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XConfessions e o mal estar do neoliberalismo

XConfessions e o mal estar do neoliberalismo

Os vídeos de sexo explícito de Erika Lust, embora assépticos, oxigenam o diálogo contemporâneo sobre sexo e afetividade.

Ana Flavia Gerhardt - 16 de junho de 2019

Em um dos vídeos de “XConfessions”, mãe e pai arrumam o quarto do filho pequeno, aproveitando que ele não está em casa. A descoberta de um objeto semelhante a um dildo em meio aos brinquedos é o gatilho para que eles se engajem num sexo selvagem em cima do tapete. A cena, inspirada em um dos depoimentos dados ao site xconfessions.com, já dá o recado da diretora sueca Erika Lust: mães não estão mortas para o sexo, mães também querem transar.

Num outro vídeo, os parceiros brincam de inverter os papeis: o homem se deixa penetrar pela mulher que usa uma cinta com um pênis de borracha acoplado, algo que já vimos em “Deadpool” e “Sense Eight”. Outro recado dado: mulheres heterossexuais gostam de homens que não se sentem ameaçados em sua masculinidade.

Situações assim não são comuns em vídeos e canais de TV voltados para 0 sexo explícito. Geralmente, eles exibem uma pornografia supostamente voltada ao gosto masculino: homens servidos por mulheres num sexo genital e desidratado; fetiches masculinos, como práticas lésbicas de mulheres cisgênero, ganhando imagens; e homens que nunca se tocam, se eventualmente estão presentes em alguma prática sexual grupal.

Além disso, a violência em alguma medida não fica de fora: não raro mulheres levam tapas nas nádegas e no rosto e aparecem imobilizadas de alguma forma. Nada mais previsível: se visitarmos qualquer museu de arte na Europa, encontraremos obras dos séculos passados em que mulheres são estupradas, torturadas, sequestradas, flageladas, queimadas e assassinadas. Ou seja: não é de hoje que muitos homens adoram bater em mulheres, e não poucos ainda acreditam que não temos nenhum desejo nem prazer sexual. Por que então em canais pornô isso mudaria?

Pornografia e diversidade sexual: uma possibilidade contemporânea

A socióloga de formação Erika Lust se propôs a fazer diferente: sua ideia é a de realizar vídeos materializando aquilo que, em sua opinião, seriam as fantasias sexuais femininas. O produto final tem qualidade visual superior à média do que os canais de TV brasileiros apresentam: há um cuidado com a luz e com a trilha sonora para envolver o espectador num ambiente de fantasia, às vezes até romance, que é algo que supostamente as mulheres gostam de incluir em suas práticas sexuais.

Outro diferencial dos vídeos de Lust é o que entra no quadro. A ênfase não é dada à genitália feminina, algo que ocupa a maior parte do tempo em vídeos pornográficos convencionais, voltados apenas para a satisfação masculina. Há muitas expressões faciais de um prazer que parece genuíno, e muitas mostras de cumplicidade entre os parceiros. Em alguns casos, os atores procuram deixar claro que estão ali interpretando pessoas que mantêm entre si alguma relação afetiva. Afinal, sexo com amor também é gostoso.

Auto-declarada feminista, Lust iniciou a carreira de diretora repetindo alguns elementos dos vídeos destinados aos homens. Por exemplo, nas cenas de sexo grupal com homens e mulheres nos primeiros volumes de “XConfessions”, apenas as mulheres se tocavam e transavam entre si. Os homens não se tocavam em hora nenhuma, o que é de uma artificialidade bizarra, porém planejada. Ou seja, se tratava de vídeos feitos para agradar aos homens heterossexuais que apreciam mulheres cisgênero transando, e não às mulheres de diferentes orientações sexuais, algo que seria de se esperar de uma cineasta feminista.

Em “Hot girls wanted”, produção da Netflix de 2015, Lust reconheceu a falta de diversidade nos vídeos e justificou suas escolhas com a dificuldade de encontrar, no ramo, atores que estivessem fora dos padrões das produções convencionais. A diretora ainda salientou as dificuldades de trabalhar com a maioria dos atores, porque eles tendiam a repetir as atitudes violentas e subjugadoras presentes nas produções às quais estão habituados.

O elenco é de fato o maior problema dos primeiros vídeos de Lust. Os atores não aparentam ter mais de 25 anos de idade e não apresentavam mais do que dez por cento de gordura corporal. Quase todos são bonitos e brancos, mesclando-se aos tons pasteis dos ambientes escolhidos para seu sexo ser filmado. Em última instância, não nos identificamos nem com eles nem com o tipo de sexo que estão fazendo. Ao vermos seguidamente a tantos vídeos que se repetem nesse entorno asséptico, em vez de tesão, o que nos dá é mal estar.

O grande paradoxo: ver gente fazendo sexo e não sentir prazer

O termo “mal estar” atribuído às realizações culturais, econômicas e políticas humanas foi usado pela primeira vez por Sigmund Freud para intitular o ensaio “O mal estar da civilização”. Em termos muito resumidos: Freud trata da supressão do desejo sexual e da libido em função da necessidade de se construírem as sociedades. Por ser eminentemente individual, o desejo atrapalharia a edificação das culturas e o desenvolvimento das civilizações, que necessitam do empenho e da energia coletiva em função de um benefício necessário a todos, que é a sobrevivência em comunidade.

Instituições sociais como as religiões, por exemplo, foram criadas para regular nossa sexualidade, ressignificando o sexo para atender à necessidade de procriação e auxiliando na promoção da sublimação do desejo, direcionando a libido para a criação artística, intelectual e científica, que é um bem caro ao progresso das nações.

