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Sex Education – 1ª temporada

Sex Education – 1ª temporada

Série inglesa é um dos tratamentos para a caretice cafona e doentia dos tempos atuais

Ana Flavia Gerhardt - 28 de janeiro de 2019

Recém-lançada na plataforma Netflix, a primeira temporada da série Sex Education tem apenas oito episódios. Nestes tempos de caretice e retrocesso de costumes no Brasil e no mundo, pode-se dizer que esse número reduzido é seu único defeito, porque estamos precisando falar cada vez mais abertamente de sexo para espantar de vez os fantasmas e tabus que cercam o assunto e a prática em todas as suas nuances.

Os ensinamentos da mãe sexóloga rendem a Otis umas libras esterlinas.

Sem desconhecer que o tema assume uma feição extremamente capilarizada na contemporaneidade, e por isso atravessa e é atravessado por outras importantes questões e contradições humanas, a série aborda muitas delas com a leveza e o senso de humor próprios dos ingleses. Evita assuntos polêmicos como estupro e pedofilia, mas aborda outros também complexos, como aborto e homofobia, de uma forma que, embora não trivialize sua gravidade, não destoa do modo ligeiro e delicado de desenvolvimento das tramas. O resultado é uma temporada altamente maratonável, que pode ser apreciada inteira num fim de semana e discutida entre amigos, casais e famílias.

Os caminhos que a realizadora e roteirista Laurie Nunn escolheu para abordar a vida sexual na contemporaneidade e a sexualidade em geral dizem respeito à faixa etária que está em foco na série: alunos do ensino médio de uma escola inglesa – adolescentes, portanto. As tramas giram em torno de meninas e meninos de diferentes condições sociais, raças e orientações sexuais, mas todos têm em comum as imensas incertezas, fragilidades, crueldades e inconsequências próprias de uma idade em que a preocupação com a imagem pública se sobrepõe a crenças, desejos e projetos, embaralhando as ideias e impedindo os jovens de enxergarem a própria potência, em todos os sentidos da palavra.

A série também poderia se chamar Family Education

Os alunos da escola que recebem mais atenção na trama são também enquadrados em suas dinâmicas familiares. Pelas grandes diferenças entre as famílias apresentadas, nota-se que a série não está interessada em discutir modelos ideais de família. O foco está em expor as contradições que há nesses e em outros modelos, para que possamos entender, no fim, que as idealizações heteronormativas e patriarcais só dão certo na mente de gente ultrapassada e preconceituosa.

Otis em ação: seu consultório é no pátio.

Otis (Asa Butterfield, encarnação perfeita para o papel), figura principal na trama, tem 16 anos e é filho de dois sexólogos divorciados. Por isso compõe uma família encabeçada por mulher, algo muito frequente no mundo ocidental. A separação dos pais lhe causou traumas sexuais e afetivos que o impedem até de se masturbar, quanto mais namorar, embora se interesse por meninas. Seus talentos de terapeuta são “descobertos” por uma colega, que passa a agenciar seus serviços de aconselhamento sexual aos demais alunos da escola. Para isso, ele usa o que aprende em casa com sua mãe, que adora analisar todo mundo (a maravilhosa Gillian Anderson empresta sua elegância natural a uma personagem divertidíssima), para ajudar os alunos a avançar um pouco além da superfície na compreensão do que os acomete.

Sua colega e “empresária”, a inteligente e idealista Maeve (Emma Mackey), compõe uma família junto com o irmão traficante, já que o pai desapareceu há anos e a mãe se recupera de dependência química. Com a auto-estima muito baixa pela infância triste e pelos problemas familiares e econômicos – chega a vender aos colegas trabalhos melhores do que os que elabora para si mesma -, Maeve é a personagem mais complexa da série. Emma Mackey, em seu primeiro trabalho de destaque, sustenta com sinceridade empatizante a solidão profunda da jovem e seu sentimento de ser menos merecedora das coisas boas da vida por não ter nascido em lares que, olhando de fora, supõe ser perfeitos.

De perto ninguém é perfeito

Em um desses lares “perfeitos” vive Adam (Connor Swindels, um Ethan Hawke mais jovem), o filho do rigoroso diretor da escola. Adam anseia pelo amor e aprovação do pai, que lhe cobra uma espécie de “pedágio” por esses privilégios: desempenho escolar impecável e comportamento exemplar, coisas que o rapaz está longe de conseguir. Com o aumento da distância e das frustrações recíprocas, os dois em algum momento se enfrentarão, rompendo com a suposta autoridade pai-filho e quebrando todas as expectativas sobre as famílias dos modelos judaico-cristãos tradicionais.

