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Western

Western

Ana Flavia Gerhardt - 14 de março de 2018

Em 1941, o governo búlgaro assinou um tratado de aliança com a Alemanha nazista, o que favoreceu os planos de Hitler para conquistar a Grécia e a Iugoslávia. Muito embora os cidadãos búlgaros não tenham demorado a organizar sua resistência à ocupação alemã, o colaboracionismo deve ser até hoje uma pedra no sapato dos búlgaros, assim como ocorre em outros países cujos governos se vincularam, por conta própria ou não, aos nazistas – algo que quase aconteceu com o Brasil, já que Getúlio Vargas manteve com o governo alemão relações bastante amistosas antes de debandar para o lado dos Aliados na década de quarenta do século passado.

O narcisismo típico do Homo sapiens o leva a imaginar equivalências e distinções entre os de sua espécie, inventando para isso critérios que se naturalizam e se descolam da reflexão e da autocrítica.

A premissa de que essa questão não deve ser matéria fechada entre os búlgaros, e muito menos para os alemães, define “Western”, da diretora alemã Valeska Grisebach, que também assina o roteiro. A riqueza do filme já é anunciada por seu título: a palavra western leva o espectador a imaginar tramas, personagens e cenários do Velho Oeste estadunidense: rivalidades e companheirismos masculinos, personagens solitários, cavalos, assuntos e negociações tratados sob a mira de armas de fogo, e isso tudo ele encontra no filme de Grisebach. Mas, ao mesmo tempo, western (oeste) é a região mais rica da Europa, onde se encontra a Alemanha, e nesse sentido esse país se opõe à Bulgária, situada no leste (eastern) europeu, menos favorecido economicamente. Esse segundo significado da palavra não nos vem à mente de imediato, mas rapidamente ele se impõe à medida que assistimos ao filme.

O excelente roteiro de Grisebach desenvolve ações, causas e consequências relacionadas a uma equipe de trabalhadores alemães que veio construir uma pequena usina hidroeléctrica na bucólica e montanhosa região de Petrelik, perto da fronteira entre Bulgária e Grécia. Quando Meinhard (Meinhard Neumann) chega e se junta aos colegas conterrâneos para ajudar na obra, os mais antigos já estão estabelecidos, mas não se relacionam com a pequena cidade próxima ao lugar em que se instalaram. Estrangeiro e solitário, sem grandes sentimentos patrióticos, Meinhard logo se interessa pelos búlgaros, e a amizade que se estabelece entre ele e as pessoas de Petrelik o colocam num lugar indefinido tanto para os alemães que trabalham com ele quanto para seus novos amigos. Estar nesse lugar traz a Meinhard prazeres e desavenças, não apenas entre os búlgaros, mas também entre seus compatriotas.

Símbolos identitários reforçam a percepção de pertencimento, mas também nos fazem acreditar que o que somos é determinado por princípios superiores e imutáveis.

Ao basear sua trama nas relações entre a Alemanha e a Bulgária, Grisebach se vê com uma tripla tarefa: lidar com a presença alemã pela segunda vez naquele país, sendo que as marcas da primeira passagem ainda devem estar nítidas na memória dos búlgaros; tratar desse fato não da forma como isso se dava na década de quarenta do século passado, mas sim da forma como as relações entre os países de desenvolvem no século vinte e um: em termos não apenas identitários, mas também das convivências e práticas cotidianas que, juntas, constituem o sentido de nação; e amarrar essas duas questões em um filme no qual elas tivessem unidade e relevância. E, de fato, como apresentarei nesta crítica, essa tarefa desafiadora é enfrentada por Grisebach de maneira brilhante e sutilmente amarrada, por meio da escolha em centralizar parte da trama no embate ideológico, e às vezes físico, entre Meinhard e seu chefe Vincent (Reinhardt Wetrek).

O comportamento imperialista de Vincent, completamente ajustado às perspectivas identitárias dos discursos sobre as sociedades, o aproxima da mentalidade que norteia os conquistadores e colonizadores: a opção pelo regime da força para manter com os dominados um jogo  de regras truculentas e desiguais. Vincent sabe que é detentor de superioridade tecnológica e que nasceu num país rico e poderoso, que interfere decisivamente nas políticas econômicas da Europa. Supondo-se superior por ser alemão, age de forma a aproveitar tudo o que pode daquela terra que, para ele, está paralisada no tempo. Sob o pretexto de aparentemente trazer melhorias para a qualidade de vida em Petrelik, Vincent, à semelhança dos seus antepassados que fizeram da aliada Bulgária caminho de passagem para a tomada e dominação da Europa, julga-se no direito de se apropriar e usar as coisas e as pessoas como bem entender.

