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Sinais (2002)

Sinais (2002)

O horror como contestação e permissão para acreditarmos.

Gabriel Carvalho - 15 de janeiro de 2019

Um personagem de “Sinais”, terceiro projeto de relevância de um cineasta importante para a indústria, interpretado justamente pelo próprio, seu diretor e roteirista M. Night Shyamalan, pede perdão por ter feito o protagonista do longa-metragem contestar a sua fé. A nota mais extraordinária dessa passagem marcante, um momento pungente entre pessoas que misteriosamente possuíram os seus caminhos cruzados, surpassa a ótima jogada metalinguística do artista, aqui conversando com uma produção que realmente repensa as crenças de seu personagem principal. O homem sobrevive em um mundo em que sua esposa foi abruptamente retirada de seu cotidiano até então, enquanto ainda era um mero reverendo. Como caminho para o sagrado portanto evidenciar-se como a verdade para as discussões e a conclusão das narrativas por si, “Sinais” é a redescoberta dos significados, tanto os da vida como vida, quanto os do cinema como cinema. Eis o mistério da fé.

O grande ponto de destaque dessa cena, posteriormente justificada com a conclusão enigmática da obra, é que M. Night Shyamalan cria, em uma última instância, um conjunto impressionante aos sentidos mundanos, que restaura um credo aos seus espectadores e até mesmo aos seus personagens. Porque “Sinais” transforma a salvação em uma coisa comum e incomum, parte de uma construção, não de uma espontaneidade ordinária, a partir das peças de um roteiro cuidadoso, que são amarradas cirurgicamente. A própria narrativa, enquanto ainda cinema consciente de ser cinema, mostra-se vetor para a proposta desse discurso misterioso, permitindo o espaço cênico da casa, construído meticulosamente, ser um milagre por si só. Isso sem contar os personagens propriamente ditos, seus enredos anteriores, sempre reiterados e, mais para frente, repensados, assim redescobertos como iguais meios para a salvação por excelência acontecer.

A contínua contestação ao mundo, partindo do personagem principal, é motor para a crença, quando comprovada ultimamente, ser carregada emocionalmente nos últimos segundos da obra. “Sinais” abrange a quietude aparente, em planos mais serenos, para sustentar uma inquietude no cerne dos seus personagens, enormemente quebrados pelo que acontecera no passado, mas paralelamente inquietos em meio a tempestade de sentimentos inexoráveis a uma eminente invasão de seres extraterrestres. M. Night Shyamalan engrena as minúcias de um projeto paciente, construtor de atmosfera, espaço e passado, enquanto coloca, como superfície, uma ameaça alienígena que prenuncia o fim dos tempos, sem esquecer dos arcos emocionais que entende como essenciais para essa comunicação mais espessa de um cinema como cinema provar-se o necessário. Uma coesão entre uma narrativa coerente e uma proposta poderosíssima permite “Sinais” ser justamente uma espécie de milagre cinematográfico.

O renomado Steven Spielberg, não muito tempo depois de “Sinais”, iria comandar “Guerra dos Mundos”, um grande blockbuster contendo o espetáculo cinematográfico, entre explosões e monstros, como pretexto para a movimentação de uma emocionante jornada sobre paternidade, com Tom Cruise como protagonista. Apesar de não rejeitar o espetáculo, Spielberg compreendeu-o como superfície nesse caso – e, curiosamente, “Guerra dos Mundos” é um clássico da ficção-científica já referenciado em Sinais“. M. Night Shyamalan não entrega uma obra de ficção científica enquanto espetáculo extraterrestre, o que rompe com as expectativas por um cinema com as dinâmicas e os cortes rápidos de hoje em dia, mas uma obra de horror, gênero que o cineasta domina com maestria. “Sinais” é, nesse sentido mais pessoal, compartilhado com o âmago do thriller, uma experiência completa de cinema, majoritariamente encenada dentro de uma única casa, seus cômodos e seu porão, certeiramente aproveitada integralmente, sem ser um mero utensílio para a forma massagear-se.

Como M. Night Shyamalan nunca esquece os gêneros cinematográficos em que se aventura inocentemente para narrar os seus propósitos narrativos, movimenta as cenas, aqui comandadas magistralmente, entre ruídos inquietantes – um desenho de som competente – e enquadramentos imensamente precisos. Os sentimentos inerentes ao horror e ao suspense não são as únicas intenções do cineasta, igualmente impulsionando a jornada dramática do protagonista por meio do gênero, em um misto de crença e descrença que aparece e desaparece, graduando entre o que pode ser verdade e o que não pode ser verdade, entre o que é coincidência e o que é milagroso.  Um reverendo sem mais esperanças, no terceiro projeto do cineasta, testemunha o que pode ser o fim dos tempos, juntamente aos seus filhos e seu irmão, saudosos da época em que Graham Hess, interpretado por Mel Gibson, ainda conseguia orar ou acreditar.

