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Soundtrack, O Filme da Minha Vida e o amor como prática e como aprendizado

Soundtrack, O Filme da Minha Vida e o amor como prática e como aprendizado

Ana Flavia Gerhardt - 19 de setembro de 2017

Este ano, assisti a duas obras envolvendo o artista Selton Mello: os filmes Soundtrack, em que ele participou como ator e produtor, e O filme da minha vida (que recebeu crítica do Plano Aberto em texto de Matheus Fiore), este um projeto em que Selton está mais presente, atuando, roteirizando, dirigindo e produzindo. Vejo em ambos os trabalhos elementos em comum, que a meu ver estão cinematograficamente expressos de forma muito evidente e sofisticada, e que os tornam trabalhos artísticos complementares, necessários ao espectador que admira e torce pelo Cinema brasileiro.

Em Soundtrack, Selton interpreta Cris, jovem fotógrafo brasileiro que parte para uma estação polar a fim de prosseguir com seu plano de fotografar a si mesmo num ambiente congelado enquanto ouve no fone de ouvido uma playlist elaborada por ele. De início, seus companheiros/anfitriões estranham muito que alguém esteja entre cientistas para realizar um trabalho artístico, mas aos poucos todos vão descobrindo que as diferenças entre seus projetos são apenas superficiais.

O filme traz muitos diálogos significativos, mas um em especial quero reproduzir aqui: em conversa com o climatólogo Mark (Ralph Ineson), seu companheiro de dormitório, Cris lhe pergunta sobre a pesquisa que ele está realizando, e recebe perplexo de Mark a informação de que os resultados dos seus estudos começarão a ser obtidos apenas dali a noventa anos. A perturbação de Cris com essa resposta contrasta imensamente com a serenidade de Mark, que aparentemente não se importa com o fato de que não colherá em vida qualquer louro por suas ideias e seu empreendimento.

Aos poucos, o filme nos permite compreender um pouco as razões dessa serenidade, que também diz respeito ao que levou aquelas pessoas ao fim do mundo para fazer pesquisas científicas de longo prazo, seguindo uma rotina entediante, longe de suas famílias, num lugar onde não há quase nada além de gelo. Entre outras motivações, aquelas pessoas desejam deixar algo ao mundo, entregar algo que é produto de décadas de preparação e empenho, em benefício de seres humanos que não conhecem e jamais conhecerão, e de pessoas que ainda nem nasceram, para que, talvez, o mundo se torne um lugar um pouco melhor depois que elas partirem. Certeza do retorno, do reconhecimento, elas não têm, mas não parecem muito preocupadas com isso. Apenas desejam trabalhar e fazer acontecer aquilo em que acreditam. O prazer que obtêm com isso é o de serem potentes e capazes de realizar alguma coisa que seu preparo intelectual e suas convicções lhes permite. Ou seja, e em resumo: elas fazem porque podem fazer.

É muito bonito ver no filme a compreensão profunda que Cris desenvolve acerca da atitude dos seus companheiros de estação, adquirida no breve período em que todos partilharam aquele espaço inóspito. Soundtrack, como um todo, termina por ser um filme grávido de reflexões acerca dessa compreensão, que leva Cris a ações importantes para o seu trabalho e para a sua vida, e lhe dá potência para entregar um pouco de si ao mundo, ao futuro. Saí do cinema com reflexões que, uma semana depois, foram nutridas quando assisti a O Filme da minha vida, belíssimo filme de Selton Mello, que, como os outros dois de sua autoria, está impregnado de significados filosóficos e existenciais, e por isso me cativou imensamente.

Tony Terranova (Johnny Massaro, encantador) vive com seu pai francês (Vincent Cassel falando um português de que pode se orgulhar) e sua mãe brasileira (Ondina Clais, uma delicada descoberta) numa Serra Gaúcha tão magicamente fotografada por Walter Carvalho, que dá na gente uma vontade gigante de que ele fotografe a nossa vida também. Tendo vivido uma infância maravilhosa no sítio de seus pais, Tony parte para realizar seus estudos em Letras e se formar professor de francês. Após dois anos, retorna e, para seu estarrecimento e tristeza, recebe a notícia de que seu pai havia partido para a França, sem perspectiva de volta. O Filme da minha vida se constrói em torno do esforço de Tony em compreender por que o pai os havia abandonado, algo que nenhuma das pessoas à sua volta parece capaz de esclarecer.