Pode o opressor romper com a opressão?

Embora o sentimento de Vincent acerca dos búlgaros ainda guarde boa parte da xenofobia e da violência características do passado alemão recente, o que há de diferente agora é que elas não podem ser exercidas por meio da força e das armas. A coisa agora é feita, como em todo o mundo, por meio de políticas econômicas e investidas tecnológicas, como pivôs da chantagem sobre um país que, embora culturalmente rico (como todos, aliás), ainda não construiu uma auto-suficiência científica. Porém, igualmente, assim como o povo búlgaro buscou resistir à ocupação alemã durante a Segunda Guerra, o filme mostra que de novo uma resistência foi organizada, com foco definido sobre um objeto caro à moral alemã. E, novamente, os alemães têm de lidar com o fato de que sua invasão não surtirá o efeito que desejam.

Por outro lado, o comportamento aprendiz de Meinhard indica uma atitude de humildade e abertura às experiências que puder viver no diálogo e na convivência com os habitantes de Petrelik, enquanto estiver presente numa terra cuja beleza o faz parar seus afazeres para contemplar sempre que pode. Seu espírito delicado é capaz de criar laços com pessoas cuja língua desconhece (pelo menos a princípio). Ao longo do filme, tais laços vão se tornando fortes o suficiente para proporcionar a ele, e a nós também, vários encontros verdadeiros, cativantes e prazerosos: encontros em que ele sempre se dispõe aos ensinamentos oferecidos pelos habitantes de Petrelik, descendentes de grupos que têm habitado aquela região há tanto tempo quanto os povos germânicos têm habitado a Alemanha.

A amizade se torna possível quando estamos mais interessados nas igualdades do que nas diferenças.

A fotografia ensolarada de “Western” traduz o encanto de Meinhard e justifica seu desejo de permanecer por ali por mais tempo, flexibilizando as  barreiras identitárias a partir de práticas comunitárias: trabalhar o tabaco cultivado na região, aprender uma nova língua, participar das festas familiares, realizar consertos e melhorias em grupo, comer, beber e dançar, partilhar gostos comuns, estabelecer vínculos de afeto. O problema é que, com isso, Meinhard deseja fazer algo que quase nunca acontece: fazer com que o opressor, em vez do oprimido, busque romper com a relação de opressão. É evidente que, em função disso, ele sofrerá de ambos os lados as consequências de atitudes mal interpretadas.

Grisebach deixa clara aos espectadores a convicção de que o tempo de as pessoas acreditarem que são iguais a partir do que fazem em comum, em vez de se identificarem entre si por terem nascido em um determinado lugar, ainda não chegou. A forma como Vincent e os demais colegas de Meinhard reagem à sua atitude de amizade e camaradagem com os búlgaros evidencia isso fortemente. Meinhard rompe princípios identitários, e isso o faz recusar a obrigação de se colocar a favor de seus conterrâneos em todos os momentos. Ao mesmo tempo, por mais querido que ele seja pelos moradores, todos sabem que ele não é um deles: ele será sempre um alemão imperialista que detém o poder e poderá voltar para casa sempre que as coisas ficarem difíceis, e isso acabará aparecendo de alguma forma, e quando for oportuno.

“Western” representa de maneira coerente a escolha da alemã Valeska Grisebach por uma tentativa contínua de inaugurar formas de relação entre as pessoas que sejam mais marcadas pelas igualdades do que pelas diferenças, por mais doloroso e frustrante que isso possa ser, de vez em quando. Para quem, como o inteligente Meinhard, se dispõe a aprender sempre, o copo sempre estará meio cheio, e os conhecimentos obtidos sempre valerão mais do que as feridas adquiridas. O filme de Valeska Grisebach é um sopro de esperança num tempo em que o ódio ao diferente tem sido um discurso com cada vez menos receio de mostrar a sua cara, e alimenta a certeza de que os que acreditam na possibilidade de diálogo contínuo entre as pessoas não estão sozinhos.

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