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O Blues irreverente de Rory Gallagher

O Blues irreverente de Rory Gallagher

Matheus Fiore - 28 de março de 2016

A história de Rory Gallagher é curiosa. Ao mesmo tempo que é um dos mais completos e talentosos artistas do século passado, o irlandês, falecido em 1995, é desconhecido do grande público.

E é, de certa forma, compreensível. Na época em que despontou e lançou suas principais obras, a música começava a se tornar cada vez menos artística e mais comercial, e Rory nunca abraçou esta ideia. Pra se ter noção, além de nunca ter lançado um single. Além disso, Gallagher recusou convites para integrar os Rolling Stones e para ser agenciado por Peter Grant (empresário do Led Zeppelin, considerado um dos melhores da história do Rock). Sempre escolhendo a música nua e crua, Rory Gallagher deixou sua marca no blues, e botou a Irlanda no mapa da música mundial.

Não foi só na postura comercial que Rory se destacou dos demais. Seu som sempre foi visto como o mais visceral e honesto possível. Uma vez, foi apontado por Jimi Hendrix como o maior guitarrista do mundo. Da mídia, claro, nunca recebeu o respeito que merecia. No máximo uma 57ª colocação no top 100 da Rolling Stone para maiores guitarristas da história.

Rory sempre surpreendia. Desde seu primeiro projeto, o trio de blues-rock irlandês Taste, ele fazia um som tão ousado e consistente quanto o de bandas canonizadas da época, como o Cream. Mas sua grande fase veio mesmo com o projeto solo e a parceria com o baixista Garry McAvoy. Começando com seu primeiro disco solo, auto-intitulado Rory Gallagher, de 1971. O guitarrista nos presenteou com um bom álbum de estréia cheio de riffs memoráveis e boas variações vocais (ele conseguia cantar desde a balada mais suave para o rock pesado mais grave).

Foi meses depois, em Deuce, que ele começou a mostrar sua variação de repertório. A primeira faixa, I’m Not Awake Yet, é uma das mais celtas e jazzísticas de Gallagher, e traz alguns de seus melhores improvisos. Além de mostrar sua riqueza musical, mostra uma extrema competência em tocar blues no violão acústico com a mesma qualidade da guitarra elétrica, algo que falta em muitos bons guitarristas.

Em 1973 o irlandês lança seu melhor trabalho, Tattoo. Um clássico do blues-rock em que ele ele nos entrega de tudo. Temos jazz em They Don’t Make Them Like You Anymore, o clássico rock bluseiro com Cradle Rock e Tattoo’d Lady, e mais dezenas de referências que vão do elétrico e empolgante chicabo blues ao interiorano, cru e acústico delta blues, com as maravilhosas 20/20 Vision, Who’s That Coming e A Million Miles Away. Esta terceira um exemplo perfeito de música bem estruturada com clímax bem construído. Com sua música, Rory consegue te fazer sentir estar num pub irlandês num dia chuvoso. Cada faixa deste álbum é um capítulo da vida de Rory que ele te convida a vivenciar.

Após gravar o excelente disco ao vivo Irish Tour, Gallagher ainda voltou às raízes de seus primeiros discos solo com Against The Grain, e logo depois fez mais um de seus grandes trabalhos, Calling Card. Aqui, a banda já havia deixado de ser um power-trio para se tornar um quinteto. O resultado é uma liberdade maior para improvisos, pois com um tecladista fixo, a harmonia das músicas estava mais presente, e Gallagher tinha mais espaço para solar. Os grandes destaques do disco são Calling Card, um de seus mais suingados e bem compostos blues, e Moonchild, que traz um riff memorável, e ao vivo proporcionava alguns dos melhores solos do guitarrista.

Se no estúdio Gallagher conseguia ser direto e intenso, ao vivo sua música elevava isto à outro patamar. Além de ser muito técnico, Rory marcou época por ser um dos guitarristas mais sensíveis e apaixonados da música. Seu domínio sobre a escala pentatônica é impressionante, e seu talento para tocar diferentes instrumentos com a mesma pegada é invejável. O irlandês ia do bandolim ao dobro, do saxofone à strato e da balada romântica ao blues rock épico. Tudo isso, unido à seu carisma, presença de palco e voz marcante, tornam Gallagher um dos maiores e mais completos músicos do século XX. No vídeo abaixo, os solos em 2:00 e 3:00 são um perfeito exemplo de seu domínio sobre as seis cordas, sua facilidade de horizontalizar os solos, além de usar a pentablues com extrema criatividade.

Sua personalidade forte e teimosia certamente o impediram de alçar vôos mais altos. Não só por ter perdido a oportunidade de ter tocado em bandas lendárias, mas também por não ter feito parceria com nenhum grande produtor, o que prejudicou a maioria de seus discos, que no geral são mal mixados. Por outro lado, Rory viveu a vida como quis, sempre trabalhando do seu jeito, com alma e criatividade. Faleceu em 1995, vítima de infecção hospitalar, contraída ao fazer um transplante de fígado. Pelo menos Rory não precisou ver a decadência da música, que se tornou o produto que é hoje. Azar o nosso, que perdemos um gênio.

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