Otis e sua empresária complicada demais para seus talentos como terapeuta.

A discussão sobre a homafetividade também é tratada da perspectiva familiar, oferecendo mais elementos para a problematização do patriarcado. Jackson tem duas mães, que entram em conflito sobre como criá-lo da melhor maneira. Uma é adepta de não conduzir a vida do filho, mas a outra deposita sobre ele expectativas de sucesso e lhe impõe uma rotina sem descanso, o que produz no rapaz uma ansiedade patológica que sua pouca experiência com a vida não lhe permite gerenciar.

Em outra família, vive Eric (Ncuti Gatwa), melhor amigo de Otis e gay assumido, o que não quer dizer muita coisa, já que a juventude não lhe confere estrutura emocional para aguentar viver seu desejo num mundo que caminha para um recrudescimento da homofobia. Mas ele já sabe que a vida é difícil para todo mundo… Em busca de exemplos para a possibilidade de curtir práticas femininas e drags, como maquiagem e adornos, ainda assim Eric considera a contingência de assumir uma persona masculina como garantia de uma vida “normal”. Seus movimentos para uma ou outra direção são observados com grande apreensão por seu amoroso pai, ele também lutando contra os preconceitos dentro de si para aceitar aquele único e tão diferente filho.

Os ingleses fazem muito melhor

É interessante pontuar que uma série sobre sexo que seja destituída de preconceitos – à exceção de um, que repisa o clichê machista de que homofóbicos são gays enrustidos – não pode ser realizada em qualquer lugar. Nos Estados Unidos, país puritano e berço do neopentecostalismo, a abordagem do Cinema e da TV para a sexualidade adolescente é comumente feita à moda American Pie, em que o machismo dá o tom, e o humor emerge mais do ridículo de figuras que se recusam a amadurecer do que da nossa identificação com as perdições dos personagens. No Brasil, onde a censura bate à porta, acho pouco provável que algo do tipo apareça tão cedo.

A solução para os problemas é falar, falar, até que em algum momento a gente consiga se ouvir.

Falar seriamente sobre uma prática que justifica e permite nossa existência, e que ainda no século 21 ainda desperta um interesse e um medo gigantesco, implica reconhecer a carga emocional e intelectual que a sexualidade exerce em todas as fases de nossa vida. E fazer isso com bom humor sem negligenciar a importância e a dimensão que o sexo tem para cada um de nós, pratiquemos ele ou não, é a maior das virtudes de Sex Education. Nesse sentido, a educação de que o título da série trata não diz respeito apenas à escola ou à terapia que Otis oferece aos colegas, mas também à nossa própria educação sexual e social, que está profundamente ligada ao respeito pela sexualidade alheia, tão legítima quanto a nossa.

E que, sim, adolescentes transam com e sem compromisso, mandam e espalham nudes, têm problemas de desempenho sexual, etc. etc., e as meninas ainda se culpam pela impotência dos parceiros, assim como fizeram nossas avós e mães. Os sistemas educacionais precisam assumir isso como uma realidade e tratar disso como parte fundamental da vida de seus alunos, ajudando-os a adquirir o conhecimento para conduzir suas vidas evitando as doenças sexualmente transmissíveis, a gravidez indesejada e a violência fora e dentro de casa, entre outras infelicidades.

O que precisamos é de educação, num sentido amplo

Em Sex Education, não há a intenção de minimizar a barra que é ser adolescente mesmo numa sociedade em que a educação sexual é franqueada e o aborto é permitido. E, se o sofrimento por não ser amado, não ser cuidado e não ter com quem ir a uma clínica para interromper uma gravidez indesejada já existe num país com esclarecimento e liberdade, o que se dirá da pessoa em formação num país como o Brasil, em que a vida íntima dos cidadãos se tornou assunto de Estado, o preceito religioso substitui o conhecimento científico, e a sexualidade sai da esfera da saúde pública, caindo no buraco sem fundo da repressão e do preconceito.

A chegada da série à Netflix brasileira é sinal de que por aqui ainda há condições de possibilidades para dialogarmos sobre como tratar as práticas sexuais e afetivas de cada um como habituais, e como importante parte da vida. Amar e se entregar é sinal de saúde, e não de doença, algo em que muitas vezes as convenções sociais e religiosas acabam transformando. Uma fala que Otis enuncia mais de uma vez é a de que a vida sexual do outros é dos outros, e pessoas de fora não têm o direito de interferir, nem julgar, nem impor nada. Sex Education assume esse ensinamento como premissa e como verdade. Minha esperança é a de que consiga educar muita gente nesse sentido.

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