comprar outro; a operadora de telefonia, porque vou precisar adquirir outra linha; o governo, porque terei de pagar impostos sobre tudo isso. Só eu perco: perco o celular, perco dinheiro”.

Em sua sagacidade, meu amigo descortina com precisão a inversão de lugares que a publicidade capitalista insiste em esconder: existe um determinado grupo, e só ele, que lucra sempre, mesmo que aparentemente perca. Assim, para falar das experiências inscritas no modelo capitalista de mundo, é preciso desconstruir a ideia de sucesso das políticas e demais ações públicas nele implementadas.

É preciso assumir este sucesso como sendo, em realidade, aquele descrito pelo executivo de Robocop no banheiro VIP: não importa que o que foi construído desmorone como areia. Nem que isso mate pessoas, como aconteceu por exemplo com a Ciclovia Tim Maia, no Rio de Janeiro. O que importa é que os donos do poder ganhem muito dinheiro com suas negociatas.

Robocop

Primeiro o dinheiro, depois o dinheiro e, por último, mas não menos importante, o dinheiro

Guardiões do interesse alheio

Incluo entre as experiências moldadas pelo modelo capitalista o devir policial. Sua situação específica nas grandes metrópoles brasileiras tem sido objeto sistemático de estudo nas Ciências Sociais. Não vou entrar em detalhes nesse campo, mas uma pesquisa rápida na internet ou no portal SciELO já fornece o tom de como a profissão tem sido enquadrada no modelo capitalista brasileiro, em sua versão patrimonialista-escravocrata. Os policiais são agentes mantenedores da propriedade dos poderosos, situando-se não obstante no mesmo segmento social precarizado daqueles com quem digladiam no cotidiano violento das metrópoles.

De fato, quando observamos as condições de vida da classe policial na sociedade brasileira, identificamos elementos de opressão e descaso comparáveis aos dos demais grupos subalternizados: salários injustos, condições de trabalho insalubres, nível máximo de tensão, risco crônico de morte. Porém, como sabemos acontecer, uma construção discursiva nefasta e onipresente coloca um grupo social contra o outro, impedindo a todos nós de reconhecermos que estamos no mesmo lado: o lado dos que servem de massa de manobra, cada um com uma função específica, para uma elite proprietária, como é brilhantemente descrito na fala de Marcelo Freixo para o Mídia Ninja.

A dolorosíssima cena em que Murphy/Robocop é atacado por seus próprios colegas demonstra com clareza a ubiquidade desse estado de coisas, tornando possível o grau máximo de desunião, que é quando pessoas dentro de um mesmo grupo se insurgem entre si: mulheres contra mulheres, gays contra gays, não-brancos contra não-brancos. Quanto mais desunidos, melhor para quem está no poder; quanto mais desunidos, menos possibilidades de que cenas como essa, que aconteceu no Paraná, se repitam.

“Final feliz” em Verhoeven: o resgate da humanidade

Robocop é um filme extraordinário porque é a história do resgate de um corpo à condição de narrar-se a si próprio. Sendo policial, Murphy começa o filme tão desprovido de individualidade quanto todos os seus colegas. Observe-se, nesse sentido, que, ao contrário do banheiro VIP dos executivos da OCP, o vestiário da delegacia para onde Murphy é transferido não estabelece distinção nem privacidade entre homens e mulheres. Este cenário se repetirá em Tropas Estelares, quando Verhoeven equipara os soldados aos policiais na condição de massa de manobra.

Sendo mercadoria, Murphy morreu sem que seu corpo pudesse ser reclamado pela família. Suas “partes” são aproveitadas conforme convém aos projetos  da OCP. O que acaba dando errado, e aí reside o que há de extraordinário em Robocop, é que a memória narrativa de Murphy, guardiã da sua humanização, em pouco tempo se impõe. Isso acontece primeiro em ações inconscientes, depois na busca voluntária do personagem por seu passado, incluindo visitar a casa onde morava com a família, para no fim desaguar em sua extremamente significativa fala final.

Robocop

Ao fim de sua jornada, a dualidade Murphy/Robocop é quebrada. O protagonista reencontra e abraça a própria humanidade.

A propósito, a inclusão das cenas de Murphy em seu antigo lar não estavam no projeto inicial de Verhoeven, sendo acrescentadas a pedido da própria família do diretor. O tempo mostrou que elas se tornaram fundamentais para estabelecer a ponte mnemônica da transformação do Murphy-mercadoria ao Murphy-pessoa, que culmina com a magistral escolha de Verhoeven em trazer o personagem, no terço final do filme, sem o capacete que antes ocultava seu rosto. A retirada do objeto que escondia o que sobrou de seu corpo destruído por criminosos de vários tipos desvelou justamente a parte mais fundamental para seu sentido de self. É o momento final da imposição da memória do personagem sobre seu presente, permitindo que, por intermédio do espelho improvisado por sua parceira, ele se veja e se reconheça como pessoa, acima da condição mercantilizada que fez a OCP tornar-se proprietária do seu corpo e transformá-lo em máquina programada.

A capacidade de entender o próprio tempo

O fato de Robocop trazer para debate questões contemporâneas, especificamente o problema da mercantilização dos corpos num regime de mundo baseado na propriedade e no lucro, não é para mim evidência de que Verhoeven pensa à frente do seu tempo. Não acredito que haja um tempo linear, mas sim camadas de temporalidade, como defendo com mais detalhes em outro artigo.

Diferentemente, e de forma não menos genial e historicamente relevante, Robocop faz emergirem significados que já estavam em vigência em sua época. Contudo, não dispúnhamos de linguagem nem de cognição para levantarmos diálogos sistemáticos e esclarecedores sobre eles. Essa característica justifica plenamente o fato de que o filme, após trinta anos do seu lançamento, ainda é matéria não fechada, e, pelo visto, ainda continuará sendo por muito tempo, já que o que ele traz, numa revisão atual, são as mesmas questões que denunciou, ainda presentes no mundo de agora, e nos mesmos termos.

Isso diz muito sobre nossa incapacidade de desmantelar a estrutura de produção de corpos desvitalizados que se insurgem uns contra os outros para que uns poucos amealhem mais dinheiro e poder. Mas, ao tratar com clareza e completude a questão a que se dedica, Robocop mostra que podemos pensar e apontar caminhos para um começo de construção de uma sociedade menos injusta, menos insustentável e menos desigual. Nosso trabalho é fazer com que esses caminhos transpassem a Arte e alcancem o debate público.

Topo ▲