Esse esforço de compreensão é plenamente justificado pelas cenas em flashback que descrevem o relacionamento entre Tony e o pai. Filmada nos mesmos padrões de sépia e tão ensolarada quanto as cenas do presente, a infância de Tony nos aparece repleta de amor e momentos inesquecíveis com o pai, que esteve junto a ele auxiliando em aprendizados importantes para ambos, como andar de bicicleta e cultivar a paixão por veículos motorizados. Nessas cenas, vínculos importantes são estabelecidos entre eles, e heranças são prometidas. A presença da mãe consolida a vida plena de Tony junto aos pais, e boa parte de sua personalidade delicada e autêntica se justifica nas cenas de sua infância, em que a confiança na vida e o comprometimento ético com as pessoas, que testemunhamos através das ações do personagem, fincaram suas raízes. O fato de Tony ser professor de francês é mais uma evidência do quanto seu pai influenciou e influencia suas ações, desejos e sentimentos.

O filme nos oferece de forma precisa a dimensão da angústia de Tony diante da ausência inexplicada do pai, ao mesmo tempo em que vai desenrolando o novelo da sua própria vida, recortada e situada no período das suas descobertas sobre o amor e o sexo. Interagindo com o filme, reconhecemos que essas questões na verdade são uma só, porque ambas se referem ao amor como prática e como aprendizado.

Penso que é na infância que aprendemos o que é o amor, e isso se faz através das práticas amorosas que precisam estar presentes em nossa vida. Entre outros componentes fundamentais para nosso amadurecimento, é justamente nessas práticas, nas quais se juntam a nós as pessoas com quem travamos laços de confiança, que vamos nos fortalecendo ao longo do nosso crescimento, a ponto de um dia prescindirmos da necessidade de apenas receber amor, para que possamos, de nossa vez, compartilhá-lo, invertendo a condição da época em que ele nos foi dado quando ainda nossa necessidade de recebimento era bem maior que a de partilha. É muito grande a probabilidade de que pessoas que foram amadas e se sentiram protegidas e acarinhadas durante sua infância tornem-se fortes para enfrentar os desafios da vida adulta com resiliência e perseverança.

O amor que praticamos e aprendemos ao longo da vida nos prepara para uma forma de viver em que o desejo de compartilhar o que se tem e o que se sabe se expande para âmbitos cada vez mais amplos, e nos ajuda a reconhecer como fonte de felicidade o entendimento de que se pode viver esse amor através de ações em benefício do maior número possível de pessoas. Para muitos que escolhem viver assim, a infelicidade pode estar justamente na frustração por serem capazes de dar tantas coisas para as outras pessoas, e compreenderem que nem sempre, às vezes quase nunca, elas querem receber. Mas é uma contingência com que se tem de lidar, porque a vontade e o pensamento dos outros nos são e sempre nos serão completamente inacessíveis, e é assim que tem de ser, porque nenhum de nós deseja que sua vontade e pensamento pertençam a outras pessoas.

Nesse sentido, viver o amor como prática e aprendizado nos ajuda a superar a infância, em que nossa preocupação é a de receber as coisas e cobrá-las de quem está encarregado da tarefa de nos criar, e alcançar a vida adulta, em que as ações se regem por intenções de partilha e doação. Isso, a meu ver, é que leva os cientistas de Soundtrack a dedicarem suas vidas a pesquisas cujos resultados não colherão em vida. Por serem pessoas adultas, eles experimentam satisfação pessoal em serem capazes de oferecer grandes coisas ao mundo, plantar sementes que poderão ser cultivadas e colhidas por outras pessoas em outros lugares e outros tempos, para que os caminhos que mapearam agora possam ser percorridos no futuro. Já livres da necessidade de reconhecimento, suas ações também são práticas de amor, mas agora de forma expandida: um amor pela humanidade, pelos seres vivos e pelo planeta.

