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Z – A cidade perdida e o presente impartilhável

Z – A cidade perdida e o presente impartilhável

Ana Flavia Gerhardt - 17 de julho de 2017

Sob o sol do semi-árido africano, um homem se banha aproveitando o chuveiro improvisado junto à parede externa de um pequeno cômodo. Enquanto a água naturalmente aquecida elimina a poeira e o sabão de sua pele francesa, outro homem, chamado Protée, empregado da propriedade e habitante do lugar, se aproxima e lhe diz: “esse é o chuveiro dos garotos”. Ao ouvir isso, o homem branco apenas responde: “Protée, você é um saco”, e, ao sair, carrega uma das toalhas das mãos do empregado.

O espectador testemunha essa e outras cenas do filme Chocolat, de Claire Denis, em que o francês insiste em se colocar e fazer coisas nos lugares que as pessoas africanas reservam para si a fim de resguardarem-se minimamente da invasão total e completa dos europeus sobre seus territórios, leis e culturas: ele viaja nos mesmos lugares que elas, come à mesma mesa, busca dormir da mesma maneira, atribuindo a si um direito natural de se comportar como os povos invadidos, mas nunca, evidentemente, abrindo mão de suas prerrogativas de homem branco, de sua vontade soberana e de seu “valor” em relação a elas, mesmo num lugar ocupado e cuidado por elas há pelo menos vinte mil anos.

O filme descreve uma situação que se repetiu em toda a África: quando não expulsaram as pessoas dos seus lugares, cartografando segundo seus interesses um espaço de realidade que sequer se dispuseram a conhecer, e separando nações e famílias em países diferentes, os europeus ignoraram as práticas de vida das pessoas e as varreram do espaço físico, impondo ali com mão de ferro o seu entendimento de “civilização”. Aos dominados, couberam as sobras dos banquetes e a honra de os servir. O comportamento do francês serve tão-somente para mostrar que todos os lugares agora são dos europeus, e o mínimo que resta às pessoas do lugar, e é concedido como benesse por seu bom comportamento, pode ser tomado a qualquer momento, basta eles quererem.

Chocolat nos expõe a cada quadro a dimensão horrenda da invasão europeia sobre os povos da Àfrica – situação que metonimiza toda forma de invasão branca que violentou e violenta por séculos os outros povos do resto do planeta. É preciso salientar a forma absolutamente corriqueira que Denis confere a essa invasão, dedicando longa parte do seu filme a expor a naturalização da violência dos europeus sobre os povos africanos no dia-a-dia de uma família francesa em Camarões. A aparente tranquilidade da vida do lugar, com cada um executando com tranquilidade a tarefa que lhe cabe, escancara o caos total que caracteriza a última instância da opressão de um grupo sobre outro, que é quando tudo se torna normal.

Tudo isso acontece porque a civilização europeia cristã, além da ganância desenfreada, traz em seu DNA a incapacidade da partilha do espaço em condições de igualdade de forças. A ocupação de espaços é realizada pelo desejo de poder, prestígio e riqueza, e é empreendida sob a condição de que os europeus se tornem donos do lugar, não importa se esse lugar já tenha dono – ou, na grande maioria dos casos, haja pessoas que estão ali apenas pertencendo ao lugar e cuidando de si mesmas e dos seus semelhantes.

À incapacidade de partilhar os mesmos espaços, soma-se a incapacidade de partilhar o tempo: em artigo publicado esta semana, o psicanalista Christian Dunker aponta para o lugar da civilização cristã em relação às alteridades que ela reconhece, tendo em vista o que entendemos como presente, passado e futuro: Ao islã é destinado o tempo passado, quando era uma cultura avançada que nos legou a Matemática e a Medicina, e que agora soçobra sob o peso do conservadorismo fanático e da teocracia; o futuro, o utópico, é o lugar do budismo e de sua filosofia baseada em desprendimento, meditação e sabedoria, algo impossível de cultivar na estrutura cognitiva ocidental. E o presente é o tempo de existência, pensamento e ação do cristianismo e seu irmão siamês capitalismo, e das culturas que abraçam sua ética e seus modelos de subjetividade, política e economia.

Chocolat, assim como o filme Z – A cidade perdida, nos mostram que, além de nós ocidentais ocuparmos o tempo presente, não temos a capacidade para partilhar esse mesmo presente com quem não reconhecemos como iguais. Ora, sabemos bem que a História, assim como a Filosofia, a ciência e a religião, é uma invenção masculina. É sempre uma história de quem “venceu”. Relega à coadjuvância dos seus registros as mulheres, os não-brancos, os pobres e os “perdedores”, isso quando não os apaga completamente. A quem acreditar que essa era uma ideia do passado, lembro por exemplo a obra fotográfica Gênesis, de Sebastião Salgado, publicada em 2013 a partir da proposta de registrar paisagens originais primitivas da Terra: ao fazer isso, Salgado incluiu, da mesma forma que fez com os pinguins da Antártida e os ursos do Ártico, as civilizações que estão vivendo nelas desde antes dos primeiros documentos históricos europeus. Mais positivista impossível.