Com o tempo, se aprendeu que a sacralização do sexo para procriação e a tentativa de supressão total do orgasmo era prejudicial à proposta civilizatória, já que a repressão sexual podia produzir perversões socialmente inaceitáveis. Assim se passou a tolerar válvulas de escape como os prostíbulos – até Gilead tem a sua casa da luz vermelha. Evidentemente, esse escape era mais franqueado aos homens do que às mulheres, que passaram a ter seu valor pessoal julgado em função de sua vida sexual.

Com a emergência do capitalismo industrial, aproveitou-se a estratégia de controlar o sexo pela religião para se sublimar o desejo em função da produção em série que a industrialização demandava – afinal, gente que transa muito produz pouco. O culto à forma física perfeita também se tornou um elemento de repressão sexual: gente bonita e jovem tem mais chances no “mercado” do sexo do que quem já “passou da idade” e se tornou ridículo por buscar parceiros sexuais, e/ou está fora do peso ideal para arriscar estripulias atléticas na cama ou qualquer outro lugar onde se possa ficar mais ou menos na horizontal.

Nem juntos nem shallow now

Quando o capitalismo se tornou majoritariamente financeiro e passou a assumir feições neoliberais, e as pessoas deixaram de ser úteis em termos de produção, emergiu a ideia do ser humano como empresário de si mesmo, nos termos de Michel Foucault. Essa nova subjetividade desobriga as elites de manterem fábricas e funcionários, e as libera para investirem no mercado de capitais e emprestar dinheiro ao governo a juros abusivos, como acontece no Brasil.

Com a retração do trabalho assalariado, as pessoas são obrigadas a se tornarem empreendedoras, ou seja, a se virarem do jeito que dá, porque os que poderiam ser seus patrões estão agora mais interessados em serem rentistas dos bancos e se tornarem ainda mais bilionários às custas dos impostos dos mais pobres. Porém, de todo modo, ainda assim é preciso reprimir a sexualidade, porque gente que goza é sempre perigosa. Para isso, as religiões continuam a servir eficientemente ao capital, demonizando o sexo fora do casamento e/ou da heteronormatividade.

Da mesma forma, é preciso também haver a válvula de escape, agora pela pornografia facilmente acessível pela internet e pelos canais pagos. A grande questão é que essa pornografia não pode ser libertadora nem empoderadora: não se pode de forma alguma sugerir ao oprimido e colonizado qualquer tipo de potência.

Para que o mal estar da civilização se perpetue, agora sob o jugo neoliberal, oprimidos e colonizados precisam estar excluídos de todas as instâncias de humanização, inclusive a felicidade obtida na companhia do outro, já que estar juntos ainda é a maior ameaça à opressão, como mostra com clareza cristalina o livro “1984”, de George Orwell. Como oferecer um sexo sem potência? Produzindo um sexo praticado por pessoas que nunca conseguiremos ser.

Consciente desse problema, Erika Lust incorporou outros tipos de práticas e personas sexuais a seus vídeos. Os volumes mais recentes de XConfessions (este ano sai o volume 16) já incluem pessoas com sobrepeso, transgênero e não-brancas; incluem também sexo praticado por dois homens cisgênero e pessoas idosas. Essa ampliação do espectro humano em seus filmes não rompe com o modelo neoliberal, mas já é um caminho. Podemos agora nos identificar com as pessoas interpretando situações de prazer sexual, muito embora os cenários anda sejam por demais assépticos e montados.

Vamos pra Cuba?

Assisti aos vídeos de “XConfessions” me lembrando da mostra do coletivo de arte cubano Los Carpinteros, que passou pelo CCBB em 2016. Denominada “Objeto vital”, a mostra incluía um vídeo em preto e branco dividido em três partes. Em cada uma delas, um casal de uma geração fazia sexo em um cômodo de janelas abertas, que exibiam com luz natural a pobreza característica de Havana. Primeiro, dois jovens, a moça ainda de uniforme escolar; após eles, um casal na casa dos trinta, quarenta anos, ainda belos, mas já apontando para o ganho de peso e os cabelos brancos que a idade impõe; por fim, um casal de meia idade caminhando para a velhice, e completamente fora dos padrões estéticos que selecionam atores como os que vemos nos primeiros vídeos de Erika Lust.

No curta dos cubanos, somos convidados a enxergar nosso próprio passado, presente e futuro. Nele, as transformações e decadências do corpo não são tomadas como impeditivos para o toque do outro e o prazer a dois. Assistindo ao curta, entendemos que os cenários para estarmos com quem a gente deseja são os que estão à mão, a partir do reconhecimento de que, quando o desejo vem, ele não escolhe a melhor decoração, nem a melhor luz, nem a melhor fotografia, e muito menos a melhor pessoa. Ele vem com a urgência de ser vivido, e isso é o que deveria bastar.

Observando como o sexo é filmado fora das imposições exclusivistas do neoliberalismo, é possível confirmar mais uma vez como é feita a captura imperialista de nossas necessidades mais primordiais. É criando interdições de idade, aparência, classe, raça e peso para que se tenha direito ao prazer com quem se deseja, e definindo a priori os modos e lugares em que podemos gozar sem medo: solitários, em frente ao monitor,  e sem a vergonha da exibição de nossos corpos imperfeitos e de nossa velhice invencível. Não é por acaso que muitos rapazes ingerem a pílula azul e muitas meninas se flagelam em bulimia e anorexia: até os jovens são capturados pelas imposições estéticas do sexo neoliberal.

Tomara que Erika Lust e outras cineastas do gênero logo expandam mais ainda as ideias inclusivas materializadas em suas produções. Isso pode auxiliar na ruptura das amarras capitalistas que, se permitirmos, nos arrastam para o abismo da impotência, e pode nos guiar para a verdadeira descolonização e democratização do sexo e do afeto na TV, no Cinema e na internet.

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