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Um Sonho sem Limites (1995)

Um Sonho sem Limites (1995)

Com uma protagonista que personifica o sensacionalismo, “Um Sonho sem Limites” é divertidamente cafona

Marina Pais - 18 de dezembro de 2018

Suzanne Stone – ou Maretto – é uma aspirante a personalidade televisiva que vive como se estivesse sendo filmada o tempo todo. Nesse aspecto, “Um Sonho sem Limites” é uma espécie de “O Show de Truman” às avessas: enquanto Truman vive o seu cotidiano alheio às câmeras ao seu redor, Suzanne (Nicole Kidman) busca estar sempre bem enquadrada em um programa imaginário. Empregada como garota do tempo no jornal local, ela se dedica a ideias mirabolantes para alavancar a sua (inexistente) carreira, como a de produzir, roteirizar e filmar um documentário estrelado por três adolescentes problemáticos (Phoenix, Affleck e Folland).

Dirigido por Gus Van Sant e roteirizado por Buck Henry, o filme é baseado no real caso de Pamela Smart, uma coordenadora de comunicação condenada por assassinar seu esposo em 1990. Essa inspiração da narrativa é traduzida na sequência inicial da obra, que traz recortes de jornais e noticiários apontando Suzanne como a principal suspeita pelo assassinato do seu marido, Larry Maretto (Matt Dillon). A partir daí, “Um Sonho sem Limites” assume um tom de mockumentary que alterna entre entrevistas sobre a repercussão da morte de Larry e flashbacks que revelam como tudo se desenrolou.

Essa estrutura de montagem é bastante eficiente para transmitir um ar de veracidade a obras baseadas em casos reais, e por isso inspirou filmes como “Eu, Tonya”. Além disso, aqui ela também funciona para evidenciar as aspirações de Suzanne, que finalmente alcança projeção televisiva com a cobertura midiática do assassinato do seu marido. Na cena em que é apresentada aos espectadores, a garota do tempo aparece em frente a um fundo branco, explicando de forma artificial e calculada a sua versão da história. Não há luto nos seus depoimentos (há um momento em que ela sequer consegue derramar uma lágrima), mas uma mal contida alegria pela realização do seu sonho: estar no centro das atenções.

E é por ser protagonista desse programa ininterrupto que se passa em sua imaginação que Suzanne é uma personagem tão icônica – para não dizer caricata.  Das suas roupas extravagantes a sua fala meticulosamente pronunciada, cada um dos seus trejeitos parece ser calculado para se encaixar no estereótipo de jornalista famosa. Apesar disso, a personagem nunca deixa de parecer crível, ainda que dentro de um contexto de realismo mágico. Isso se deve à eficiente atuação de Nicole Kidman, que consegue trazer veracidade à personalidade criada. Aliás, a sua interpretação influenciou muitas outras personagens femininas icônicas, como Reese Witherspoon em “Eleição” e Rosamund Pike em “Garota Exemplar”.

Além disso, todo o figurino de Suzanne também contribui bastante para a construção da personagem. Por exemplo: o seu vestuário normalmente colorido e chamativo faz com que o único momento em que usa roupas pretas chame a nossa atenção, quando está apresentando o programa do tempo no seu aniversário de um ano de casamento, data escolhida para a morte de seu marido. Esse detalhe evidencia muito bem a sua visão da vida como um show e sua perspectiva esquizofrênica sobre a própria importância, o que explica porque estava disposta a tudo para chegar aonde achava que deveria estar.

Infelizmente nem sempre a apresentação das suas características é tão sutil: há um excesso de diálogos expositivos que parecem subestimar o público. Um dos exemplos mais ilustrativos acontece em uma das entrevistas dadas pela irmã de Larry, Janice (Illeana Douglas), especificamente quando ela está falando sobre o péssimo gosto de Suzanne e como a casa decorada por sua cunhada ficou horrível. Na cena imediatamente seguinte a casa é apresentada em flashback, e podemos constatar que ela realmente é muito feia. O diálogo poderia, então, ter sido substituído pela confiança num mínimo senso estético do espectador e pela competência do design de produção para mostrar que o ambiente criado não é bonito.

Ao longo da narrativa, há vários outros momentos de tom sensacionalista que parecem de fato ter sido fruto da brilhante direção de Suzanne. De qualquer forma, a estrutura cronológica seguida pela trama, que alterna entre presente e passado, consegue atenuar as perdas de ritmo causadas pela abundância de explicações – que acabam sendo muito mais cômicas do que incômodas. Com tudo isso, o longa parece ter sido, em alguma medida, influenciado por sua personagem principal. Considerando as qualidades da protagonista, isso poderia ser um insulto a Gus Van Sant. Mas não é. É um reconhecimento de uma metalinguagem que talvez nem tenha sido intencional. Assim como a sua protagonista, To Die For é caricato e espalhafatoso. No entanto, ainda refletindo Suzanne, nunca deixa de ser divertido e cheio de personalidade.

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