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Years and Years – 1ª temporada

Years and Years – 1ª temporada

Uma amostra do que vai e do que não vai nos acontecer no futuro próximo

Ana Flavia Gerhardt - 6 de agosto de 2019

Este texto traz spoilers sobre a série que se propõe a discutir.

Primeiro levaram os negros
mas não me importei com isso,
eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis,
mas eu não me importei com isso
eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
também não me importei
Agora levam-me a mim
Mas já é tarde
como não me importei com ninguém
ninguém se importa comigo
Bertolt Brecht

Essa mensagem é reforçada com os outros temas transversais que “Years and Years” aborda tendo como eixo a família Lyons. Além de Muriel, Stephen e Celeste, ainda há suas filhas e os outros três irmãos de Stephen, cada qual com problemas relacionados ao estado de coisas político e econômico que a série retrata: a grande contradição de um futuro que promete um mundo melhor, mas apenas para poucos, e o fato de que a grande maioria das pessoas ainda não se deu conta disso.

Stephen perde muito dinheiro no estouro da bolha financeira, o que obriga a família a viver com Muriel, algo que é difícil principalmente para Celeste. Seu irmão Daniel (Russel Tovey) enfrenta a angústia da deportação de seu namorado ucraniano e a expansão das leis discriminatórias contra estrangeiros por toda a Europa Ocidental. Sua irmã Edith (Jessica Hynes), uma ativista política, é a consciência principal acerca da realidade trágica ocasionada pela ascensão ao poder dos movimentos de extrema direita em todo o mundo.

 

Os irmãos Lyons

Rosie (Ruth Madeley) é a cidadã comum que não se importa com o jogo político; até comparece às eleições, mas acha engraçadas as figuras ridículas da extrema direita, sem notar o retrocesso civilizatório embutido nas palavras de ordem vazias e na falta de projetos que todo discurso racista e ultranacionalista veicula.

Cada um dos irmãos traz características comuns às pessoas que compõem o atual tempo do mundo e suas contradições. Entretanto, eles se diferenciam quanto à compreensão que desenvolvem acerca da realidade que os cerca e que os anos vão tornando mais difícil, no sentido posto pelo poema de Bertold Brecht que coloquei em epígrafe.

Daniel e Edith, sobretudo por suas condições existenciais, rapidamente reconhecem o regime de exceção que bate à sua porta (em um dado momento chegará a bater literalmente). Por sua vez, Stephen e Rosie são pessoas aparentemente bacanas – são os chamados cidadãos de bem, os humanos direitos, para quem os governos de extrema direita alegam estar voltados. Porém, ao longo dos episódios, as imposições econômicas e sociais destinadas a quem não é eles, ou seja, quem não é inglês, ou branco, ou heterossexual, aos poucos vão alcançando pessoas como eles. À medida que isso ocorre, eles passam a compreender que o fascismo não poupa ninguém.

O grande poder discursivo de “Years and Years” está em montar de forma orgânica o caleidoscópio de ações e reações que constitui o momento histórico que vivemos, mostrando a nós brasileiros que o pesadelo político, econômico e sobretudo ético não abate somente a América do Sul. Há um grande movimento de endireitamento do mundo causado sobretudo pelo racismo e pelo pânico que os europeus brancos alimentam em relação às migrações forçadas por crises provocadas em grande medida pelos países do primeiro mundo em guerra comercial.

Edith Lyons

Esse racismo é o combustível que impulsiona as candidaturas de extrema direita, que prometem trazer de volta um tempo que era muito bom para os europeus e norte-americanos brancos, mas que se sempre se sustentou às custas do trabalho quase escravo de milhões de cidadãos de países pobres. As pessoas racistas não são capazes de ver a injustiça e a insustentabilidade do modelo de mundo exclusor que desejam, e por isso também não são capazes de ver que assinam a própria sentença de miséria ao votar em candidatos que dizem o que elas querem ouvir enquanto lhes roubam as economias e as entregam às megacorporações financeiras.

Outro grande trunfo da série é o de mostrar que os fascistas que em todo o mundo estão alcançando o poder pela via do voto não variam em discurso e ações, e que eles estão ganhando espaço porque ou as pessoas pensam como eles, ou não se importam com o que eles dizem e fazem. Demonstrando o modus operandi dessas pessoas, Emma Thompson encarna Vivienne Rook, versão feminina daquele que ganhou a última eleição para presidente no Brasil (que continua sendo inspiração para artistas no mundo todo, mas agora não pelo que temos de melhor…).

Rosie Lyons, aquela que quer ver o circo pegar fogo, apoia a candidata independente que ascende com rapidez à posição de Primeiro Ministro britânico, achando divertida a sua recusa em debater temas de relevância para a sociedade. Só consegue se dar conta do que a Inglaterra se transformou quando os espaços sitiados chegam à sua própria vizinhança e, por fim, quando ela mesma se vê sitiada, e mais paralisada do que as pernas que a mantêm numa cadeira de rodas.

