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Temporada de Caça (1997)

Temporada de Caça (1997)

Como nossos pais

Wallace Andrioli - 27 de Maio de 2019

A história de “Temporada de Caça” poderia caber num filme dos irmãos Coen. Seu protagonista, Wade Whitehouse (Nick Nolte), é daquelas figuras que ambicionam ser muito mais do que são e, no processo de tentar concretizar seus objetivos, acabam se embananando em tramas policiais intrincadas e perdendo o pouco que já têm na vida. Mais ou menos como Jerry Lundegard (William H. Macy) em “Fargo” (1996) e Llwelyn Moss (Josh Brolin) em “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007). Na verdade, as trapalhadas de Wade, que acredita farejar um assassinato onde tudo aponta para uma morte acidental, lembram mais especificamente as dos personagens de “Queime Depois de Ler” (2008), homens e mulheres medíocres que se veem envolvidos numa conspiração imaginária.

Mas apesar de, como os Coen, Paul Schrader diagnosticar essa espécie de doença da sociedade americana, que leva a uma busca constante pelo extraordinário por pessoas absolutamente ordinárias, o tom adotado em “Temporada de Caça” é bastante diverso. O filme carrega a típica austeridade do cinema de Schrader. Seus personagens estão mergulhados no cotidiano enfastiante de Lawford, pequena cidade do interior de New Hampshire onde nada importante acontece, e a narrativa se mantém sempre coerente com essa condição, acompanhando com uma lentidão quase bressoniana as etapas da jornada de Wade.

O elemento trágico que existe em “Temporada de Caça” está perfeitamente integrado a esse cinema minucioso e rigoroso, diluído no registro de momentos aparentemente desimportantes da vida do protagonista, ele próprio um sujeito irrelevante mesmo na dinâmica interiorana da cidade em que vive. A tragédia se manifesta na relação de Wade com seu pai, Glen (James Coburn), homem bronco, alcoólatra e com histórico de violência familiar. O filme se ergue sobre um espelhamento dos dois personagens, com o primeiro tentando, em vão, evitar seguir os passos do segundo. Todas as cenas de Nolte e Coburn juntos são excelentes, reveladoras de uma tensão latente que esporadicamente explode em confronto verbal e físico, logo apartado por terceiros ou reduzido a uma incompatibilidade de Glen com o mundo moderno.

Mas o entendimento de que Wade é uma versão melhorada do pai vai caindo por terra conforme o protagonista se torna mais agressivo com outros membros da comunidade. É admirável o cuidado de Schrader na explicitação de sua transformação aos olhos dos conterrâneos. A sequência em que isso se concretiza tem início com aquela que é provavelmente a melhor cena de “Temporada de Caça”: numa conversa agressiva entre Marge (Sissy Spacek), namorada de Wade, e Glen, ela vê o sogro repetindo o gesto habitual do protagonista de comer sal derramado sobre a própria mão, entendendo, com o olhar desiludido, o que a esperaria num futuro não tão distante.

Aqui o filme afasta de vez comparações com os irmãos Coen, para tratar diretamente não só da história de um homem medíocre sendo destruído pela própria ambição, mas da espécie de maldição humana de repetir os erros dos pais. O emblemático plano final de um celeiro em chamas, com o cadáver de Glen dentro, remete a Tarkovski e confirma a intenção de Schrader de discutir tal questão. Se no epílogo de “O Sacrifício” (1986) Alexander (Erland Josephson) incendeia a própria casa para romper com passado e presente apocalípticos e permitir a continuidade da existência em seu filho, no de “Temporada de Caça” Wade mata o pai e destrói seus restos mortais, na esperança de começar uma nova história, livre da herança destrutiva de Glen. Mas o resultado é seu desaparecimento completo, narrado em over pelo irmão (Willem Dafoe). Essa é a sina trágica do protagonista: sem a identidade forjada na criação violenta de seu pai, ele não é nada.

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