O contrário desse tipo de amor é o abandono. Pais que adotam crianças que passaram por experiências traumáticas de abandono e as guardam na memória sabem como é difícil e doloroso trabalhar para que seus filhos superem o sofrimento que lhes foi imposto e reconheçam neles pessoas em quem podem confiar e aprender outra forma de viver, não mais temendo que outros adultos façam o mesmo que já fizeram com elas, às vezes mais de uma vez. Pais que estão ou que já estiveram empenhados nessa tarefa relatam como é fácil marcar uma criança com aquilo que de pior existe no mundo, e como é difícil e demorado aprender o que é o amor quando da vida só se recebeu violência.

Em O filme da minha vida, Tony passou pelas duas experiências, a do amor e a do abandono, vindas de uma pessoa só: seu pai. Sua perplexidade, portanto, vem justamente desse fato, que o faz atribuir à imagem que elaborou sobre o pai uma incoerência que passa boa parte do filme tentando resolver, que é a de não saber mais quem era aquela pessoa que o criou: se era o pai que lhe ensinou o que é o amor, ou se era o homem que deixou a ele e a sua mãe sozinhos no mundo. Descobrir a resposta para esse enigma é algo absolutamente legítimo, não apenas porque a figura de um pai é central em nossa vida, mas também porque a forma como Tony construiria suas relações futuras dependia disso. Mas não alteraria apenas seu futuro: alteraria também sua leitura do passado, da infância na companhia daquele homem que, ou era um egoísta inconsequente que o enganou por anos, ou sempre foi um pai amoroso que em algum momento agiu movido por forças superiores a sua vontade.

Tivesse o filme tido um outro final, talvez Tony tivesse descoberto que seu pai pode bem ter sido, a um só tempo, essas duas pessoas que se instalaram em sua mente: o que lhe ensinou o amor e o que lhe ensinou o abandono. Porque nós somos assim, incoerentes, contraditórios e paradoxais. Podemos amar e podemos abandonar; podemos ensinar o amor e depois apagar com uma borracha tudo o que inscrevemos no coração dos que nos amam. Talvez a vida ensinasse a Tony que não apenas seu pai podia ser assim, como também ele próprio, mesmo tendo aprendido o que é o amor como prática e aprendizado, podia ser capaz de, no futuro, abandonar para sempre aqueles que jurou amar. Mas, de todo modo, a pergunta que ele passa a maior parte do filme se fazendo precisa ser feita, porque, como ensinam os cientistas em Soundtrack, mesmo sendo contraditórios, mesmo trazendo dentro de nós tanto bem e, igualmente, tanto mal, podemos sempre pensar sobre o que queremos na vida, sobre as escolhas que fazemos e as consequências que elas acarretam.

Para mim, é significativo que Selton participe de dois filmes em que a temática do amor esteja tão presente: em Soundtrack, vemos o amor na sua forma mais refinada, desprendida e generosa: um sentimento que impulsiona e faz o mundo acontecer, e que dá àquele que o cultiva o prazer de estar no movimento de construção do futuro do planeta; em O filme da minha vida, Selton mostra quais são as relações mais fundamentais e primordiais que permitem ao ser humano tornar-se alguém como os personagens que aprendemos a admirar em Soundtrack. Não penso estar muito errada se supuser que esses filmes também manifestam o desejo de Selton de também nos entregar algo de si; se for assim, ele o faz de forma esplêndida, num ano bastante fértil para o Cinema brasileiro. A mim cabe a gratidão por saber que há e sempre haverá pessoas voltadas para a partilha com o mundo, e o desejo de conseguir aprender com elas como fazer isso. Para os que têm a mesma intenção, o Cinema sempre oferece ótimas lições, porque, muito mais do que ser uma escola de Arte, é uma escola de vida.

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