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“Visages, Villages” e o legado de Agnès Varda

“Visages, Villages” e o legado de Agnès Varda

A poderosa diretora francesa nos deixa a lição de como ser capaz de se emocionar com o mundo mesmo tendo estado nele por nove décadas.

Ana Flavia Gerhardt - 16 de abril de 2019

Confesso que não conheço a obra de Agnès Varda. Meus conhecimentos como cinéfila são os de alguém que cresceu no contato com o Cinema mais popular. Na juventude, quando o acesso a filmes de arte era quase impossível, conheci os clássicos europeus pelos grandes jornais e revistas de cultura. Sei não muito sobre a Novelle Vague, e assisti a apenas alguns de seus filmes mais representativos. Dos diretores da Novelle Vague a cujos filmes assisti, meu preferido é François Truffaut, por quem me apaixonei quando, ainda criança, vi “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” no Cinema.

De Agnès Varda, propriamente, eu havia assistido apenas a “Cléo de 5 a 7”. Me impressionei com o formato real time do filme, depois emulado na série estadunidense “24 horas”, e também com a lindíssima canção Sans toi, de Michel Legrand, mas não assisti a seus outros filmes. Depois de minha entrada no Coletivo Elviras, o recente contato com mulheres críticas de Cinema me permitiu conhecer mais sobre a diretora francesa de longeva carreira.

No ano passado, então, assisti a “Visages, Villages”, filme em que Varda se junta ao fotógrafo Jean René, também conhecido como JR, e ambos percorrem alguns vilarejos da França no furgão-estúdio de JR, convidando seus habitantes a colaborarem com eles no processo de realizar e imprimir fotografias ampliadas de pessoas para serem coladas em grandes superfícies verticais.

Um relato de viagem em forma de filme

Não ouso inserir “Visages, Villages” na instância prototípica da categoria documentário. Não me parece que o filme diz respeito a uma proposta de abordar acontecimentos a partir de determinado ponto de vista. Não percebo nele algum fato ou ideia central sendo apresentada às pessoas. Em cada pequena incursão de Agnès e JR, cada passeio deles por ruas, fábricas e fazendas, buscando as histórias mais interessantes de cada lugar, o que percebo é um desejo de inspirar as pessoas a pensar, a sentir e a criar narrativas motivadas pelas imagens gigantescas coladas nas paredes de casas, prédios, muros, trens, contêineres, celeiros e caixas d´água.

E, de fato, é isso que fazem as pessoas que eles fotografam e com quem eles conversam, antes ou depois de registrar suas imagens gigantes no papel. Elas contam suas histórias, e essas histórias viram fotografia. Vendo a fotografia, elas passam a imaginar novas histórias, e também ideias sobre as próprias vidas, sobre a vida em geral, e sobre a Arte: “A Arte também existe para surpreender, não?”, comenta um operário ao se ver bidimensional e colado, junto com os colegas, à parede da fábrica onde trabalha. Inspirar um operário a falar sobre Arte é um dos antídotos ao neoliberalismo; deve ser a quintessência da realização artística.

Buscando afetar as pessoas em cada parada e em cada foto impressa e colada em grandes superfícies, revitalizando-as, Agnès e JR também são afetados por elas. Algumas histórias lhes interessam menos, e outras, mais, como a da ordenhadora que se preocupa respeitar as ovelhas, e a do homem que é feliz vivendo com quase nada. Esse afetamento é tal que os fotógrafos igualmente se permitem ser fotografados, e Agnès, em algum momento, também se torna gigante – seus olhos e os dedos de seus pés partem cobrindo vagões de carga pelos trilhos da França. Afetarem e serem afetados, por fim, acaba não tendo a menor diferença. Essa igualdade é a ideia mais importante do filme.

Tudo o que fazemos contém o acúmulo de tudo o que já vivemos

O analista de Cinema é, entre outras coisas, uma pessoa que busca aprender a mapear o processo de feitura de um filme a partir do produto acabado. Pensa-se, em geral, que a cronologia desse processo limita-se ao intervalo entre a pré e a pós-produção. Mas o fato é que o processo total compreende toda a vida de seus realizadores, porque, amplamente falando, foi ao longo desse tempo que eles reuniram o total de conhecimentos que guiaram suas escolhas para determinados caminhos, e não outros. Se levarmos em conta essa ideia, podemos imaginar que “Visages, Villages” é o resultado de um processo de preparação que durou 88 anos, que era a idade de Agnès Varda quando o filme foi lançado.

“Visages, Villages” pode ser observado como sendo o fruto acabado, o arremate das experiências e do conhecimento acumulado reunidos durante a vida inteira da cineasta. O que ela aprendeu se traduz em formas de olhar, seleções do que enquadrar, escolhas do que expor, quais imagens incluir, quais pessoas ouvir. O resultado final traz embutidos os elementos que fizeram com que Varda se tornasse a pessoa que vemos no filme. E o que temos diante de nós é alguém profundamente capaz de se emocionar com o mundo, de se encantar com coisas novas – mais ainda, de buscá-las conscientemente -, capaz de aprender com os mais jovens e de genuinamente se interessar pelo que eles têm a dizer, sem qualquer impulso de dar lição de moral do alto de sua idade quase centenária.

Este texto não é um obituário

Eu me emocionei profundamente com a mulher que vi na tela, já de olhos cansados e doentes, mas ainda desejosa de buscar a beleza e a potência que podem emergir de qualquer lugar: fábricas, casas abandonadas, vilas prestes a ser demolidas, ruínas de guerra, depósitos de carga. Para fazer surgir essa beleza, Agnès sabe que precisa das pessoas, vivas ou mortas, tanto faz. Aos noventa anos, estar vivo e estar morto passa a ter outro significado – vida e morte não são apenas condições fisiológicas, mas também formas de nos conectarmos ao mundo. Tudo indica que, mesmo aos noventa anos, ela estava muito empenhada nessa conexão, pelo tempo que lhe fosse possível.

Assistindo à viagem de JR e Agnès Varda em “Visages, Villages”, eu aprendi um pouco sobre o que é viver. A lição completa já vem na abertura do filme, em que Matthieu Chedid afina seu violão antes de executar a primeira canção. Logo depois, Agnès e JR afinam-se entre si antes de iniciar seu percurso de descobertas e transformações.

Viver é afinar o instrumento, já dizia o poeta. Um pouco menos do que Agnès Varda, eu também já vivi mais tempo do que tenho para viver, mas isso não significa que posso já embarcar em qualquer viagem sem ter antes afinado meus instrumentos. Agnès, mesmo com nove décadas de vida, ainda o fazia, porque é preciso preparar os olhos e o espírito para reconhecer tudo de bom que o mundo ainda tem a nos oferecer, e evitar os que insistem em construir um mundo preocupado em nos tirar, proibir e oprimir.

Que a morte tenha alcançado Agnès Varda em pleno voo.

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