Vivienne Rook

Stephen é o outro tipo de alienado, que não consegue enxergar a crise global além dos seus efeitos em sua esfera pessoal, algo que por exemplo está presente na anuência de muitos cidadãos brasileiros ao discurso que defende o trabalho infantil, a leniência a fazendeiros que impõem a seus empregados trabalho análogo à escravidão, a morte de presidiários em rebeliões e a posse e porte irrestrito de armas como projeto governamental contra a criminalidade. Quando percebe que quem assumiu o poder está retomando práticas genocidas, Stephen imagina de que maneira aquilo atender aos seus interesses.

Em seus cinco primeiros episódios, “Years and Years” é uma amostra do que vai nos acontecer se prosseguirmos na marcha em direção à realização de nossos delírios racistas mais perigosos. A série descreve nossa tragédia histórica como humanidade, provocando em nós o espanto de reconhecermos que o que tem motivado massacres gigantescos ao longo de toda a nossa história é sempre a mesma coisa: nossa repulsa a quem julgamos diferente.

Ou seja: não aprendemos nada, não evoluímos em nada. Somos capazes, em 2028, de curar muitas doenças e nos tornar redes tecnológicas de informação ambulantes, como sempre desejou Bethany (Lydia West), a filha de Celeste e Stephen. Mas ainda continuamos incapazes de compaixão e empatia, e ainda agimos por instinto primário de nos salvarmos apenas a nós mesmos, ainda que isso custe a vida de muita gente.

Guerra aos políticos

Muitos articulistas têm afirmado que o que está acontecendo conosco veio para ficar. A nova fase do capitalismo, agora em sua versão financeira, supera o capitalismo industrial em sua prescindibilidade das pessoas. indústrias não são mais necessárias, já que os grandes bilionários não mais precisam da mais-valia para enriquecerem. Podem fazer isso negociando seus bilhões nos bancos de investimento (na verdade, bancos de aplicação, já que só há investimento quando o dinheiro empregado se destina a uma produção de riqueza real).

Ou, como no caso de paraísos fiscais como o Brasil, emprestando dinheiro ao governo e vivendo nababescamente da renda pornográfica que os juros altíssimos lhes garantem. Sem indústrias, sem trabalho, para que haver pessoas? Elas não são mais necessárias. Serão eliminadas pouco a pouco, num estreitamento das esferas sociais que resumirá as sociedades ao que elas têm de mais restrito – famílias, ou nem isso.

Ao tratar do presente como uma estrutura de mundo, as questões de “Years and Years” não têm solução no horizonte que se apresenta neste momento. Não haveria como construir um final feliz; ele seria inverossímil. Por esse motivo é que o último episódio acaba comprometendo a série como um todo, já que trata como um problema pontual e restrito à Inglaterra algo que envolve toda a humanidade e está em processo de expansão.

Então, diferentemente dos cinco primeiros episódios, o sexto episódio de “Years and Years” é uma amostra do que não vai acontecer. Não, o retrocesso civilizatório não vai arrefecer se apenas nos conscientizarmos e realizarmos ações lacradoras e catárticas, como acontece na série. É ingênuo demais acreditar nisso, embora seu final provavelmente tenha agradado a quem aprecia desfechos emocionantes que fazem as pessoas se sentirem bem e confortáveis com finais felizes. Infelizmente, ao recusar o desafio de incomodar verdadeiramente e provocar a reflexão das pessoas, como por exemplo fez “Chernobyl”, a condescendência do final de “Years and Years” desempodera a série.

O racismo é a manutenção de um alcance restrito de reconhecimento, por parte das pessoas, de quem é igual a elas. Isso faz com que elas reservem para uma porção gigantesca do mundo a estranheza e a recusa violenta em estar junto, em partilhar espaços, riquezas e informação. A meu ver, o antídoto mais poderoso para o racismo é a educação num sentido amplo, que pode ajudar as pessoas a expandir em sua mente os círculos sociais e culturais em que elas se sentem e se percebem entre iguais.

Toda mudança social implica mudanças individuais. Portanto, precisamos começar a educar a nós mesmos, em vez de ficar paralisados, perplexos com o tecido social esgarçado em que estamos enredados, esperando que as coisas mudem sem que tenhamos de mudar junto com elas.

O melhor par para a oposição racismo x educação é a oposição entre ignorância e conhecimento. Sair da condição de ignorância sobre a causa da desigualdade e da injustiça no mundo é condição fundamental para nos tornarmos menos racistas. Isso leva mais tempo do que o definido pelo final de “Years and Years” para a mudança do mundo. Como o próprio título da série avisa, isso demanda anos e anos. E, enquanto não começarmos, vai demorar mais ainda.

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