Um contra-plongée, no segundo ato do longa-metragem, posiciona corretamente Graham Hess para partir de uma proximidade de uma porta, com o seu rosto ansiando enxergar através de uma fresta que daria visão a um outro cômodo, justamente aquele em que um monstro estaria supostamente preso, para o seu consequente distanciamento, portanto enquadrando o corpo inteiro do artista, um pouco antes do personagem jogar-se novamente para a fresta da porta – tudo numa sequência só. A crença e a descrença – no primeiro caso, o salto movido por fé, e no segundo, a desistência cômoda -, normalmente inexoráveis a uma situação tão importante para os credos de um ser humano serem contra-argumentados ou confirmados quanto essa, em decorrência de um medo e de uma curiosidade em concretizar – ou não – a existência de uma criatura para além da porta, são ambas expostas enquanto oscilando entre um posicionamento e outro. A superfície endurecida, supostamente indestrutível, é uma máscara para um homem muito perdido em suas atuais óticas.

O diretor e roteirista M. Night Shyamalan.

O diretor e roteirista M. Night Shyamalan.

O protagonista pode até mesmo passar a acreditar nos alienígenas que isso não diminui a sua desesperança latente, porque o enfoque verdadeiro de M. Night Shyamalan não é esse, em acreditar nesses seres como milagres – uma premissa primeira rapidamente desconstruída. O credo seria na sobrevivência e no afortunamento como contrapontos aos acasos mais depressivos da vida, um pensamento que Graham Hess, no entanto, encara com um ceticismo em demasia. O suspense e o pavor, com isso, encontram-se compreendidos em todo o conjunto mais visceral de “Sinais”. M. Night Shyamalan margeia uma ambientação extremamente claustrofóbica com sua câmera correta, assim como com os atormentados sentimentos dos personagens vindo à tona. A cena do porão, por exemplo, exemplifica essa conexão das vertentes de visões que o curioso cineasta possui para o horror, então manipulando personagens assustados e desacreditados para amedrontarem-se. Os medos mais ordinários, partindo da sobrevivência em si, são substituídos subitamente pelo medo carregado dramaticamente e emocionalmente – primeiramente, o pânico em pressentir a ameaça alienígena, mas, consequentemente, o pânico enquanto o garotinho sofre uma crise de asma, mais pontiagudo.

Um dos grandes thrillers da década de 2000, “Sinais” é o epítome do que M. Night Shyamalan, como artista de cinema, propõe com a sua carreira injustamente questionada – para muitos, pretensiosa -, querendo a consolidação de um cinema baseado em acreditar no impossível, tanto que um sobrevivente de um acidente de trem possui super-poderes quanto que um menino pode ver gente morta. Os milagres são verdadeiramente possíveis, pois nada é uma mera coincidência – M. Night Shyamalan, em um certo viés mais gracioso, é um menino ingênuo repensando a esperança. Um projeto que é moldado por uma narrativa ímpar, manuseando uma premissa simples, assim mantendo-se até que a simplicidade se torna uma das empreitadas mais bonitas do cinema desse cineasta. O suspense, contornado por uma excelente banda sonora, é exposto como uma arma para que a emoção saia misteriosamente do peito do protagonista, noção muito mais impactante que as revelações sozinhas, abruptas e um pouco sem graça, devendo ser necessariamente conjugadas ao drama para surtirem o efeito de maravilhamento ansiado.

Assim como existe um guia de cinema acobertando os nossos passos, também existe um plano maior para cada cena proposta por M. Night Shyamalan, como os seus roteiros e as seus intenções comprovaram, quase ultrapassando os enquadramentos apresentados sugestivamente por anos. O crédito no artista como artista, só querendo ser artista, nasce, portanto, de uma metalinguagem grandiosa a toda a narrativa do longa-metragem. As suas produções podem ser maiores do que muitos compreendem ser, porque o que está aparente não é necessariamente o que quer ser comunicado por esses projetos, para muitos enormemente ricos em conteúdo e sentimento, com significados passíveis a mil e uma interpretações possíveis e impossíveis. A permissão a acreditar, em meio aos vários atos de fé constantemente presentes nessa competente carreira cinematográfica, não é nem acreditar em um dos maiores mistérios das crenças mundanas, no entanto, acreditar, quase que acima de tudo e de todos, em M. Night Shyamalan.

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