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Tyrion Lannister e a rara lucidez de um privilegiado

Tyrion Lannister e a rara lucidez de um privilegiado

O personagem mais bem construído de Game of Thrones nos ensina como manter a sanidade mental quando a injustiça nos favorece

Ana Flavia Gerhardt - 23 de maio de 2019

Este texto contém spoilers sobre a série “Game Of Thrones”.

“Nunca se esqueça de quem você é, porque é certo que o mundo não se lembrará. Faça disso sua força. Assim, não poderá ser nunca a sua fraqueza. Arme-se com essa lembrança, e ela nunca poderá ser usada para magoá-lo”. De todas as frases relevantes de “Game of Thrones”, a que mais me marcou foi essa, pronunciada na primeira temporada, em meio ao diálogo entre os personagens Tyrion Lannister e Jon Snow, quando se encontraram pela primeira vez. Dita pela boca do personagem mais bem construído da série, e dirigida a um bastardo por um anão, a frase acabou ecoando por todas as temporadas subsequentes, e agora, com a série finalizada, pode ser enquadrada de forma particular a cada um dos seus personagens centrais.

Sim, porque, ao longo de oito temporadas, alguns deles precisaram se lembrar de quem eram para sustentar seus projetos, como Cersei Lannister, Arya Stark e Danaerys Targaryen (esta, então, frequentemente sendo apresentada por seus epítetos), ou apenas se manterem vivos, como Sansa Stark e Theon Greyjoy. Alguns até seguiram caminho contrário, esquecendo-se de quem são para poder transcender, como Bran Stark e Jamie Lannister. E, para um deles em especial  – Jon Snow, o bastardo que não era -, o que pensava ser não fez a menor diferença, no fim das contas.

Assim era Tyrion na primeira temporada de “Game of Thrones” – faz tempo, não é…

Entretanto, com Tyrion Lannister ocorreu algo singular: ao longo de oito temporadas, a personalidade luminosa e a retidão de caráter daquele que uma vez havia sido o anão mais rico de Westeros foram se fortalecendo de maneira cada vez mais robusta. E, agora, com a série já finalizada, e mesmo com as falhas e precipitações criticadas com razão por fãs e analistas, não se pode negar que foi magnífica a construção desse admirável personagem, interpretado por um igualmente admirável Peter Dinklage, que merecidamente ocupou, ao fim da série, o primeiro lugar na ordem de menção dos atores em seus créditos iniciais.

Este artigo é para dialogar com os leitores sobre algo muito significativo que foi construído ao longo do amadurecimento do personagem, algo que escapa aos estereótipos das narrativas convencionais e só pode ser encontrado nas grandes obras literárias lato sensu, que é a possibilidade de materializar pela ficção as grandes reflexões humanas sobre ética e sobre a transformação necessária à conquista da verdadeira lucidez.

Os personagens de ficção são inspirados em pessoas “reais”: identificamos neles valores morais – e também a falta deles

É interessante notar que o percurso longitudinal de Tyrion Lannister transcende a ideia de humanização, processo frequente em narrativas convencionais. Pode-se falar que isso aconteceu com Jamie Lannister, que foi se humanizando paralelamente à perda do respeito social como cavalheiro, que decorreu da amputação de sua mão direita. A transformação de Jamie se encaixa em um dos modelos narrativos clássicos, que é o do herói redimido, aquele que começa vilão e, ao longo da narrativa, e por força de perdas de poder, quaisquer que sejam, se dá conta de sua natureza, se arrepende dos pecados e morre em ação por alguma causa nobre.

A nobreza de Jamie ao fim de Gane of Thrones está tanto no perdão à amada quanto na constatação de sua moral ambivalente. Geralmente, personagens desse tipo morrem no final em uma última ação redentora, o que foi precisamente o seu caso. Pelo menos os roteiristas nos pouparam de nos deixar uma Brienne grávida para perpetuar post mortem a redenção do personagem. Menos mal.

Alguns hábitos do personagem permaneceram por toda a série. Nem tudo dá para mudar.

Tyrion Lannister, de sua vez, já inicia a série humanizado, e é isso que lhe permite dizer a Jon Snow a importante frase que citei acima. Tal humanização se deve ao sofrimento que sua condição de anão lhe impingiu, somado ao fato de que seu nascimento causou a morte de sua mãe e, consequentemente, o ódio de seu pai. Porém, a par dessa sensibilidade que lhe permitiu logo reconhecer em Jon Snow um igual, o personagem se apresenta a nós na primeira temporada como alguém de inteligência arrogante e debochada, que ele usava apenas para satisfazer seu desejo de praguejar contra o mundo.

Essa característica o tornava meio que uma palmatória de Westeros, alguém cuja língua afiada sabe como ninguém desmascarar as falsidades da nobreza, as intenções corruptas dos poderosos e os acordos espúrios entre os muito ricos, muitas vezes com sacrifício de vidas. Entretanto, a inteligência não o livrava de suas gigantescas contradições, porque ele denunciava a canalhice da corte de Westeros mas ao mesmo tempo não era capaz de romper com ela, já que aproveitava todos os privilégios de sua classe vivendo na orgia e se entregando ao alcoolismo. E não raro sua vida dissoluta se voltava contra ele, geralmente pela voz de seu pai.

