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Teens Of Denial

Teens Of Denial

Nathan Amaral - 23 de junho de 2016

Você provavelmente nunca ouviu falar de Car Seat Headrest. Um projeto cujo nome, aliás, se deu porque seu líder, Will Toledo, gravou todas as faixas vocais de seus primeiros discos no assento traseiro de seu carro e essa foi a coisa mais hipster que eu já li na minha vida desde o café desconstruído. Mas tenho certeza que seu novo disco, Teens Of Denial, o décimo terceiro da banda (juro), será não um prato mas um rodízio cheio para o seu lado indie interior.

Teens Of Denial é o sucessor espiritual de Teens Of Style, lançado em outubro do ano passado e o primeiro álbum de Will Toledo para a Matador, a gravadora do Queens Of The Stone Age. É evidente ouvir a diferença sonora dos discos anteriores para estes dois mas é em Teens Of Denial que a sonoridade da banda parece ter alcançado seu potencial total.

Aviso: este é mais do que um daqueles bons e velhos discos que deram alma ao rock de garagem dos anos 2000, que criou a tsunami indie liderada por Strokes e Arctic Monkeys – uma pegada crua de guitarras extremamente criativas e uma cozinha constante – tudo isso com uma voz dylanesca que entrelaça pedradas e baladas sobre, bem, ser um jovem anglo-saxão aparentemente perdedor. Há de tudo, de samples de Dido à riffs e estrofes que parecem ter saído dos anos 90 e 2000 direto para nosso contexto atual.

P.S.: A segunda estrofe dessa música merece o prêmio DESIIGNER de impossibilidade de compreensão. Passei semanas achando que “pure sadism” era alguma frase em japonês.

Nas doze faixas do álbum é possível encontrar uma pureza musical quase que extinta por todo o gênero, não há uma música cuja arquitetura melódica soe sem inspiração ou ausente de criatividade – o trabalho das guitarras, um excelente destaque, talvez seja o melhor do ano. Une-se a isso a escrita Will Toledo, que bem lembra Alex Turner nos primeiros anos de Arctic Monkeys, explorando os cantos do retrato da sua, e da nossa, juventude. Drogas, amor, aceitação, angustia, raiva, incerteza, trabalho e preconceito “geracional”, há uma base filosófica bem mundana nos assuntos que perpassam a vida dos chamados millenials e essa experiência rende um disco extremamente divertido e afiado quando precisa ser. Nenhum detalhe merece ser ignorado, dos nomes das faixas à versos específicos como a melhor definição sobre drogas de 2016, quiçá do século. (“Last Friday I took acid and mushrooms I did not transcend, I felt like a walking piece of shit In a stupid looking jacket”).

É possível acompanhar a voz de Toledo e suas ideias em quase todos os humores possíveis: em pegadas noventistas, num típico indie-rock, em odes acústicas e até mesmo em uma balada épica executada à perfeição em The Ballad of the Costa Concordia, que ganha seu nome na comparação entre as falhas pessoais de Will e a tragédia do navio Costa Concordia – afundado em 2012. “Como eu deveria saber como controlar o barco?” pergunta, assim como milhões de contemporâneos.

A força de um disco como esse é a mesma de sua própria geração: a realidade. Há ausência de metáforas e romantizações fantasiosas. Uma obra que evoca heróis comuns e recheia-se de um minimalismo mundano, que chama a atenção e à reflexão sobre os rumos que uma geração extremamente cobrada e rotulada busca protagonizar. A genialidade está justamente nesta fricção, no encontro de uma profanidade virtuosa com a simplicidade. Como bem disse o Gustavo, há uns posts atrás, o que parece propor Will Toledo e sua obra é arrancar a monetização e a precificação da música na porrada e em Teens Of Denial estão os socos. É uma busca pelo espectro político que possa acabar com a asfixia que perpassa sua geração, uma asfixia bem real, aliás.

“So there I was, just another shitbag civilian
Afraid of the cops when I was outside, afraid of my friends when I was inside
And I grew tired of the scene
And then my dad showed up

And he was like
“Who are you to go against the word of our fathers?”
“Who are you? the scum of the earth”

No we are just, we are just we are just teens of style
No we are just we are just we are just victims of the contemporary style
Yes we are just we are just we are just we are just going along with the modern style
Now everybody, everybody, everybody’s going along with the modern style.”

Não caberá ao ouvinte à margem deste contexto uma compreensão ou uma empatia tão profunda, claro, fazendo com que Teens Of Denial soe apenas inócuo. Mas, bem, aí está mais uma belíssima face do disco: este é um álbum que parece ter nascido do asfalto sujo por solas de tênis e botas, encharcado por álcool e queimado por cigarros de nicotina e maconha. Ele não veio de um estúdio, ele veio de uma realidade tão real quanto o macrocosmo de um sábado a noite.

Político, social, sentimental e muito bem feito, o tempo dirá sobre os rumos da carreira de Will Toledo, Car Seat Headrest e a influência de Teens Of Denial. Na opinião de quem vos escreve este é um disco que está para a história recente da música como Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not esteve. Pode não criar um maremoto, como o outro, até porque outros são os tempos, mas, seguindo sua própria filosofia, se fizer vibrar, serve.

Teens Of Denial (2016)
Car Seat Headrest
Matador Records
★★★★★

1.  Fill in the Blank
2.  Vincent
3.  Destroyed by Hippie Powers
4.  (Joe Gets Kicked Out of School For Using) Drugs With Friends (But Says This Isn’t a Problem)
5.  Not What I Needed
6.  Drunk Drivers/Killer Whales
7.  1937 State Park
8.  Unforgiving Girl (She’s Not An)
9.  Cosmic Hero
10.  The Ballad of the Costa Concordia
11.  Connect the Dots (The Saga of Frank Sinatra)
12.  Joe Goes to School

Teens Of Denial está disponível no Spotify.
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