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Titanic (1997)

Titanic (1997)

Matheus Fiore - 10 de novembro de 2017

Milhares de pessoas amontoam-se em um cais de Southampton, na Inglaterra. Diante delas, o gigantesco Titanic, um enorme transatlântico que, com a promessa de ser “inafundável”, lá estava para atravessar o Oceano Atlântico com quase três mil pessoas. Entre a multidão, há variados tipos de pessoas, desde os mais abastados, donos de grandes impérios e pertencentes à tradicionais famílias, a maltrapilhos. No barco diante deles, todos projetam um sonho. Alguns, como o vilão Hockley (Billy Zane) veem na viagem à América a chance de conquistar seus amores. Outros, como Rose (Kate Winslet), almejam encontrar seu lugar no mundo. E há, claro, os aventureiros, como Jack (Leonardo DiCaprio), que estão lá pela adrenalina, pelo desejo de explorar o mundo.

Titanic é, sim, um romance. Mas, antes de adentrar na história de Rose e Jack, o diretor e roteirista James Cameron faz questão de construir, em seu enorme primeiro ato, o cenário sociocultural da narrativa, para que possamos compreender todos os medos, anseios e sonhos do famoso casal. O transatlântico é dividido em três classes, separadas de acordo com o poder aquisitivo de seus passageiros. Assim, o script de Cameron é feliz ao trazer, paralelamente, a simplicidade e pobreza da primeira classe, recheada de aventureiros como Jack e seu amigo Fabrizio, que depositam grandes esperanças na viagem, e a indiferença e prepotência de Hockley e Ruth (Frances Fisher), a mãe de Rose, que estão lá para fazer negócios.

É interessante notar como Rose, a protagonista, mesmo que surja como membro da “alta sociedade”, não se comporta como tal. Nesse aspecto da narrativa, o figurino é essencial. Há uma clara diferenciação entre os vestidos trajados pela personagem e os das demais mulheres da primeira classe do Titanic, que vestem roupas com tons pastéis ou com domínio da cor branca, enquanto Rose, totalmente deslocada, busca cores vivas ou escuras. Há ainda cenas específicas nas quais Rose é a única em um grupo de mulheres a não usar chapéu, o que a isola ainda mais do contexto social no qual está inserida.

Igualmente importante na construção do visual de Rose é o seu penteado. A protagonista, que quase sempre inicia as cenas com os cabelos presos, constantemente surge com eles desgrenhados após alguns segundos. Além dos segmentos que utilizam as variações no cabelo de Rose, há cenas em que Ruth, a mãe da jovem, aperta seu espartilho, trazendo enorme valor simbólico para a construção da protagonista, que se vê sempre sufocada pela pressão de seu noivo e família. Com isso, há uma construção textual e visual extremamente eficiente em torno da personagem, que consegue expressar sua sensação de sufoco pelas situações nas quais é inserida, não dependendo de diálogos para isso. 

Com o surgimento da relação de Jack e Rose, o desenvolvimento do amor entre os personagens é previsível – e até clichê -, mas muito bem construído. Jack, um aventureiro sem apego ao lar ou pessoas, representa tudo o que a moça teme, mas deseja conhecer, intrigando a jovem. As situações mais recorrentes na relação do casal são quando Jack encontra Rose em uma zona desconfortável e a leva para outra confortável, como quando o rapaz a tira de uma festa na primeira classe e a leva para beber e dançar com a ala “pobre” do navio. Já na construção do amor de Jack por Rose, a protagonista acaba sendo simplificada e reduzida à uma forma de inspiração para Jack, que é artista.

Paralelamente à construção do romance, Titanic faz questão de sempre nos evidenciar o fracasso que foi a viagem do transatlântico. Além da introdução, que traz uma equipe procurando por um diamante nos entulhos do navio décadas depois da tragédia – o que obviamente mostra que o navio afundará em algum momento -, momentos marcantes do relacionamento dos protagonistas são eventualmente entrecortados ou interrompidos, seja por montagens que unem imagens do navio antes e depois do naufrágio, ou por trechos do depoimento da versão envelhecida de Rose (Gloria Stuart), que narra a obra pontualmente. 

Pela escolha de Cameron de nunca nos esconder a tragédia, opção que provavelmente prejudicaria muito o filme, visto que o naufrágio do Titanic é um dos mais conhecidos desastres marítimos da história, Titanic faz com que o naufrágio não seja uma surpresa, mas um grandioso clímax, tanto em impacto dramático quanto em escala de produção. Com o uso de muitos planos abertos que evidenciam a grandiosidade da embarcação, Cameron imprime peso às cenas do transatlântico se despedaçando por aliar escala de produção a um trabalho de som impecável, que faz com que cada louça, janela, pilastra ou qualquer outro pedaço quebrado do navio tenha destaque, o que torna a destruição crível e espantosa – além de “humanizar” a embarcação.

Vinte anos depois de seu lançamento, a destruição do navio de Titanic segue sendo um dos maiores espetáculos visuais do cinema nas últimas décadas. Não só pela dimensão da enorme produção (o orçamento do longa chegou a ultrapassar o orçamento do próprio Titanic), mas por todo o peso emocional atrelado à tragédia. O fracasso da embarcação traz não só a morte de boa parte de seus passageiros e tripulantes, mas, metaforicamente, o fim do sonho de uma nova vida para todos que almejavam a chegada à América. Titanic é uma obra tecnicamente magistral e cinematograficamente exemplar, funcionando tanto pelo impacto visual do naufrágio quanto pela tragédia emocional de seus personagens.

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