Personagens bem construídos se transformam por razões evidentes

Provavelmente, ter assumido o cargo de Mão do Rei Joffrey foi o gatilho para Tyrion parar de olhar para o próprio umbigo e começar a usar sua inteligência em coisas mais interessantes. A Batalha da Água Negra, vencida sob seu comando, e pela qual ele não recebeu nenhuma glória, foi o divisor de águas que motivou o espectador a torcer mais ainda pelo anão que demonstrou mais coragem do que todos os nobres de King’s Landing.

A coragem de Tyrion, que a atuação de Peter Dinklage ajudou a consolidar, se expandiu ao longo dos desafios que o personagem enfrentou nas temporadas seguintes, em que testemunhamos encontros com diversos personagens que prontamente reconheceram sua singularidade intelectual e ética. Esse reconhecimento ocorreu em algumas cenas memoráveis, como aquela em que Danaerys o nomeia sua Mão – é encantador ver que Dinklage e Emilia Clarke, nesse momento memorável, são colocados à mesma altura, o que elimina a condição de anão do personagem e diz muito sobre sua notável inteligência e envergadura moral, e também sobre a confiança que Danaerys lhe dedicava.

A dor da perda do amigo Varys fará Tyrion se lembrar para sempre de um de seus maiores erros.

É de se notar que o pai de Tyrion, seu maior inimigo, tenha sido, ao conduzi-lo ao cargo de Mão do Rei, a pessoa que deu o ponto de partida para que ele pudesse iniciar sua jornada em direção à condição ética que, ao fim da série, o tornou a pessoa capaz de dar a palavra final sobre o destino de Westeros após tantas ameaças de tirania. Para essa condição, foi fundamental o rompimento definitivo com o nome Lannister após seu julgamento, que escancarou o desprezo da irmã e do pai por ele. A rejeição da família é um motivo e tanto para que alguém abra mão das próprias certezas, amplie sua capacidade de olhar para si mesmo e comece seriamente a avaliar com sinceridade suas próprias contradições, crimes e pecados.

Assim, ao final da série, o que se vê no personagem Tyrion Lannister é uma coerência que nenhum espectador pode negar, porque, contrariamente a alguns tropeços apressados que foram os defeitos da última temporada, o crescimento de Tyrion foi maturado ao longo de oito anos. Essa coerência diz respeito a que tipo de pessoa o personagem se tornou ao fim da série: um sábio que abriu mão das prerrogativas de sua condição social, que se tornou consciente de suas falhas de caráter, e cuja imensa competência para negociar e administrar o capacitou para os lugares de decisão.

 

O que Tyrion tem a nos ensinar

Mas, sobretudo, o que torna Tyrion Lannister um personagem inesquecível é a lucidez que emana de suas palavras e ações, combinadas à atuação autêntica de Peter Dinklage. Essa lucidez, rara entre os privilegiados, constitui a sanidade mental por excelência, e se relaciona à capacidade de amar e defender a humanidade assim como à própria vida. No capítulo final da série, durante sua prisão, Tyrion passa o tempo buscando em sua mente definir o que pode ser melhor para Westeros, e não para si mesmo. Antes disso, já havia traído a rainha a quem jurara ser fiel libertando Jamie para que ele pudesse buscar Cersei. Após isso, mais uma vez recusa o poder e se propõe a ser alguém que serve o povo – algo que pode ser um bom e verdadeiro sentido para viver.

Imagem de Tyrion no último capítulo de “Game of Thrones”, ainda portando o símbolo do privilégio que se tornou um peso insustentável

Em resumo, todas essas decisões compõem o arco narrativo perfeito do personagem, o qual, ao longo da série, vai produzindo uma inversão de papéis dentro de um mesmo padrão de ação: de pessoa que é servida, no pior sentido da palavra, Tyrion se transforma naquele que serve, no melhor sentido da palavra.

É nesse arco que se situa a lição que Tyrion dá aos poderosos dos regimes injustos, que já se corromperam tanto que passaram a achar que merecem os privilégios de que usufruem às custas da miséria do povo. É na ganância, no usufruto dos privilégios e na sede de poder e riqueza que está a verdadeira insanidade. A lucidez, por sua vez, está em sermos corajosos para enfrentar nossas próprias imperfeições e, mesmo assim, acreditarmos que podemos fazer algo que possa no fim trazer algo de bom para a humanidade.

Estou à espera de novas lições que serão dadas por outros personagens que a ficção da TV e do Cinema certamente nos trará. Mas, enquanto isso, eu desejo pela vida encontrar pessoas que, assim como Tyrion Lannister, possam me ensinar o que é lucidez, o que é sanidade mental, e o que é construir uma vida que realmente faça sentido.

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