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Searching For Sugar Man: E por quê você deveria ouvir Rodriguez

Searching For Sugar Man: E por quê você deveria ouvir Rodriguez

Nathan Amaral - 23 de março de 2016

A era pre-streaming pode ser explicada como comunistarismo: eram necessárias horas de pesquisa para encontrar os links certos com os arquivos certos. Discografias eram recomendadas em blogs de nicho musical – o iTunes era o panteão dos mais abastados e, bem, a “BaíaPirata” já parece tão eterna (característica primordial das coisas institucionalizadas) na história recente da internet, e, curiosamente, na do gosto musical da nossa geração, que merece um post só pra ela.

Era difícil encontrar o artista certo em um enxame. Era mais do que uma questão de underground ou mainstream: a relação peer to peer da época fazia com que, obrigatoriamente, alguém, em algum canto desses oceanos de bits, tivesse a mesma faísca que você – que esse alguém fosse às vias de fato e compartilhasse sua garrafinha digitalizada com o resto.

Horas, semanas, dias, e até anos de busca incansável fizeram com que artistas geniais não pudessem ser ouvidos, quiçá, compartilhados e, fatalmente, voltassem ao conforto do anonimato que brevemente saíam.

Agora imaginemos isso nos anos setenta.

Sugar man, won’t you hurry,
‘Cos I’m tired of these scenes.
For a blue coin, won’t you bring back,
All those colors to my dreams?

Sem internet, sem oceanos de bits, sem conexões inumanas que pudessem malear a realidade para nós: a música era um império que pertencia as rádios, as zines, e aos ensejos das gravadoras. Como nos mostraram os Irmãos Coen em Inside Llewyn Davies (2013): alguns artistas simplesmente pareciam fadados ao estrelato enquanto outros lutavam para ao menos serem ouvidos.

A história dessas estórias encontrou, em um beco cinza de Detroit, numa dessas suas tantas viradas de sensacional ingenuidade (que carinhosamente apelidamos de destino), Sixto Rodriguez. Ou melhor: o desencontrou para re-encontrá-lo do outro lado do mundo, do outro lado das épocas.

“Born in the troubled city
In Rock and Roll, USA
In the shadow of the tallest building
I vowed I would break away
Listened to the Sunday actors
But all they would ever say:That you can’t get away from it
No you can’t get away.”

Rodriguez foi uma espécie de Bob Dylan na-era-Bringing-It-All-Back-Home de Detroit: acústico e elétrico. Com uma voz distinta da época, carga melódica folk e, principalmente, uma realidade política que ao mesmo tempo era individual e universal; íntima e pública. Essa é a substância de seus dois únicos álbuns de estúdio em sua breve relação com a gravadora Sussex: Cold Fact (1970) e Coming From Reality (1971).

Rodriguez, como o leitor já deve adivinhar, não vingou. Seus álbuns venderam de modo pífio e todo seu potencial foi à baixo quando seu contrato foi interrompido, em meio as gravações do que viria a ser seu terceiro álbum. Em 1973 ele estava de volta ao seu trabalho como operador de demolição e escavação na cidade mais cinza do mundo.

Não fosse por uma virada de destino, claramente incomunicável e até mesmo inacreditável, ele provavelmente nem estaria sendo citado nesse post, nem na história da música – ao menos não na nossa.

Cold Fact foi apresentado ao outro lado do oceano meses antes de sua estreia norte-americana: Uma das cópias parou nas mão de Holger Brockman – um DJ da 2SM Radio de Sidney, e desde então nunca deixou de ser tocada. Segundo Brockman todos os seus amigos tinham uma cópia: Cold Fact era tocado ao lado de The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle e Cold Spring Harbor, os primeiros álbuns de Bruce Springsteen e Billy Joel.

Em 1973 seus direitos de gravação foram comprados pela australiana Blue Goose e em 1979 ele pisava em solo australiano para realizar uma turnê com shows para quinze mil pessoas – seu primeiro contato com o impossível.

“He was just stunned by what we put together for him (…) He had never played a concert before, just bars and clubs. (…) The man himself seemed almost embarrassed onstage (…) He spoke no more than a dozen short lines throughout each show. When returning to the stage for an encore at his first Sydney show, he mumbled emotionally to his audience, ‘Eight years later… and this happens. I don’t believe it.'”

– Michael Coppel

 

Na mesma época, em uma região insulada do mundo, marcada por fortes questões políticas e sociais, a música de Rodriguez ganhou um lar bem mais pessoal que o australiano. Foi por meio de um presente de namoro de uma das assistentes da Sussex, no começo do anos setenta, na África do Sul, que a real busca pelo Sugar Man começou.

Sua música incendiou a juventude sul-africana: espalhava-se pelo boca-a-boca, nas festas de amigos e nas rádios locais; suas letras serviram como combustível para o espírito das causas dos anos 60 e 70, principalmente para o fim do Apertheid. Rodriguez foi comparado à Cat Stevens e Bob Dylan, vendeu mais que Elvis e Rod Stewart no país; Cold Fact trouxe Coming From Reality e ambos os discos conseguiram status de sold out nas vendas internacionais da Sussex.

Já em 1975 sua música já fazia parte do embrião revolucionário contra-apartheid da juventude sul africana. Para um sul-africano, John Lennon precisava dar licença à Sixto Rodriguez.

Ao mesmo tempo que sua fama e importância aumentavam, aumentava-se o mito. Rodriguez, injustiçado pelas impraticidades de sua guerra-fria pessoal, estava totalmente fora do mapa. Logo os rumores sobre um possível suicídio começavam a tomar conta de seus fãs: Sixto havia se matado durante um show em meados dos anos 70. Cada jovem que retornava de férias dos Estados Unidos, ou escrevia para seus amigos tentava, em vão, conseguir alguma informação sobre o ídolo anônimo de uma geração inteira. O mito do Sugar Man parecia intocado, fadado a compartilhar os anais da história político-cultural do audiovisual sul africano.

Até 1997.

Com a determinação de desvendar o mito, e uma paixão digna de todo fã, Stephen “Sugar” Segerman (um dos donos da lendário Mabu Vinyl, na Cidade do Cabo) decidiu criar o site ‘The Great Rodriguez Hunt’. No ano seguinte Rodriguez foi achado, vivo, em Detroit, como construtor e ativo representante da vida política da cidade.

O herói anônimo finalmente pôde ser convocado à sua pátria. Rodriguez foi festejado, entrevistado, abraçado e ovacionado como sempre mereceu. Colheu os louros tardios de gaguejar emocionado no palco; colheu as histórias de se manter um espectro revolucionário enquanto era um homem simples. E, claro, tocou para todos aqueles que o queriam ouvir. Por seus amigos, amantes, irmãos e familiares.

Essa história, com todos os merecidos detalhes que se reservam às obras-primas do destino, está presente no site sugarman.org (a união entre ‘The Great Rodriguez Hunt’ e ‘Climb Up On My Music’, de Brian Currin, um site do final da década de noventa criado para homenagear a obra de Sixto). Rodriguez também virou documentário: Searching For Sugar Man, vencedor do Oscar de 2012, e livro, em Sugar Man: The Life, Death and Ressurection Of Sixto Rodriguez (2015).

E Rodriguez hoje? Está bem, está vivo. Planeja lançar seu terceiro álbum e entrar em turnê, money dates – como costuma chamar. Doa boa parte do que ganha com a música para as causas que acredita e ainda ocupa-se com poesia, política e sua família.

Continua sendo o único homem possível à ocupar o protagonismo desta história.

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