O conceito, hoje desmentido, de que existem culturas mais e menos evoluídas é uma das ideias problematizadas pela trama do filme, e está presente em alguns dos dispositivos narrativos usados para evidenciar como pensavam os ingleses das classes sociais de prestígio no fim do século dezenove e início do século vinte: eles, os europeus (junto com os estadunidenses), eram superiores em intelecto e modo de vida aos outros povos do mundo, e cabia a eles cartografar esse mundo para definir quais nações se apropriariam de quais territórios. Não importava se ali já houvesse povos que eles nunca haviam visto na vida; essas pessoas eram primitivas, portanto deveriam ser dominadas, domesticadas e usadas como servas para auxiliar na consecução dos seus nobres ideais. A Royal Geographic Society foi criada não apenas para empreender e patrocinar as expedições de cartografia, mas também para louvar a si mesma e condecorar os aventureiros bem sucedidos, que, com seus feitos, eram alçados ao topo da rígida hierarquia social britânica da época.

Percy Fawcett (Charlie Hunnan) almejava ser um desses homens, na tentativa de superar a herança maldita que um pai proscrito lhe havia legado. Retornando da bem-sucedida expedição para definir fronteiras entre a Bolívia e o Brasil e encontrar a nascente de um rio amazônico, Fawcett relata à Royal Geographic Society sua conquista, e o faz banhado em intensa luz, numa aura atribuída aos seres humanos elevados, não apenas por ser homem e branco, mas também por ter assegurado aos que o ouviam a certeza de que a convicção acerca da natural superioridade europeia sobre os povos americanos autóctones estava mais uma vez confirmada. Ou seja, em seu presente, apenas eles existiam, imperantes e absolutos. Por esse motivo é que as provas de que na América do Sul também havia uma civilização capaz de organizar-se socialmente, assim como eles, foram de início rechaçadas, para depois servirem de motivo para uma nova expedição.

A meu ver, entre as muitas virtudes de Z – A cidade perdida, está o fato de que o filme não caiu na resolução fácil de nos expor um personagem transformado ética e existencialmente ao constatar sua humanidade e pequenez num planeta tão vasto e tão diverso, no contato com sabedorias e tecnologias sofisticadas, voltadas para resolver problemas de sobrevivência e convivência, e ao comprovar que havia outras cosmologias e entendimentos de mundo que sequer tangenciavam a episteme e a subjetividade cristã. Fawcett, como um homem do seu tempo, permaneceu tão competitivo quanto era antes de viajar; seu desejo de retornar à Amazônia após uma expedição malograda se justificava não por descobertas existenciais que apenas lá ele sabia que faria, mas sim pelo desejo de ser o primeiro em alguma coisa, antes dos estadunidenses, antes até dos seus compatriotas. O desejo de seu filho adulto (o onipresente Tom Holland) de aventurar-se mais uma vez em busca da cidade mítica do título do filme motivava-se pelas mesmas razões, que não foram contestadas por Fawcett.

Outra grande virtude do filme é a de deixar claro que, muito mais do que ser uma narrativa de aventura, Z – A cidade perdida é a história de um homem que desejava partir para longe de sua terra, mas sem o desejo de com isso transformar-se como pessoa, porque não conseguia reconhecer uma alteridade através da qual poderia olhar para si mesmo de outras e novas maneiras. Isso não lhe era possível porque ele não compreendia que o seu presente também era ocupado por outras pessoas que também estão em outros lugares a construir práticas de vida tão legítimas quanto a sua, já que esse reconhecimento implica admitir também que a existência, os desejos e as formas de vida dessas pessoas também são tão legítimas quanto as dele – algo que ele parece não ter aprendido em plenitude.

É claro que há aprendizados que Fawcett manifesta ao longo da vida, os quais o fazem por exemplo questionar os padrões sociais ingleses que escamoteiam a covardia e o egoísmo sob os protocolos e os privilégios de nascimento. Mas fica bastante evidente, através de algumas de suas palavras e ações, a sua dificuldade em compreender que todos somos iguais, independentemente do gênero, da cor da pele, da língua e do lugar em que nascemos, porque, entre outros motivos, ele nasceu e cresceu numa sociedade onde nem entre os iguais há igualdade.

Eu escrevo isso me sentindo um tanto estranha ao repetir algo aparentemente tão óbvio, mas sabemos bem que não é. Sabemos que o que personagem Fawcett não aprendeu é uma das coisas mais difíceis de aprender, tanto é que ainda hoje precisamos reiterar isso, porque as maiores injustiças e genocídios são perpetrados com base na desigualdade entre as pessoas, e se justificam na naturalização dessa desigualdade. Filmes como Z – a cidade perdida mostram que essa ideia assume compreensões e facetas sofisticadas, relacionadas ao espaço de convivência, mas também ao tempo em que se vive, algo que as sociedades ocidentais também têm grande dificuldade em partilhar. Se estamos nesse pé, de fato não é numa só vida que nos será possível aprender o que precisamos para estarmos juntos sem nos destruirmos uns aos outros. Se for assim, cuidemos, então, para que pelo menos num tempo histórico, mesmo futuro, isso possa ser conseguido.

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